O Deus Que Desceu Pela Chaminé

Aqui está um pequeno “conto poético” de natal. Pelo menos foi assim que, na minha ignorância, classifiquei esse texto. Minha tentativa é expressar de algumas forma a beleza do natal vista através do milagre da encarnação. Espero que você goste e se deleite na teologia retirada do capítulo 1 do evangelho de João.

Minha dica é que você leia o texto abaixo enquanto acompanha o áudio onde eu tento dar um pouca mais de vida por meio da leitura em voz alta (com fone fica melhor). Feliz natal em Jesus Cristo!

Era uma sala escura. Grande, mas preenchida pelo preto da escuridão. Fracos raios de luz quase imperceptíveis, talvez da lua lá fora, entravam por brechas nas janelas e permitiam ver algumas sombras. Silhuetas espalhadas pela sala. Alguns objetos eram identificáveis, outros não. Percebia-se um sofá ao centro com duas poltronas do lado esquerdo. Bem, talvez fossem duas. Havia também algo alto do lado direito. Uma estante ou algum tipo de planta decorativa? Não se sabia. Por trás do sofá havia uma grande mesa e cadeiras, mas era tudo o que se via. Do lado oposto, de frente para o sofá, escondida nas sombras, havia uma lareira. Na verdade, parecia ser uma lareira. E era melhor que fosse, pois a noite estava fria.

“Onde estão os interruptores?”, perguntariam os racionalistas. Isso não se via. E nem se sabia se eles ao menos existiam. “Vamos tatear as paredes de cima a baixo” diriam os empiristas. “E se fossem muito altos”, indagou a crítica da razão pura, “quem os alcançaria?”. Nisso a modernidade tardia refletiria parada, assumindo a falta de energia. Ou pior, duvidaria da existência da própria sala, desconstruindo tudo o que se via. No findar da retórica nada mudaria. A mesma sala. Mesma escuridão. Muitas teorias. A esperança de luz pairava em mais uma dúvida: quando o sol nasceria…

Ele não vai nascer. Péssima notícia. Nesse mundo é sempre noite. Aquela sala sempre sombria. Nem mesmo fogo para acender a lareira alguém faria. Ninguém seria capaz. Não havia nem um sequer e todos seriam inúteis naquela escuridão. Era isso que diria aquele ex fariseu com toda a razão. Sem luz. Sem sol. Sem esperança. Tudo era sombras e silêncio. Grande silêncio… até que…

A lareira rompeu tal silêncio e a sala estremeceu! Onde nem fogo havia algo como uma explosão aconteceu. A poeira caiu e foi vista no faixo de luz que agora vinha da lareira. A luz ainda fraca revelou enorme sujeira. Então algo foi percebido. Havia sim uma chaminé. Com a luz também entrou vento aquecido. Acredite se quiser. Os móveis estavam agora um pouco mais nítidos. As poltronas pareciam mais confortáveis e o sofá mais bonito. Não era mais tão frio. Não era mais tão noite.

Parecia bom diante dos olhos, mas ficou ainda melhor. A luz aumentou de intensidade. Aquela sala agora parecia de verdade. E como um raio cortando a densa noite um homem surgiu da chaminé. Em frente a lareira se colocou de pé. E andando pela sala a iluminava por inteiro. A verdadeira luz que ilumina todas as salas estava exatamente naquela outrora sombria. Não era mais uma teoria. Nem uma simples experiência. Não era um jogo de linguagem e nem uma impossibilidade pela transcendência. Estava ali, humanamente andando e todo o ambiente gloriosamente iluminando.

Agora se percebia que a mesa estava repleta de boas e belas comidas como um banquete. As cadeiras prontas e bem localizadas para os convidados. A planta na verdade era um pinheiro decorado. Cheio de luzes coloridas e de presentes rodeado. Havia um enorme tapete que se podia deitar e dormir sobre ele. Havia uma estante repleta de livros nas prateleiras. Quadros belíssimos nas paredes e mais nenhuma sujeira. Um lustre glorioso sobre a mesa e luzes piscando nas portas e janelas. Ele deu vida a tudo aquilo! E de repente havia fogo na lareira. Era dia naquela sala. Era dia de natal! Aquela sala estava tão viva que ninguém questionaria se era real.

O homem então se assentou no sofá perto do pinheiro. Ele estava cheio de graça e verdade. E antes que pudesse as horas olhar, uma família chegou para celebrar. Ele recebeu cada um com um imensou abraço e todos sentaram na mesa. Aquele homem assentou-se como eles. Comeu com eles. Rio com eles. Orou com eles. A sala estava cheia de vida. E a vida naquele homem estava! E ele era a luz dos homens! A luz que resplandeceu nas trevas de outrora. A luz que tornou a sala escura em local de alegria.

Após o jantar aquela família o agradeceu. Sem aquele homem a sala continuaria vazia. Vazia de vida e de significado. Então tudo fez sentido. Aquele homem era Deus encarnado. Deus invadindo aquela sala, o coração daquela família. Aquele homem era o Filho de Deus. Unigênito do Pai. O Verbo da verdade. Habitou entre eles o Deus que se fez carne. E também Habitou entre nós para nossa salvação. Era dia de natal. Era dia de encarnação!

Na grande sala de corações não arrependidos há grande escuridão e pecaminosidade. Mas eis a boa notícia: Deus invadiu a grande sala da humanidade. Se fez homem e habitou entre nós. A luz resplandeceu nas trevas e as trevas não prevaleceram contra ela! O Filho de Deus nasceu e isso mudou tudo. Podemos vê-lo e ver a realidade do mundo. A verdade transcendente entrou pela chaminé da nossa existência. E agora podemos nos tornar filhos de Deus. Que grande consequência! Essa é a grande verdade para além das filosofias. A Santa Trindade, verdade bela e absoluta, desceu pelo Filho e no Espírito conosco continua. A encarnação é o milagre do natal. O conteúdo da nossa fé.

No evangelho podemos dizer que foi Deus desceu pela chaminé.