A pequena lanchonete e o homem cervo.

Eu sou um grande entusiasta das pequenas lanchonetes. Considero elas um ótimo lugar para pensar, conversar ou passar um tempo sozinho.

Nesse dia eu estava sozinho em uma lanchonete esperando alguém que não vinha. Já nem sabia mais que horas eram, só sabia que era bem tarde e eu provavelmente já deveria estar em casa. Mas foi ai que algo engraçado aconteceu. Um homem meio cervo/veado entrou pela porta da lanchonete e veio se sentar junto a mim ( a verdade é que não sei diferenciar os dois ).

Sera que aquilo era uma fantasia ou era de verdade?

“tem cigarros?” perguntou o homem cervo. Dei a ele minha ultima cartela e disse que estava parando de fumar. Ele, então, abriu um bolso no peito e guardou os cigarros.

Ok é uma fantasia. Uma muito bem feita

Acho que ninguém reparou na sua entrada na lanchonete, disse eu ao homem cervo. “Isso é algum tipo de delírio como Donnie Darko ou Hannibal?” Perguntei com um pouco de preocupação.

“Não não, eu sou bem real, mas só tu reparastes em mim.”

“E o que te faz desejar se sentar junto a mim aqui?”

“Virei te visitar todas as vezes que o mundo humano te decepcionar” Afirmou o homem cervo.

Ri. Ri muito mesmo, até dar gargalhadas!

“Vai ter que vir me visitar muitas vezes então.”

Ficamos um bom tempo quietos depois disso. Ele levantou parte de sua máscara e acendeu um cigarro. Ninguém na lanchonete parecia se importar ou se incomodar. O homem cervo parecia não se importar também, só olhava para mim e as vezes para a janela e observava as pessoas virando a esquina.

Ele finalmente quebrou o silêncio: “Sei que você tem o hábito de se olhar no espelho e ficar frustrado porque não vê diferença nenhuma. Você está esperando um milagre ou algo do tipo?” Dessa vez eu fiquei surpreso.

“Pare de se prender aos humanos, eles vão te levar para onde eles quiserem, poucas vezes para bons lugares e outras vezes pra lugares que você não quer ir. Eles vão te decepcionar, eles vão te deixar sozinho, eles vão te machucar e depois vão embora. Olhe no espelho, olhe pra você! O que é que está faltando? Está faltando algo? Então procure! Ponha lá! Alguém te incomoda? Te tira do eixo? Mande ir embora, se afaste, brigue, lute até a morte pra você sair vitorioso sempre. Você tem medo, você é fraco, você é frágil.”

Ele já estava fumando o terceiro cigarro e continuava a falar

“Eu vim aqui para te mostrar que você não é feito de vidro. Que você aguenta apanhar, engolir um pouco de sangue e que consegue revidar também. Se esforce mais, eu sei que você é melhor do que isso ai que está jogado numa lanchonete tarde da noite. Faça algo com sua vida antes que seja tarde de mais, rapaz. Apenas faça, seja lá o que você estiver pensando.”

O homem cervo continuou me fazendo companhia por um bom tempo, sem dizer nada. Tudo já tinha sido dito mesmo. Parou de fumar no quinto cigarro e disse que achava que era hora de ir. Levantou-se, agradeceu pelos cigarros e pelas palavras que foram trocadas. Disse que nos veríamos de novo e eu concordei com toda a certeza do mundo. Saiu da lanchonete, virou a esquina e sumiu na escuridão dos postes com mal iluminação. Paguei o que consumi e nada foi dito sobre o homem cervo entrar e sair da lanchonete.

Fiquei um tempo parado na rua antes de dar as ordens para minhas pernas me levarem até em casa. O homem cervo tinha um pouco de razão no que dizia e eu devia prestar mais atenção em tudo que foi mencionado. Suas palavras, no entanto, me ajudaram muito e tenho certeza que não nos veremos de novo tão cedo.

Fui pra casa e naquele dia sonhei com cervos pulando felizes em um campo aberto e bonito.

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