O abraço que era só meu
Estávamos em roda. No centro, cartas com diversos dizeres — alegre, triste, amor, compaixão, irritado, compreensão, entusiasmado, espaço, nutrição, amedrontado, (…) — acompanhadas por flores roxas e vermelhas e amarelas e brancas colocadas em um baldinho de ferro, daqueles que carregam o leite recém ordenhado. E tinha ainda um toque mágico: uma miniatura de Harry Potter que perdeu os óculos depois de conceder, milagrosamente, o poder de falar e ser escutado para aqueles muitos que já a tiveram em suas mãos.

O cenário todo foi posto para que cada uma das dez pessoas ali presentes pudesse compartilhar seus incômodos na relação com os demais. Relação essa muito valorizada por todos e todas ali. Tão valorizada que cada fala vinha acompanhada por mãos trêmulas, pa-pa-pa-laaaa-vras e olhares úmidos fixados no vazio ou no centro mágico do círculo.
O papel que guardava os incômodos de Ciro farfalhava. Não ventava. Servia de foco para os olhos enquanto a tradução do escrito para a fala pausada acontecia.
— Quando você me comparou ao seu último chefe, descrito por você como pentelho e controlador, fiquei muito triste. Foi como um soco no estômago. Valorizo demais nosso espaço de tomada de decisão compartilhada e não era desse lugar que eu vinha.
Observo a Diana, que tinha o chefe pentelho e controlador. Vejo ombros caídos, testa franzida, sobrancelhas para cima e um olhar escancarado. Pergunto:
— Como tá se sentindo agora, ao escutar o que escutou?
— (…) Surpresa. E culpada… Não tinha ideia de que tinha feito isso e muito menos de que chegou assim pro Ciro.
Logo chega um lencinho às mãos da Diana.
Silêncio.
Ciro olha pra mim e pergunta: “Possodarumabraçonela?!” As palavras me atordoam, e assim que começo a mexer os lábios ele levanta.
— NÃO QUERO ABRAÇO!
Silêncio exaltado.
A gravidade senta Ciro de volta em sua cadeira.
— Não gosto muito de contato físico, muito menos agora. Preciso de um tempo. Podemos tentar depois.
E o depois chegou. Ao final do encontro, compartilhamos agradecimentos entre nós, pelo tempo que passamos juntos e pela coragem de trazer aquilo que incomodava na relação com o outro.
Ciro olha para Diana e diz:
— Queria te agradecer por ter negado meu abraço. Me fez perceber que aquilo que parecia oferta era, na verdade, pedido. Quem precisava era eu.
Se abraçam.
