Ensaio sobre a liberdade

Não vês que estamos cobertos por uma bruma? Bruma essa que nos cega os arredores e nos priva de saber o que está por vir, e enfim, dada a inconstância das relações, cada instante submerso nessa neblina poder-se-á ser substituído por um estímulo mais satisfatório.
Por não compreender, me sinto perdida; que me resta além da escrita como cápsula a resgatar o meu ser que acabou por se tornar disfuncional com todas essas influências desse terreno fúnebre que os seres chamam de relações sociais?
Que me resta senão a própria sorte a tentar fazer as coisas com um pouco de sentido nesse momento em que o rápido, transitório e flácido insistem em criar raízes no pouco que restou de mim?
Não amaldiçoo em absoluto o impulso do prazer somente a fim de satisfazer os desejos carnais, sinto que há algo em mim que não se adaptou a esse modelo líquido das relações modernas, mas que respeita e eventualmente faz seu uso. Percebe-se, nas entrelinhas, um desejo em meu íntimo de pertencer, em estar aprisionada. Não me interprete com desdém, as gradativas construções, com o passar do tempo, poder-se-ão se transformar em qualquer coisa passível de indescritível fruição - junção dos elementos físicos e intelectuais, meu modelo perfeito de relação.
Sinto superficialidade nesses olhares excitados, cheios de desejo, que me perseguem por aí. No entanto, toda e qualquer relação começa com o interesse nos elementos estéticos para que somente com o tempo se permita agarrar às particularidades. É tolo dizer que ama sem conhecer, se me ama só pelo que vês é porque passou por cima do desejo e atropelou até a si mesmo nesse tesão acumulado que tu chamas de amor.
Momentos de pensatez em excesso tornam o ser humano triste, insosso e bruto a universalizar as relações como se cada uma delas não fosse dotada de sua singular particularidade. Deve ser usado o conhecimento a respeito dessas interações como ferramenta para atenuar e observar através de uma perspectiva mais racional as inevitáveis dores que acabarão por ser suscitadas.
É bem provável que eu não me torne uma escritora popular, mas se todos me entendessem seria mais preferível que eu ficasse calada, ou morresse num acidente de carro à moda Macabéa.
O meu nome é Isabel, mas às vezes desconfio de que sou uma personagem na cabeça de um escritor criada para terceirizar sentimentos numa tentativa de não ser vulnerável.
Manaus, 06 de novembro de 2019.
Pedro K. Calheiros
