Sussurros de uma partida sem precedentes

Estava a pensar um pensamento, qualquer coisa de muito esquisito invadiu meu peito, não sei o que é, mas é estranho, perverso e está a me corroer aos poucos. Deve ser amor — disse minha tia, tão confusa quanto eu, e desnorteada por não saber o que fazer com o caos que se apoderara de mim. Você me perdeu, enfim, antes de me ter? Será verdade essas loucuras que a gente vê na tevê? E se for? Eu estou perdida. Eu nem vejo tevê. Queria me perder nos seus lábios, mas ando é perdida em lençóis, em devaneios e em livros que insisto em ler. Angústia, deve ser angústia. Não faz sentido, poeta, tudo isso. Deixa, faz parte da gente, a gente chora um pouquinho e faz poesia depois. O chão se transformou num rio, diz Phill, e a gente nem sabe nadar. Amor, me faz um verso, diz que vai ficar bem, canta aos vizinhos a mais doce canção, cativa-lhes a alma, e coração, esquece por fim cada detalhe, finge que não gosta de nada, fala sobre uma pintura, a pintura que você deixou no meu corpo, o corpo tantas vezes percorrido e descoberto pelos mistérios do ser tão complexo que habita o teu eu. Descobrimento, faz-se contente por ter algo a dizer: saudade; do que nunca teve, do que podia e do que não se deixou pertencer pelos mistérios da sorte, pelas loucuras da vida, pelas tantas e confusas digressões em teu leito escondida: por quê? Não pode surgir do nada, me bagunçar e ir embora como se nada tivesse acontecido. Eu encontrei você. Encontros assim não acontecem duas vezes na mesma vida. Só o tempo dirá se seguido ou final será esse ponto. Que as inseguranças oriundas das relações líquidas de Bauman se dissipem no ar, que os teus medos e inconstâncias por causa do distúrbio químico no cérebro melhorem, que essa fase seja apenas uma memória e enfim a gente possa se beijar às margens do Teatro sem o aperto no coração a pressentir um hiato, um doce hiato que faz do meu coração vazio sem ao seu pertencer.
Manaus, 04 de novembro de 2019.
Pedro K. Calheiros
