EU, O MENINO MORTO

Era verão, mas não havia sol, e o frio espesso da manhã atravessava as cortinas e preenchia a sala com o seu corpo duro. A minha mão tremia ao agarrar com força a estrutura metálica da janela enquanto observava o meu reflexo solitário no mar cinza de prédios. O silêncio no meu peito, porém, era cortado de quando em quando pela sinfonia de risadas e batidas de pés das crianças no pátio. Foi bem na época que a minha mãe batalhava contra um câncer e eu me tornei invisível. Sem amigos, sem bullying, um desconforto muito grande para os professores, quieto, na minha. Eu tinha 13 anos.

Passos apressados e palavras partidas me atingiram pouco antes do Ivan penetrar a sala puxando uma garota pelo pulso. Um raio de sol cortou a janela e o atingiu em cheio, dourando a sua pele negra e reluzindo um daqueles pirulitos vermelhos em formato de coração que movimentava com a língua.

Nossos olhos travaram e permaneceram calados pelo que me pareceu a eternidade. A sala era um amontoado de carteiras descascadas em fila, um quadro negro empoeirado de giz e cortinas mofadas que pendiam como corpos. O odor de sal e limão do garoto se difundiu por entre o de ácaros e madeira velha e tocou a ponta do meu nariz.

“Sai daqui, caralho”, o Ivan preencheu o silêncio com sua voz ácida, como tinta derramada sobre um copo d’água.

Era óbvio que falava comigo, mas não percebi de imediato. Porém, o seu tom bruto me atingiu e tingiu de negro uma gota por vez, despindo-me da invisibilidade que me protegia.

“Tá esperando o quê?”.

“Deixa, Ivan. A mãe dele…”, a garota não conseguiu completar a frase, soltou o braço e partiu em disparada ao pátio.

O Ivan permaneceu. Seus olhos inflamados penetraram a minha carne e me tornaram real. Então, o garoto arrastou passos lentos até a carteira onde eu sentava e fez o assoalho chorar.

“Vai falar, não?”.

Eu não sabia o que fazer. Antes, os garotos me perseguiam, xingavam, roubavam. Eu corria, me defendia, acusava. Agora era diferente. Se eu reagisse, eu voltaria a existir? E se eu voltasse a existir, será que a doença seria real, em vez de o mais cruel dos pesadelos?

O Ivan parou na minha frente e derrubou o meu caderno com um tapa. O cheiro doce e sintético de morango que exalava pela boca estimulou o meu olfato.

“Tô falando com você”.

O seu pescoço tensionava e relaxava, dividido entre dois instintos. Ele deu um soco no ar e interrompeu o punho pouco antes de bater no meu rosto. Fechar os olhos foi tudo o que pude fazer.

“Então você reage”.

No escuro, escutei saliva escorrer e o barulho seco do pirulito batendo contra o dente. Depois, senti a superfície gelada e grudenta do doce contra os meus lábios. O pirulito profanou a minha boca e me fez engasgar ao cutucar a garganta.

Com um estrondo, o garoto bateu o pé no chão e circulou a carteira até as minhas costas. A minha respiração acelerou e preencheu o vazio dos meus sentidos enquanto esperava por uma pancada.

Mãos calosas levantaram a minha blusa. A sua pele quente, molhada e pulsante pressionou as minhas costas. O seu sêmen viscoso inundou os meus ombros e escorreu até o cóccix em uma trilha branca e quente que fez o meu corpo tremer.

O sinal bateu e o Ivan me cobriu.

***

Cheguei em casa correndo e me tranquei no quarto. O meu peito vibrava e doía a cada batida de coração. Ouvi um grito me chamar da sala, mas o ignorei e coloquei um CD do Nirvana para tocar.

Finalmente, depois de três longas aulas, retirei a camiseta e toquei o tecido encharcado de porra. Enchi os pulmões e o odor de kiwi azedo ferveu o meu sangue. Um amontoado de risadas, como bolhas, desprenderam-se do meu estômago e escaparam pela boca. O meu corpo ficou leve e flutuei entre os posteres de filmes de ação, prateleiras de CDs e montinhos encardidos de roupas.

Minha calça jeans e a samba-canção escorreram para o chão e o meu pau rosado pulsou ereto ao ritmo de desejos secretos. O Ivan rodopiava ao meu lado, nu como um querubim, e riu gostoso de orelha a orelha. Ele não disse nada e nem precisava. Os seus olhos me convidavam à luxúria.

