Primeira carta

Como você está? Tenho me perguntado isso todos os dias. Ficar distante assim é muito difícil pra mim. Aqui é um bom lugar, não se preocupe. Tenho uma pequena cabana, daquelas que você vê nos filmes mesmo, toda feita de madeira. Tenho uma lareira para me manter aquecido nas noites mais frias, um forno a lenha, um radinho e alguns vários livros. Tirando o frio que faz aqui e a distância da minha humilde cabaninha da cidade eu estou ótimo. Não vou te dizer meu endereço, você sabe muito bem onde estou e como me encontrar.

Só não gosto mesmo é do fato de que a estação de trem fique tão longe daqui. Adoro ver os trens indo e vindo lá de longe, trazendo e levando sonhos, amores, tristezas, antigas paixões, novas paixões, esperança e desespero. Tantos sentimentos, tantos problemas.

O ser humano consegue viver com tantos problemas não é mesmo? Mas o meu parecia ser diferente. Pegando emprestado algo que Murakami disse em um de seus livros, meu problema parecia ser uma galinha. Ela colocava um ovo e desse ovo nascia mais uma galinha. Essa segunda galinha colocava mais um ovo e daí vinha uma terceira galinha e mais um ovo. Era algo que não tinha fim.

Eu gosto de imaginar isso, este problema, como eu mesmo. Uma versão ruim de mim que quer o meu mal e então, a minha versão boa, luta contra ela. A depressão é forte mais ao mesmo tempo consegue andar bem silenciosamente e te pega pelas costas sem avisar e nem nada.

Me imaginei frente a frente com ela em um campo de flores. Lá eu a joguei no chão e tomando total controle dela eu a devorei viva. Comecei pelo rosto, dando fortes mordidas, sentindo cada pedacinho de carne, osso e fibra na minha boca. Minha fúria destruiu sua face completamente e assim foi passando por todos os membros inferiores.Dilacerando cada partezinha de seu corpo, arrancando os seus membros em um estado de frenezi descontrolado eu gritava: “ EU VENCI VOCÊ ”.

Banhado em sangue e sobre o seu corpo dilacerado eu olhava pro céu em estado de transe sentindo apenas a brisa batendo na minha pele, respirava levemente, me sentia como uma folha de zelkova sendo levada pelo vento quando se desprende da arvore. Mas ao mesmo tempo eu estava eufórico por ter vencido, esta sensação só consigo descrever como um trem partindo a todo vapor da estação sem pretensão de algum dia parar.

Já escrevi tantas cartas pra você. Sempre rasguei todas. Nunca gostei muito do que escrevi e também não sei o que dizer desta carta aqui, porem, preciso envia-la a você para que possa saber da minha vitória no combate no campo de rosas.

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