CORPOS COM FINADOS

Pedro Moacyr
Nov 4 · 3 min read

Dia dois de novembro, dia de finados, segundo conta a história a data foi escolhida pela Igreja Católica por suceder o primeiro de novembro: Dia de todos os Santos. É costume que nesse feriado muitas pessoas visitem os túmulos dos entes queridos ou realizem rituais os homenageando. A função é lembrar aos vivos o que restou dentro deles daquele objeto amado. Memórias, traços, trejeitos, marcas significantes que guardamos daqueles que já não estão mais entre nós.

A esse trabalho de elaboração Freud denomina de luto, processo que causa dor, no corpo mesmo, e que é proeminente nos momentos de perda. Não só no caso da perda de pessoas queridas, mas de qualquer experiência que exija que laços sejam desfeitos, sejam por mudanças de fases da vida, no trabalho, amizade ou outra situação que envolva que refaçamos os elos simbólicos com aquele ou aquilo que perdemos.

Mas quero nesse texto chamar atenção para o corpo que desvela a dor decorrente do processo de luto. É em dor que Freud fala, e qualquer pessoa, que certamente já viveu uma perda, pode dar seu testemunho de que nesses momentos não se trata de tristeza ou qualquer outro sentimento, mas de dor.

Independente do que a metapsicologia freudiana possa esclarecer a esse respeito, o que se delineia é como concebemos nosso corpo. Ele, o corpo, nós o temos, esclarece o psicanalista francês Jacques Lacan. Isso quer dizer que não somos um corpo, mas que tomamos posse dele: um corpo para chamar de meu! Imagem representada de nós mesmos que as vezes não condizem com as medidas de saúde, como nos casos dos atualmente frequentes transtornos alimentares. Me vejo gordo ou magro mesmo que a balança diga exatamente o contrário.

Corpo que dói, que corto, que engordo ou emagreço, corpo sarado ou modelado com tatuagens ou body art. Corpo que, para ser corpo, só pode ser como confinado. E é como finado, mortificado pela fala e pela linguagem que capturo meu corpo tal qual o percebo como meu. Ou seja, o organismo vivo, natural, sem marcas, só existe por suposição. Assim, estamos presos, detidos no próprio corpo, que é delimitado por pele, pelo eu-pele como exposto no livro de outro psicanalista (Didier Anzieu).

Confinamento, segundo o dicionário, também corresponde ao que faz fronteira, aquilo que circunscreve determinada area ou campo. Assim, confinado e revestido por pele, moldado pela linguagem, com o fim de ornamento fazemos um corpo. Que por sua vez tem, como dizem: “vontade própria”, e aí está o paradoxo da vida! Meu corpo é confinado e também é como o finado, só se apresenta imcorporado, ou pelo fantasma-fantasia, recobrindo algo que não está lá, por isso causa medo e sensações que não posso controlar. Dessa maneira a fantasia entra em cena e o corpo vira palco das mais diversas manifestações. De diarréias e sintomas conversivos aos famosos fenômenos psicossomáticos (FPS)… O corpo finado, é meu tanto quanto também são meus os traços daqueles que perdi. E no limite assim também é nosso eu, que Freud define como um precipitado de investimentos abandonados ao longo da vida. Por isso, econômico como minha avó, vou vivendo, investindo libidinalmente alguns objetos, na aposta que a morte ainda pode esperar…

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