Todo dia é uma guerra diferente mas o inimigo é sempre o mesmo

Uma amiga me contou sobre essa ideia de fazer salada no pote. Basicamente, após sua compra semanal da feira, você chega em casa, lava tudo bem bonito, seca as folhas, corta pica rala o que for e prepara porções individuais de salada, armazenando-as em potes de vidro. A dica é: seque muito bem as folhas e coloque-as por cima dos legumes, ou seja, por último. Isto evita que a umidade destrua toda a brincadeira e te permite ter uma refeição praticamente fresca no momento em que bem desejar. Para um cara como eu, que mora sozinho, é uma tremenda mão na roda. Além da praticidade de poder chegar em casa, abrir a geladeira, pegar um pote de salada e jogar no prato pra comer, evita todas aquelas perdas de comida, principalmente de verduras.

Na primeira semana, funcionou até que bem. Levei mais horas do que havia imaginado no preparo todo, muito pelo fato de não conseguir secar as folhas direito. Mas aí a gente se distrai como pode no processo; sou bastante adepto da existência de podcasts para essas atividades cotidianas que não exigem muita concentração e esforço mental. Me perdi um pouco no preparo dos tais molhos de salada. Achei que eles eram parte essencial no que se refere à conservação da comida e me enganei redondamente. Resumindo: eles não são necessários, eu não gosto de molho de salada e, sim, ficou uma grande merda. Tive que sambar um pouco para comer de algum jeito.

Na segunda semana, não fiz nada. Não comprei comida na feira porque não era um dia bom. Então tivemos aí alguns dias de alimentação improvisada porque, bem, se a semana começa mal, a semana tem tudo para continuar mal. Acho que comi macarrão uns três dias seguidos.

Na semana seguinte, acordei de bom humor no dia da feira e saí comprando todos aqueles quitutes que tanto amamos. Fiz as saladas um pouco mais rápido — pegando a prática feito um masterchef — e deletei a ideia errada dos molhos. As fotos dos potes ficaram lindas e postei em alguma rede social aí. Comi os primeiros dias, tive uns dias ruins e dois potes sobraram por uns dez dias na geladeira. É evidente, portanto, que a semana que se sucedeu não teve saladinha. Nem as outras dezenas que vieram depois.

Rúcula estragada forma uma pasta muito nojenta.

Gosto dessa coisa de decorar a casa. Melhor dizendo, gosto da ideia de ter uma casa cuja decoração reflita um pouco mais o meu estilo, a minha cara, meio que meu modo de viver. Então já podemos imaginar as centenas de fotos que marco com CORAÇÃO no tumblr e no pinterest, os painéis BEDROOM, OUTDOORS, LIVINGROOM e essas caralha toda.

Fui para o Brás e comprei cinco almofadas coloridas. E foi basicamente tudo o que fiz nestes vinte meses em que moro aqui.

Dentro do box do meu chuveiro tem uma lata vazia de cerveja há pouco mais de um mês. Há também um banco de plástico com um balde em cima — quando falta água, uso para tomar banho — um tubo de cloro para tirar manchas de mofo, uma esponja velha e um enorme tufo de cabelos, resultante de várias lavagens sucessivas. Segundo contas altamente imprecisas, estimo pelo menos uns quinze banhos ali. Isso dá uma estimativa da última vez em que lavei o banheiro.

Tenho uma garagem com dois carros. Na verdade, somente um — um digníssimo Chevette 1978 cujo motor eu fiz o favor de fundir por falta de cuidados. Sendo mais justo comigo mesmo, não sei se foi isso o que realmente aconteceu; até hoje não tive coragem de mandar arrumar por medo do pior. O outro carro, que não se encontra comigo atualmente, é um Palio 2005, em ótimo estado até semana passada. Fundi o motor viajando pra casa dos meus pais.

Uma das maiores vontades que tinha ao me mudar para uma casa era a possibilidade de um quintal grande, com terra, na qual pudesse plantar e cultivar frutas, legumes e flores. A casa na qual moro tem tudo isto: uma laranjeira, um pé de goiaba, outro de pitanga e uns dois ou três pés de café. Tem uma roseira que às vezes dá umas flores bem bonitas e gigantes. E mato. Muito mato. Um capim infinito que algumas vezes comecei a cortar, mas nunca terminei. Hoje ele está tão alto que bate no peito.

Tenho duas televisões em casa. Uma delas não funciona. Na outra, assisto basicamente filmes com o computador conectado. No quintal de trás da casa, onde fica a churrasqueira, tenho um fogão velho. Ali também está uma escrivaninha de computador desmontada e sem os parafusos, que foram roubados com todas as minhas ferramentas num evento escolar no começo deste ano. Além da minha cama, tenho uma beliche, montada no escritório/quarto de visitas, que no momento está completamente ocupada com papéis, roupas usadas, documentos antigos, muitas mochilas e artigos diversos que não têm seu espaço correto na casa. A beliche possui quatro colchões, dois em cada cama. Há tubos de pvc e de papelão espalhados sobre ela. Garrafas plásticas e sacolas de supermercado. Sobre uma pasta, na cama de baixo, nota-se um pouco de serragem da madeira roída por cupins, pertencente ao estrado da cama de cima. O escritório possui também duas mesas, duas estantes e uma poltrona. Todos estão apinhados de bagunça. Há uma cadeira com roupas lavadas na semana retrasada, que deveriam ser passadas. Quando saio do banho, passo lá e retiro alguma camiseta do monte.

E assim por diante.