Eu não sabia o que fazer, então o imitei. Movimentei a mão da cabeça à base do pênis e a minha carne estremeceu. O ar era expulso para fora dos meus pulmões a marretadas e as minhas bolas inchavam de desejo a cada golpe. Eu transpirava amor e o queria lamber inteiro. Queria sentir o seu toque macio dentro da minha boca para mastigá-lo e provar do seu gozo.

Mas, por mais que o quisesse, não conseguia tocá-lo. Temi que sua unha rasgasse o meu peito e me esvaísse em lágrimas. Tentei parar antes que fosse tarde, mas entrei em ebulição e uma dor lacerante me preencheu, como uma faca torcendo e descolando o músculo. Os meus órgãos giraram com força centrífuga contra a pele e o meu tronco inchou. Fui jogado contra o chão duro e me deformei. Tentei controlar os desejos, mas não tive forças. Com um jorro, os meus poros filtraram as minhas vísceras e transbordei sangue, linfa, pus e gozo.

Eu era pelanca, osso e uma poça rosada de fluidos. Imóvel, vi o Ivan se aproximar, rindo. Ele ejaculou na minha cabeça murcha e fecundou o meu crânio. Um caroço germinou raízes que desceram pela minha espinha. Paralisado, saboreei o seu líquido écran corroer lentamente o que sobrou das minhas costas. O meu tronco rasgou e ramos negros me envolveram, como um túmulo. Antes de ser soterrado, pude ver um leito hospitalar submergir no solo.

Eu permaneci deitado, sofrendo impotente as delícias daquele prazer nefasto.

***

Decidi não voltar mais à escola. Saia de casa de manhãzinha para me esconder em um casarão em ruínas. Nos fundos, me deitava na terra seca aos pés de uma jabuticabeira. Devorava compulsivamente os frutos. Quanto mais eu comia, mais o meu estômago queria. Me tornei insaciável. E tão logo parasse de comer, me deparava com um labirinto de prazer e dor.

Demorou três semanas para a diretora notar minha ausência e vencer o desconforto de notificar minha casa. Não levei bronca, apenas o olhar ausente de quem não queria me repreender. Depois de vinte dias engordando a base de jabuticaba, um homem sem contornos me acompanhou até a pracinha em frente à escola para se certificar de que eu entraria.

O homem me tocou desajeitado e entrou em foco. O meu estômago contraiu como se levasse um murro. Me culpei por fazê-lo se ausentar do trabalho para me trazer de ônibus. Me senti um lixo por deixar a preocupação com a minha mãe se misturar à ansiedade de encontrar o Ivan.

Os meus olhos incharam e escorreram pelo rosto. Os nossos braços se embaralharam em abraços e viramos uma só lagrima. Depois de poucos segundos, ele me largou e aprendi que a solidão é mais vazia que a morte.

Sozinho, atravessei o portão de ferro com passos covardes. Uma neblina espessa manchava a escola de cinza. Segui por um longo corredor pintado de branco com faixas azuis enquanto olhos nas janelas me pressionavam contra o chão. A cada passo, a minha alma pesava enquanto temia encontrá-lo…

Pensei na minha mãe com seus cabelos entrelaçados à jabuticabeira. Uma chuva forte despencava e ela cavou um buraco na terra para se proteger. O homem sem contornos, apático, cobriu o seu túmulo de terra. Eu estava ao seu lado, indiferente. Aquele era o enterro do corpo, o espírito morrera faz tempo…

Escutei fofocas e despertei. Algo sobre sobre as minhas costas, sêmen, saliva, morango. Não lembro. Entrei na sala e fui recebido com um coro de chacotas e dedos em riste. Procurei, mas não o achei. Temi que me atacasse contra a parede e perfurasse a minha costela com um canivete. Meus pés vacilaram e senti os seus braços me prendendo contra o chão enquanto abaixava as minhas calças e gritava de desespero…

Despertei novamente. Fui o primeiro a chegar. Entrei na sala vazia e sentei acuado. As demais crianças foram entrando descoordenadas. Conversavam empolgadas sobre o filme do Homem-Aranha que estreara no fim de semana. Uma garota argumentou que o filme era idiota e seria mais interessante o Peter Parker se transformar numa aranha gradualmente, com pelos cobrindo a pele e tendo que dissolver humanos para se alimentar.

“Você é a própria mulher-aranha, com tanto pelo no braço”, o Ivan disse, entrando.

A piada se propagou e todos riram.

O Ivan seguiu para o seu lugar, um sorriso estampava seu rosto, o olhar maldoso me atravessou e passou reto. A professora entrou apressada com olheiras profundas e começou a aula de ciências.

