Dança das Cadeiras

Eu conseguia ouvir conversas, não dá mais. O ar está pesado com música, a luz se rendeu, exceto por um poste que se recusa a aderir à festa. Todos dançam. Estava dançando também, agora estou sentado. “Tá tudo bem?” A preocupação dura até que começa a tocar uma musica que ela gosta. Sinto o suor escorrer pelas minhas costas, coloco a latinha de cerveja embaixo da cadeira, meio cheia, quente. Penso em levantar. Penso muito forte mesmo. Saio da cadeira, desvio da multidão de corpos, cada um se movendo na própria batida. Chego ao banheiro, tranco a porta, me olho no espelho. Já conseguia sentir a água batendo no rosto quando percebo que ainda estou na cadeira. Bosta.

Sentam ao meu lado, o rosto me parece vagamente familiar. Conversamos por um tempo, e acabo com meia caipirinha na mão. Ele brinda com a minha lata de cerveja e vai embora. Encaro meu copo, até que foi uma troca justa. O gelo já derreteu quase todo, tomo um gole do que mais parece suco de limão. A glicose me dá forças pra realizar meu sonho antigo de ir ao banheiro. Tento mijar, mais pra passar o tempo do que por vontade, sinto que não tenho mais líquido nenhum no corpo. Olho-me no espelho por alguns segundos, adiciono água e repito a operação. Pronto. Agora não parece mais que você passou três dias numa sauna, só que enfiou a cabeça na privada, penso.

Saio do banheiro e consigo ver a cadeira, agora ocupada por um casal se pegando. Um casal de umas cinco pessoas no mínimo. A cadeira não parece satisfeita com a situação. Vou pra varanda e sou recebido por fumaça de cigarro, me oferecem um, mas esqueço de responder. Eles continuam sua conversa, uma garota está sentada em cima de uma mureta, olhando pra baixo, rindo. Dá pra ver o play do prédio ao lado, uma festa de aniversário. Tem uma mesa longa com brigadeiros, beijinhos e aquele doce de morango que ninguém sabe o nome. O bolo tem o desenho de uma personagem que eu deveria ser velho demais pra conhecer, mas eu tenho Cartoon Network e fico entediado à tarde. Crianças jogam queimada numa quadra de futsal, de vez em quando a bola acerta uma das mesas de plástico vermelhas, estampadas com propaganda de cerveja e rodeadas por adultos bêbados demais para reclamar. A fumaça do churrasco sobe até a varanda. Outra menina, usando um coroa de flores, reclama. O resto de nós lembra que na nossa festa não tem comida.

“Do que você estava rindo?” pergunto pra garota sentada na mureta, ela pensa um pouco, me responde em anéis de fumaça. “Da festa lá embaixo, acho que eu estive numa igual há uns cinco ou seis anos.” Olho pra baixo e vejo a bola batendo na cabeça de um moleque desavisado, uma criança muito mais nova que as outras chorando de tédio, um velho dormindo ao lado da mesa de doces, cercado de latas vazia. “Ou vai ver era a mesma.” ela completa, olhando pra cima. Um cara parece muito perturbado com essa informação e começa a se procurar no play. Penso numa resposta, as fumaças de cigarro e do carvão se misturam e preenchem meus pulmões, começo a tossir e batem nas minhas costas. A menina da mureta agora olha para o céu. “Acha que estão comentando a nossa festa no apartamento de cima?” fala rindo, sem desviar o olhar. O cara desiste do play, esbugalha os olhos, olhando desesperado para as estrelas.

O relógio já não me dizia nada, a tela do celular iluminava meu rosto por minutos e quando se apagava eu ainda não tinha a informação que precisava. Não me lembro de ter vindo para a cozinha, minha mão tateia o interior inóspito de um freezer e encontra a única sobrevivente. Em volta de mim há caixas de cerveja, quentes ou vazias. A que está na minha mão não parece muito melhor. Um presságio. Decido ir embora. Atravesso a festa novamente, a música agora parece um amálgama de notas dissonantes, ruído branco e Felipe Dylon. Mais um sinal de que está tarde. Alguém começa a brincar com o interruptor, o estroboscópio improvisado remete mais a um escritório de oftalmologista do que à balada que tenta emular. Durante os segundos de clareza vejo rostos e corpos, suados e sorridentes. Passo pela cadeira, saio sem me despedir.

O elevador tem dois espelhos, um em frente ao outro, o que faz com que esse espaço claustrofóbico pareça ainda mais cheio do que o anterior. Não gosto da nova companhia. O porteiro não está na guarita, mas isso não me surpreende, tenho quase certeza que o vi na festa. Aperto o botão pra sair e me vejo na rua. Tem que ter um ponto de ônibus em algum lugar. Começo a andar e acabo realmente encontrando um. Tenho a impressão de que acabaria chegando nele independente da direção que tomasse. Um grupo de pessoas conversa em pé ao lado do ponto, estão fantasiados e sei que vieram da festa. Também sei que ela não era à fantasia. O índio me cumprimenta e me chama pra roda, o cachorro não parece ir com a minha cara, mas falo um tempo com um Darth Vader extremamente simpático. Acho que eu conheço a fantasma de algum lugar, os calcanhares pelo menos. A conversa acaba com o ônibus deles chegando, o motorista não deixa o cachorro entrar e ele sai correndo.

Sento no ponto e sinto alguém cutucar o meu ombro, um mendigo aponta para minha cerveja e pergunta se eu vou beber. Ainda está fechada, tinha esquecido completamente dela. “Tá meio quente”, entregando pra ele. Ele toma um gole e sorri, “Pelo menos assim não tem intermediário.” Ficamos um tempo olhando os ônibus passarem. Ele brinda com a minha lata de cerveja e vai embora. Passo mais um tempo no ponto, mas não vejo nenhum que sirva. Acabo me rendendo ao táxi. O taxímetro sobe em progressão geométrica, desvio o olhar com medo de ser consumido pelos números vermelhos, acabo entregando todo o dinheiro da minha carteira.

O porteiro não está na guarita, mas isso não me surpreende, tenho quase certeza que o vi na festa. O elevador daqui não tem espelho, respiro aliviado. Mal entro na casa vazia e já estou na cama. Alguma força desconhecida trancou a porta e deixou minhas calças estendidas no sofá. Fecho os olhos, torcendo para não estar ainda sentando naquela cadeira. Durmo.

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