Paul McCartney era uma tora

Paul McCartney cutucava o gelo em seu copo de gim enquanto esperava o motorista chegar. Ele gostava do barulho que o gelo fazia e procurava um novo ritmo nele. Quando o motorista de Paul McCartney chegou, Paul McCartney tratou de esgotar seu copo de gim com uma longa golada. Uma golada que o fazia lembrar de John com alguma saudade.

O elevador do hotel em que Paul McCartney estava hospedado fez questão de parar em quase todos os andares, onde hóspedes comuns, hóspedes diferentes de Paul, entravam e acenavam com a cabeça, uns aos outros. Paul McCartney acenava, inclusive, de volta, sem que fosse percebido por nenhum deles.

Isso porque Paul McCartney vestia uma peruca. Uma peruca e óculos escuros. Paul McCartney parecia um integrante dos Ramones, tanto faz, qualquer um deles, não faria diferença. Na recepção, aliás, Paul havia se identificado como “Paul Ramone”, e apresentado um RG falso que um amigo tinha ajudado a fazer.

Os óculos escuros que Paul usava eram redondos. E faziam Paul lembrar do seu amigo John.

Paul McCartney se dirigia ao local onde aconteceria o Grammy, mais um em tantos anos de carreira de Paul. Ele lembrava de outros Grammys e sentia saudades. Paul sentia saudades de quando era jovem. De quando tinha seus companheiros de banda e de quando frequentava as festas privadas que os artistas promoviam.

O motorista que conduzia Paul McCartney achou estranhou que Paul McCartney estivesse com uma peruca e com óculos escuros, pois já era noite, mas foi orientado a não contestar nada que o beatle fizesse. O motorista ofereceu balas, perguntou se o ar condicionado estava agradável e perguntou se Paul McCartney queria escolher a rádio que ouviriam durante o percurso.

O beatle perguntou ao motorista se ele tinha gim, e ele disse que sim. Ambos se serviram e brindaram, enquanto Paul contava como tinha saudades da época em que suportava trabalhar como uma tora de madeira. Um dia, Paul foi uma tora de madeira. E foi triste e bonito quando a rádio escolhida por Paul McCartney começou a tocar “Sorry” do Justin Bieber, e Paul McCartney teve que assumir que a canção era mesmo boa.

Paul McCartney e seu motorista foram até o local do Grammy cantando em voz alta a música de Justin Bieber. A música de Justin Bieber fazia Paul lembrar ainda mais de seu grande amigo John. E lamentar a sua morte. A sua ausência. A música era mesmo boa e muito forte. Forte até para Paul, que um dia tinha sido uma verdadeira tora de madeira.

Paul permaneceu abalado durante todo o evento, e foi convecido por alguns amigos, que haviam notado a sua tristeza, a ir até uma festa que aconteceria após o Grammy. A festa seria divertida e Paul McCartney poderia desabafar com seus amigos, se precisasse. Paul sentia ainda mais falta de seu velho amigo John.

Paul McCartney pediu para que seu motorista levasse ele e seus amigos até a festa que aconteceria após o Grammy, e todos foram bebendo gim e conversando até o local. Paul havia colocado metade do seu corpo para fora do carro, enquanto dava profundas goladas na garrafa de gim e lembrava de John. O barulho que o vento fazia em suas orelhas era agradável e fazia Paul procurar um novo ritmo nele.

Os amigos de Paul McCartney conseguiram entrar na festa, mas Paul McCartney foi barrado, pois além de muito bêbado, Paul ainda vestia a peruca de Ramone e os óculos escuros de John. Paul McCartney estava revoltado, estava tão puto quanto uma tora de madeira, pois queria muito entrar naquela festa.

Paul McCartney insultava os seguranças com muita arrogância, “Eu sou um beatle! Um beatle! Quem você acha que é?” e gritava, gritava como Yoko Ono, naquela vez em uma exposição de arte. Paul pensava que, se John estivesse ali, nada daquilo teria acontecido.

Paul McCartney lembrou do barulho das pedras de gelo e do ar em seus ouvidos. “É um novo hit que vocês querem? É um novo hit que vocês terão!”. Paul pegou o seu celular e discou o número de Justin Bieber. Eles produziriam juntos um novo hit.