Sex Education: era tempo de recriar os clichês adolescentes

Seguindo a demanda dos movimentos sociais, a série aprofunda, de forma bem humorada, questões como feminismo, aceitação LGBT, relações com pais e liberdade sexual

Pedro Lira
Jan 21 · 5 min read

Ao assistir o trailer de Sex Education, mil spoilers vem à mente. Não da série, mas do roteiro, mais que saturado, de dramas adolescentes americanos. A obsessão por sexo, garota rebelde mal compreendida, menino nerd sem jeito com mulheres e melhor amigo gay espalhafatoso. Tudo bem previsível.

Porém, não. Quer dizer, sim. Antes de mais nada a série é britânica (vai ver é por isso que é tão boa). Todos os clichês iniciados nos anos 90 com Dez Coisas que Odeio em Você ou Curtindo a Vida Adoidado, Gatinhas e Gatões (todos americanos), estão lá. Personagens estereotipados e batidos que podem ser encontrados em qualquer besteirol, são inseridos em situações óbvias. O que difere são as soluções, e claro, o elenco.

A produção da série apostou em diversidade e profundidade. Cada patricinha Menina Malvada foge da loira má que só é má porque sim. Todos eles tem uma história por trás e justificativa para os comportamentos toscos.

Diversidade

Só para começar, o grupo popular da escola é formado por quatro jovens. Todos ricos, lindos e desejados, são cruéis e bullies. Mas não são as quatro moças brancas de sempre. Uma latina, um indiano gay, uma negra e a loira, que na verdade é a única legal — plot twist.

Um dos coadjuvantes mais importantes, Eric, é o melhor amigo do protagonista. Seu plot é a sexualidade (e também questões de raça, mais implícitas). Eric é uma jovem drag queen, negro, de uma família imigrante, com cinco irmãs mais novas e pais religiosos. É, de longe, quem mais sofre bullying em toda a história. Agredido por todos os lados, é um dos mais cativantes da série. O arco se desenvolve de uma forma nada surpreendente, mas desenvolve. As questões são tratadas do preconceito em casa, até a autoaceitação real (que vai muito além de suportar bullying com um sorriso no rosto).

Interessante também é o papel da igreja nessa trama. Quem dá o primeiro apoio ao negro imigrante queer em um bairro classe média, é a Igreja. “Jesus te aceita como é”. Deixa uma sensação estranha, mas ótima para se refletir sobre o papel da instituição com grupos socialmente fragilizados.

Quase que em uma terceira camada dos protagonistas, existe um casal de mães lésbicas. E é isso. Só. Não tem drama ali, apenas um personagem que possui duas mães e não uma mãe e pai. Mães essas que são um casal interracial e enfrentam problemas na vida de casado como qualquer pai e mãe por aí.

Além delas, tem um casal de alunas da escola. A série consegue trabalhar o delicado momento de sair do armário e a confusão emocional que os LGBT passam ao confundir amizade e apoio com paixão, ou uma quase “falta de opção” para quem é gay e quer namorar na escola .

Feminismo

Além do óbvio, que são as várias citações a escritoras feministas (como Simone de Beauvoir), a série trabalha entre as adolescentes questões como sororidade, machismo, aborto, feminilidade e relações tóxicas. É como se os oito episódios, que giram em torno de sexo, usassem cada minuto para mostrar como as jovens são fodas.

Maeve (protagonista) é uma jovem que se virou sozinha e carrega o irmão mais velho nas costas (que acha que na verdade é quem cuida dela). Se uniu a menina malvada por pura sororidade, e ao lado de todas as outras alunas, defendeu um ponto muito sensível entre as mulheres: o julgamento masculino ao corpo feminino e a taxação de “piranhas”.

Inclusive, na parte sexual das mulheres, a loira legal que anda com os populares é a que mais transa. Se apaixona a cada episódio por um personagem novo, mas não sabe do que gosta no sexo — seu prazer é medido pelo prazer do parceiro (nada novo sob o sol). A série desenvolve, de forma cômica, a descoberta sexual da personagem e ainda debate o tabu da masturbação feminina.

O segundo par romântico de Otis, Ola, é uma garota única: trabalha no mercado, discute com o pai, troca encanamento, chama o boy para sair, usa cabelo curto e ao invés de vestido, foi para o baile com terninho. E é isso, não tem questão sobre sexualidade ali, ninguém acha que ela é menos hétero ou bi que Maeve, por exemplo.

Existe também espaço para aborto. Na série, personagem x passa pelo procedimento, que no Reino Unido é legalizado. O episódio deixa bem claro que não é legal e não é fácil, mas é uma opção — as vezes melhor do que ter filhos que não queremos.

Pais e filhos

Sex Education deixa claro que os adultos sabem tanto quanto os jovens: nada. O diretor da escola tem um filho valentão e não tem a menor ideia de como lidar com ele (e acaba fazendo da pior forma possível, inflando os problemas do garoto). A lógica serve para as mães lésbicas, para a mãe de Otis, que é terapeuta sexual e responsável por traumas e travas sexuais do filho, os pais de Maeve, que a abandonaram, e os pais de Eric — que não sabe lidar com tanto glamour do filho.

No caso do estudante perfeito, atleta, popular, boas notas e desejo de consumo de todas as garotas (negro, olha só que incrível), a relação com a mãe é tão complexa que gera crises de ansiedade no menino. Existe uma cena até meio gatilho para quem já passou por alguma crise fodida dessas.

Chega ser um pouco engraçado como a única relação que parece funcionar é a de Jacob, pai da Ola. Ele é o único que admite amar as filhas, mas não gosta muito delas pois são irritantes. Eles discutem, gritam, pedem favor uns aos outros e.. se ajudam. Essa relação, horizontal, é a mais leve de todas.

Em resumo, Sex Education é uma retratação. Foi uma correção feita pela Netflix dos clássicos adolescentes que poderiam ser categorizados apenas como comédia e enchiam a cabeça dos jovens de estereótipos nada saudáveis. A série em questão é um drama que abraça mulheres, gays, negros, quem tem inseguranças quanto ao sexo, quem tem problemas com pais e pais que tem problemas com os filhos e quem não tem ideia do que está fazendo com a própria vida. Basicamente todo mundo.

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Pedro Lira

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Jornalista na louca conexão Brasília — Rio