O Belchior já não estava mais lá

Ele queria ser apenas um rapaz latinoamericano, mas eu não deixei, foi sem querer, mas eu não deixei. É que todos meus amigos já jogavam o tal do Pokémon Go — e eu continuava aqui, nessa plataforma de auto publicação meio monótona.
E já que a carne é fraca, eu disse isso uma vez para um amigo vegetariano e acho que ele não gostou, não entendeu muito bem, eu também instalei o tal do Pokémon Go no meu smartphone.
E, naquela música, ele dizia que não tinha dinheiro no banco (e eu também não), que não tinha parentes importantes (e eu também não), que vinha do interior (e eu também) e, por isso, eu achei mesmo que a gente tinha tudo a ver.
Foi nisso que eu apostei quando eu instalei, eu sei, eu sei que ele jamais instalaria o tal do Pokémon Go — não deve ter instalado até agora em algum lugar do Uruguai onde ele está — mas foi nisso que eu pensei quando instalei o tal do Pokémon Go: para encontrar o Belchior.
E foi triste, triste como aquele disco dele que eu ouço toda vez (e estou ouvindo agora de novo), o Alucinação, quando eu encontrei o Belchior no Pokémon Go.
“Belchior, é você!”, mas ele não estava interessado em nenhuma tioria, “HAHA, VOCÊ DISSE TIORIA”, e eu percebi como aquilo tinha sido chato e preconceituoso.
Eu até pedi desculpa, porque eu nunca fui assim, “Eu nunca fui assim, Belchior!”, mas quando eu decidi que era hora de capturar o Belchior e saquei o meu Charizard, o Belchior já não estava mais lá.
E agora eu penso, sentado no meu sofá, “Quanto custa uma passagem pro Uruguai?”, porque eu ouvi dizer: parece que tem um Dragonite por lá.