O diabo do espelho

Toda quarta-feira, caminhava pelas ruas ermas fumando um cigarro. Saído do trabalho, com a mente cansada e o corpo exausto, deixava-se levar pelo vento. Ia, trago a trago, na mesma cadência do próprio fumo.

O emprego era um porre. E de porre em porre preenchia todas as noites quando largava o escritório. Nos últimos dias, diante da crise, foi o encarregado de mandar gente embora. Amigos e amigas, pais e mães de família que ouviram dele as piores palavras que se poderia ouvir.

Pensou em tantas formas distintas de minimizar a inevitabilidade da rua. Nenhuma delas aliviava sua vontade de vomitar. Nenhuma palavra poderia mitigar a dor que sentia quando via os olhos de seu ouvinte cerrando, vez em lágrimas, vez em decepção. O patrão mandara demitir metade da força de trabalho. Com 20 anos de casa, cortar metade da força de trabalho é o mesmo que cortar uma das mãos.

Chegou em casa. O calor era desgraçado e a chuva que entoava suas primeiras preces prometia uma noite abafada, daquelas que nem as janelas abertas facilitariam o sono. Calor infernal.

Subiu a escadaria, passo sim, passo não. Alguma vizinha cozinhava algo. Aquele cheiro de sopa empesteava todo o andar. Em outro canto, era o volume alto da tevê sobressaindo. Em outro canto, um casal brigava todos os dias ímpares… e pares.

Abriu a porta de casa com custo. Um apartamento pequeno. Geladeira cheia de nada. Água quente no filtro. Bebida na mesa. Restos de pizza gelada em algum canto perto do sofá.

Escancarou a janela grande. Foi essa janela a responsável pela decisão pelo apartamento. Grande para que o vento entrasse e salvasse o dia. Pena que o vento nunca entrou.

Sentou no sofá. Ligou a tevê enquanto bebia. O vento forte lá fora anunciava a tempestade que vinha. Logo a transmissão do jogo foi prejudicada pela chuvarada. Apagou junto com a queda do sinal.


Um olho após o outro, acordou caído no sofá. O copo no chão e o cheiro do álcool subindo do tapete pela sala. O som estava alto. A estática na tevê. O barulho da tempestade lá fora. Chuva forte demais. Uma verdadeira tormenta, que jogou água pela janela aberta dentro do pequeno apartamento. Clarões e trovões disputavam a madrugada. Sepulcral silêncio em tudo mais.

Caminhou trôpego até o televisor e desligou-o. Sentiu a exaustão pesar. Atormentou-se mais ainda pela semana conturbada no trabalho. Pensou nas vidas que ajudou a destruir.

A lâmpada estava intermitente. Talvez fosse a tempestade. Talvez a infiltração do andar de cima não tivesse sido resolvida.

Foi até a mesa da salinha de entrada e bebeu mais do bico antes de ir para a cama. No quarto, deixou a garrafa no criado mudo e esparramou-se pelo colchão.

Já deitado, esperava o sono voltar. Algo fez barulho no banheiro. Olhou de lado, sem sair da cama. Parecia que água escorria da torneira. Arrastou-se da cama, morto de cansaço.

Foi até o banheiro. Acendeu a luz, que não se acendeu. No lugar, viera uma intermitência de luminosidades vindas dos relâmpagos e clarões da rua, associada às vãs tentativas da lâmpada de se permitir acender por uma torpe carga elétrica prejudicada pela pane daquela fiação velha e abandonada.


A torneira não estava aberta. Nem vinha água alguma do chuveiro. Um cheiro de coisa estranha alastrava pelo pequeno cômodo.

Ouviu novamente um barulho. Parecia que pedras eram estraçalhadas umas contras as outras, num barulho tenso e estridente. O barulho estava perto. Ali ao lado, no espelho. Observou-o enquanto rachava e trincava por completo bem à sua frente. Alguns pequenos blocos caíam na pia, partindo-se em mais pedaços.

Entre um clarão e outro, uma forma diferente fundia-se à sua no reflexo deturpado à sua frente. Diante das mil faces que agora se realçavam nos trincos reluzentes, via outra face, sombria, maligna, de olhos grandes e brancos. Brancos feito a morte.

O cheiro permanecia. Um sorriso amarelado veio da forma que ocupara o lugar de seu rosto no espelho. Tal qual o monstro que sentia ser e tentava afogar, estava seu reflexo refém, no cárcere macabro da culpa, de um demônio escuro, sombrio, do reflexo.

Aterrorizou-se. Tentou arrancar a forma dali. Cortou os dedos e a mão nos cacos de vidro. Cada reflexo seu rasgava-lhe a pele com precisão assustadora, enquanto ele se contorcia de ódio e loucura, espalhando o vermelho do sangue nos azulejos e na porcelana branca. O próprio espelho, agora enlameado de seu sangue fresco, riu dele.

Percebeu então aquele diabo que açoita a carne e coloca de joelhos… um monstro pueril e debochador… títere malévolo do cordame da consciência… o inevitável diabo do espelho.

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