Eu permaneci imóvel. Vesti minha capa de invisibilidade e suspirei aliviado.

Porém, uma pontada doeu no meu peito e gemi. Olhei ao redor assustado, temendo que tivessem escutado. Nada. Novamente uma pontada, mais forte, como uma agulha cutucando o coração. A dor aumentou e se tornou constante.

A indiferença do Ivan lacerou mais fundo do que qualquer navalha.

***

Eu o queria ferido, partido, esquartejado em mil pedacinhos tão pequenos quanto os meus. Precisava senti-lo sangrar, moer, drenado de vida e preenchido por dor. Não era justo me quebrar e permanecer inteiro. Não era justo continuar com aquele sorriso encantador que me dava nojo. A cada toque no pulso de uma garota, o meu ódio fervia no estômago. A cada piadinha sem graça, eu vomitava por dentro. A raiva e o desejo batalharam pelo controle do meu corpo e se fundiram num demônio vermelho de duas cabeças com o pênis ereto. Eu o queria…

Como mariposa atraída pela luz, a minha rotina era observá-lo de canto de olho, sorvendo cada contração da face que expressasse vergonha, dúvida ou medo. Porém, o garoto construíra um muro para se proteger e eu entrevia suas emoções como se espiasse pelo buraco de uma fechadura.

Fiquei íntimo de seus tiques. As contrações involuntárias de canto de olho. Os dedos pinçando os pelos pubescentes do rosto. O all-star desamarrado esfregando o assoalho. As unhas raspando o tampo da mesa como um pedido de socorro. O tensionar de leve no pescoço ao ouvir o meu nome na chamada.

“Pedro…”.

O meu coração pulava batidas enquanto ignorava a professora e deixava o nome preencher o seu âmago de angústia.

“Pedro…”.

Era um deleite ver o grito crescer no seu esôfago até sufocar a boca.

“Pedro!”.

O Ivan levou uma caneta bic azul aos lábios e mordiscou a tampa. O som da sala desapareceu e ouvi com clareza a língua estalando no material plástico. A tampinha da caneta tamborilou e reluziu coberta de saliva na manhã ensolarada.

O garoto chupou a tampinha e a deixou na boca enquanto anotava a lição. Começou a mordê-la num ritmo nervoso. O objeto plástico deformou como chiclete e virou uma massa pastosa. A tampa escorregou para a garganta e entalou como espinha de peixe.

Tentou falar. Abria e fechava a boca, mas nenhuma palavra escapou. Regurgitou um chiado áspero como lixa de unha raspando o dente. Ninguém escutou. O seu rosto angelical inchou como um balão de festa e o negro deu lugar ao roxo. Desesperado, golpeou a mesa e pisoteou o chão num movimento frenético e mudo.

Enfiou a mão na boca e forçou o fundo da garganta com o dedão e o indicador num formato de pinça. Um filete de saliva escorreu pelo braço até o cotovelo e encharcou o uniforme. O seu peito convulsionou em busca de ar e despencou inerte sobre a carteira. O rosto estatelado me encarou com grandes olhos esbugalhados que sangravam secreções leitosas. Apenas o pé direito continuou a se mexer, arrastando o all-star naquele ambiente tão sem vida quanto ele.

“Pedro!”, a professora gritou, impaciente.

Um burburinho de fofocas ecoava pela sala. O Ivan olhava ao redor, desorientado, como um animal ferido.

Eu o encarava, em transe.

“Deixa, marquei presença”.

A professora continuou a chamada. Os alunos se dividiam entra olhar para ele, na tentativa de decifrar o que eu via, ou para mim, na tentativa de me decifrar.

Os seus olhos entrelaçaram-se aos meus e não conseguiram mais escapar. Permanecemos aprisionados numa conversa muda e o desnudei na frente de todos. O garoto ruborizou. Tremeu da ponta dos pés à cabeça e disparou até a minha carteira como um elástico que escapa à mão.

“Tá olhando o quê, sua bicha?”, disse, expurgando seus atos.

As palavras cortaram a minha carne e expuseram meus medos. Hoje em dia, guardo carinhosamente a melancolia da primeira vez que me acusaram do que eu sou.

Não desviei o rosto e os meus olhos o acusaram de ser cúmplice dos meus pecados. Exposto, o Ivan me pegou pela gola da camiseta e me derrubou da carteira.

