Boy meets girl

Eu acordei de um sono sem sono, sem sentir o cansaço tão recorrente nos olhos. Ainda era madrugada quando me levantara. Fazer o chá, se vestir e sair; era como enxergar um tom acima na paleta de cores do dia.

Ver ela era como sentir a dor da certeza, saber dizer chega pra aquilo que já não mais fazia sentido. As cores desciam um escadaria sem fim e o mundo zumbia um acorde morto, perdido no silêncio. As plantas já não balançavam mais, e até a chuva parecia perder seu charme diante dos meus olhos.

Eu cresci ouvindo conto de fadas. Histórias que, na época, pareciam-me tão verdadeiras quanto a calma na voz da minha avó ao me contar de sua juventude. Leves, antigas e poderosas. Tic-tac, era simples como observar um pássaro. Tic, você se virava e quando menos percebe, Tac: Tudo encaixava novamente e as coisas pareciam feitas de doce.

Ela dizia não acreditar em amor. Pelo menos não comigo, se podemos ser niilistas a esse ponto. A realidade era sempre mais cruel, e eu parecia adorar isso. Parecia saber exatamente onde cair. Eu cheguei a olhar pra cima atrás da luz e, ao somente vê-la, a escuridão parecia negra como nunca.

Era amargo e queimava como não deveria ser. Doía como a primeira ressaca, que parece super legal até acontecer com você. Eu já era só pedaços, restos de algo ao chão.

Ela sorria. Andava mais decidida que nunca. Dizem que a melhor imagem é não ter imagem alguma, e ela já não possuía mais passado. Faltavam preocupações em sua vida gélida. Ela dizia não amar, e que não esperava as coisas chegarem à ela. Ela não sabia dizer não a si mesma, perdendo-se em seu emaranhado de vidas. Ela catava cada uma minuciosamente, com medo de deixar alguma escapar. Precisava de todos a sua volta. Precisava dizer tchau, nunca adeus. Precisava não deixar doer em si mesma. Precisava que não fosse de verdade.

Ela andava cada vez para mais longe e, como sempre, decidida a não parar.

Eu sentei no canto a lhe esperar.

Ela virava esquinas como quem não sabe onde ir mesmo que possua o caminho de cor.

Eu sumia com o tempo, me misturava com as notas soltas do ar.

Ela sorria ao se afastar enquanto caminhava sem olhar pra trás.