Paulo Maluf só por cinco minutinhos

Paulo Maluf sai para comprar remédios. Sua filhinha está doente. Mais uma vez. A febre de sua filha está altíssima, alcançou níveis inaceitáveis até para ele, que é pai. A doença da filha deixa Paulo Maluf preocupado. Muito preocupado. É por isso que Paulo Maluf decidiu sair, assim, correndo e ainda de pantufas, bem de manhãzinha, para comprar remédios. Paulo Maluf manobra seu carro rapidamente enquanto o portão de sua casa abre.

O rádio do carro de Paulo Maluf está sintonizado na CBN (Paulo esqueceu o seu estojos com os CDs do Roberto Carlos no outro carro) e o locutor lê as novidades da Lava Jato. Paulo até cogita trocar de rádio e ouvir uma boa música. Afinal, Paulo é um grande fã da música popular brasileira. E da música internacional, também. Aos amigos, Paulo Maluf costuma dizer que é eclético em seu gosto musical.

Ao som das novidades da Lava Jato, Paulo desvia do trânsito de todas as manhãs em São Paulo. Esse mesmo trânsito foi o trânsito que motivou Paulo Maluf a construir o Minhocão, quando ainda era prefeito. Paulo Maluf se lembra do Minhocão e sente orgulho. Durante o trajeto, sem trânsito pelas ruas marginais de seu bairro, Paulo escuta as novidades da Lava Jato e, sem perceber, agita os dedões de seus pés dentro de suas pantufas de tigre.

Nesse momento, Paulo está tranquilo. Paulo Maluf está longe de ser o mesmo Paulo Maluf que saiu preocupado, muito preocupado, de casa. No fundo, Paulo sabe — Paulo não é pai de primeira viagem — que, ao final, tudo se resolve. Paulo Maluf sabe que, no final, tudo dá certo.

Paulo Maluf dirige seu carro pela avenida e, ao fundo, já consegue avistar a farmácia onde comprará os remédios que sua filha tanto precisa. O que Paulo não consegue ver daquela distância, no entanto, é que, infelizmente, não há vagas para estacionar seu carro em frente à farmácia. A farmácia onde Paulo é cliente há muitos anos.

Exceto uma vaga. Quando Paulo Maluf e seu carro se aproximam da farmácia, Paulo consegue ver que há, sim, uma vaga para estacionar seu carro. A alegria de Paulo Maluf é grande, muito grande, tão grande que Paulo fala para si mesmo: “Graças a Deus! Há uma vaga ali!”, enquanto se aproxima ainda mais da farmácia, e seus dedões do pé voltam a tamborilar dentro das pantufas.

A felicidade de Paulo Maluf é tão grande em poder comprar rapidamente os remédios para a febre de sua filha e retornar para a casa que Paulo não percebe, não nota, que a vaga em que ele estacionou seu carro é uma vaga para deficientes. “Tudo bem, são só por alguns minutos”, Paulo pensa.

A população, no entanto, não pensa como Paulo. O povo acredita que nem por cinco minutinhos, nem por uma causa tão nobre quanto uma filha ardendo em febre, a lei deve ser infringida. E a população não deixa a impunidade passar ilesa.

Logo, um motim está formado contra Paulo Maluf dentro da farmácia. A população quer vingança, a população quer justiça contra o ex-prefeito Paulo Maluf. Seja ele ex-prefeito ou não. E não adianta, àquela altura, não há palavra alguma que Paulo possa falar que amenize a sua culpa. “Paulo Maluf estacionou seu carro em uma vaga destinada a deficientes e deve pagar por isso!”, a população grita dentro da farmácia, entre outras palavras de ordem.

E, então, Paulo Maluf é arrastado pelas pantufas de tigre até a rua, onde um cadeirante já o espera em frente ao seu carro com uma barra de ferro nas mãos. O cadeirante acerta fortes golpes de barra de ferro contra a cabeça de Paulo Maluf. São golpes de ódio. Golpes de quem não tem dó alguma de um infrator como Paulo. Golpes de quem clama por justiça, por ordem, em um país tão desigual e corrupto.

Somente quando a face e todo o corpo de Paulo Maluf já está nu e desfigurado é que a população se sacia e sente que a justiça, enfim, foi feita. O cadeirante que trucidou Paulo Maluf entrega o pijama e as pantufas de Paulo a um mendigo que pedia dinheiro para comprar remédios para sua filha que está doente. O cadeirante é aplaudido por todos e, em seguida, a multidão orgulhosa decide que é hora de começar a cantar o hino nacional.

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