Ao cair no chão com um baque surdo, a minha memória falha e rememoro como se entrevisse a briga por uma multidão. Vejo a professora inerte, a mão cobrindo a boca, os olhos vazios, o giz caindo lentamente no chão. Vejo os alunos se encolherem nas carteiras, bocas abertas, levantando as mãos para se proteger dos estilhaços. Vejo o punho do Ivan descendo contra o meu rosto. Vejo um grande vazio iluminado de branco, silencioso e solitário.

O Ivan ganhou uma suspensão de duas semanas. Eu ganhei um olho roxo e uma promessa de morte.

***

O Ivan estava quebrado, afinal. E eu, como um cachorro desesperado que finalmente alcança um carro em movimento, perdi o meu propósito. Agora, teria que enfrentar duas semanas vazias. Num caderninho, risquei os dias ansioso e sem medo pela possibilidade de morte. Se este fosse o desenlace da nossa história, me completaria no momento derradeiro.

A escola não era a mesma. No primeiro dia, cheguei cedinho e sentei no meu canto solitário. Passei seis horas olhando para dentro da minha alma. Observei a raiva e o desejo se digladiarem enfraquecidos e darem lugar ao nada.

Voltei para casa e me tranquei no quarto. Afundei como uma pedra na minha cama e adormeci acordado na tarde sonolenta como um gato no inverno.

No segundo dia, fui ao casarão. Comi jabuticabas insossas que travaram meu intestino. Cai na terra molhada e o frio impregnou os meus ossos. Meus músculos se contorceram e esticaram a minha coluna num formato de arco.

Em casa, passei a tarde vomitando no banheiro.

No terceiro dia, não sai da cama.

No quarto dia, a caminho da escola, o Ivan me agarrou pelo cabelo e me arrastou até o casarão em ruínas. Não ofereci resistência e saboreei a dor no meu couro cabeludo. Ele estava possesso, tomado pelo instinto da caça. Me jogou aos pés da jabuticabeira e me encarou com olhos vermelhos que saltavam do rosto.

Correu ao meu encontro e disparou um chute no meu peito. O ar me escapou e dobrei no solo enlameado. Então, ele pisou nas minhas costas e eu cai de cara no chão, com a boca sobre uma jabuticaba podre. Provei o doce sabor do néctar suculento e fechei os olhos.

A minha calça e cueca foram arrancadas e fiquei nu da cintura para baixo. Desejei o seu corpo dentro do meu, mas me tornei apenas boca, sorvendo o suco do fruto misturado a lama e ao sangue.

Uma dor insuportável brotou do vazio do meu estômago. Provei uma fome que não sentia há muito tempo. A fome primal de um recém-nascido. A fome de nunca ter comido. Como um buraco negro que atrai tudo ao seu redor em um redemoinho inexorável, o estômago era o centro da minha existência. Sentidos, sensações, pensamentos, corpo, olfato, tato, o Ivan. Tudo resumia-se à fome.

Regredi ao instante do parto e retornei aos monstros da infância. Senti o frio rastejante que avança em ondas e belisca como unha. A sensação de barriga vazia e abandono no meio da noite. Sons guturais atacando por debaixo da porta. O toque áspero e seco do chão que rasga a pele. Chorei pelo colo da minha mãe em soluçadas amargas e abracei a terra que a cobriria.

Senti o pau do Ivan forçando o meu cu e desejei que me preenchesse com a sua dor e me tornasse inteiro.

Ele parou e o escutei chorar. Primeiro um soluço, depois uma torrente. Me abraçou e vibrou de vergonha. A sua respiração se aproximou do meu ouvido e os seus lábios da minha nuca.

“Eu te amo”.

A jabuticaba transformou-se em pó na minha boca e os meus poros transbordaram desprezo. O empurrei com força e levantei. Ele permaneceu deitado, envolto em galhos e tingido pelo roxo dos frutos. O encarei de cima para baixo e percebi que tinha os olhos de uma criança. Senti asco do seu amor e vomitei um líquido roxo.

“Bicha é você”, disse.

E a terra estremeceu aos meus pés.

***

Nunca mais o vi.

A minha mãe faleceu pouco depois e mudei de cidade para a casa da minha avó antes que o Ivan voltasse da recuperação.

As nossas vidas não se cruzam há mais de dez anos, mas o carrego no peito todo este tempo, imaginando o que poderia ter sido.

Outro dia o encontrei no facebook e vi que tem um filho. Pedro. A capa do seu perfil é uma foto com o bebê no colo e o mesmo sorriso de orelha a orelha. Os olhos, porém, continuam assustados como na última vez que os vi.

Eu podia ter nos salvado. Agora é tarde demais.

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