Razões para matar um papagaio

E teve um dia que eu matei um papagaio. O papagaio era meu, meu há muitos anos — e legalmente comprado, inclusive — o que não faz de mim arrependido por ter sufocado aquele cocar falante, aquele concentrado de brincos de feiras hippies.

E se você me perguntar o porquê, “por que sufocar um papagaio que mal pode se defender?”, eu vou responder que você nunca teve um papagaio para saber. Porque o papagaio, veja você, é o oposto de qualquer coisa que se vende hoje em dia. De qualquer coisa que estraga, passa do prazo de validade, vence. Um papagaio, para você que nunca teve um, é a verdadeira derrota.

Um papagaio, para você que não sabe, vive sessenta, setenta — pra mais — anos de vida. E foi por isso, foi por isso também, que eu apertei o pescoço daquele papagaio como quem aperta a mãozinha de uma criança.

Agora você já deve estar me incriminando, me julgando, me vilanizando como você sempre faz (não faz?). Mas você não sabe, não sabia até o momento, que o motivo de eu apertar a mãozinha de uma criança bem forte era para atravessar uma avenida. Uma avenida perigosa, cheia de carros, esses sim, os vilões da nossa história.

Voltemos ao papagaio, “o que isso tem a ver com o fato de você ter estrangulado um papagaio só porque ele vive até os setenta?”, você me pergunta. Nada. Mas você não sabe, mais uma vez, não sabia até o momento, do meu estado.

Sim, uma doença grave. Antes dos quarenta. E o papagaio vivendo a sua insignificância, a sua vida repetida de cocar falante, até os setenta. E eu morto. Antes dos quarenta.

O papagaio, veja você, é o oposto da minha expectativa de vida. Aquela garganta voadora é (era) um relógio de penas. Gritava aquela vitalidade toda às seis da manhã. Todos os dias. E aqueles remédios, como eles me davam (me dão) sono às seis da manhã. Não é que, agora, enforcar o papagaio passou a ter um pouco mais de sentido?

Agora que você entende — não concorda — mas entende, eu vou te explicar o real motivo para eu ter matado aquele papagaio naquele dia. Não foram os setenta anos. Não foram, eu assumo. Os setenta anos são só literatura.

Eu sufoquei aquele pescoço fino, esguio, daquele papagaio indefeso, quase extinto, com toda a vitalidade que me restava (e que me faz falta, agora, para viver meus últimos dias) porque aquele abutre verde não parava de falar. De repente, o cocar falante era o meu inconsciente, que não cansava em me repetir, em eternizar tudo que eu falava.

E eu cansado. E eu sufocado em ouvir que não era eterno.

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