Por que eu sinto vergonha de me afirmar de esquerda?

Ensaio sobre o Esclarecimento, Racionais e Funk

Por que ninguém resiste a uma coca gelada, né?

Sempre me defini como de esquerda. Soava-me quase absurdo não o ser. 
Ser de esquerda, para mim, sempre foi defender os menos favorecidos ou representados — e esta seria a definição maior de nobreza: defender o direito do outro, mesmo que pouco fizesse diferença na vida do defensor. Veja, para quem nasceu dono de um campo de trigo, o pão será sempre farto — contanto que os gafanhotos mantenham-se longe — , pouco fazendo diferença os poucos quilos que doe àqueles que espantam as pragas em troca do alimento. Vai além da lógica mercantil, pois; sintetiza humanidade e empatia. Pois humanidade tem de ser sempre sinónimo de empatia — ou tendemos um tanto para o lado animal. Porém, é quase ultrajante afirmar-me de esquerda, actualmente. A esquerda defende a si própria com a mesma ganância e falta de ética que o conservadorismo vil, do o qual sempre decidira opor-se.

Uma cabeça rolando por metro quadrado. (Exécution de Robespierre et de ses complices conspirateurs contre la liberté et l’égalité, 1794)

Na Revolução Francesa, ao instalar a República, o parlamento francês começara a tomar, por fluxo natural de conjunção, lados. A política sempre se definiu por lados e interesses mútuos. Aqueles que defendiam a coroa e outras instituições enraizadas começaram a sentar à direita do parlamento — em antítese aos republicanos, sempre à esquerda. Sentar à esquerda é um acto de rebelião, seja contra qual governo for. Por esta lógica, remetendo-nos aos primórdios dos termos, ser esquerda é ser oposição; lutar contra algo já instaurado. Com isto, temos pautas já consagradas do lado canhoto da política, importantíssimas para a evolução da democracia e da humanidade. Sendo assim, o feminismo; a luta contra o racismo, xenofobia, homofobia são transcendentes à meras pautas e agendas políticas — são lutas pró-humanidade. Como não ser de esquerda, então? Como não defender que um ser humano deva receber o mesmo que outro, por exercer o mesmo trabalho; que é normal as pessoas não darem bola ao ouvir meu sobrenome do meio, mas quando falo que o último é inglês e veem a cor da minha pele me atendem com a maior veemência do mundo? Como cegar-me a isto?

Immanuel Kant escrevera um texto que me marcara desde sempre. ‘O que é Esclarecimento?’ é um dos textos mais simples do pensador iluminista — e sintetiza brilhantemente seu conceito de ética e moral. Para Kant, podemos dividir-nos em dois simples grupos: esclarecidos e não-esclarecidos; sendo, basicamente, influenciadores e influenciados. Esclarecer-se nada mais é que o sentido mais puro do movimento iluminista: formar-se a partir de ideais próprios, não necessitando doutros para tomar suas decisões e não confiando cegamente e absolutamente em nada. Também há um ponto muito bacana nisto tudo: os esclarecidos costumam utilizar-se do seu conhecimento para a dominação, ao contrário da boa conduta e auxílio ao esclarecimento daqueles menos felizardos.

Kant e o Livrinho Vermelho do Mal

Símbolo do pensamento libertário que é, sempre associei Kant ao ápice de uma luta à esquerda. Esclarecer ao outro é um acto humanista e, mesmo que difícil, deve ser praticado sempre que possível. Nada mais nobre do que iluminar alguém até que este possa pensar e tomar decisões por si só. Veja, para mim, ser de esquerda estava muito além de uma decisão política: era sobre ética. Deve-se ser muito antiético — para dizer o de menos — ser alguém que aliena o outro em prol do status quo de seus benefícios e privilégios. O excesso de si, quando construído em cima da falta de outro, deveria ser sempre motivo de vergonha e questionamento — não orgulho e soberba. E é isto o que prega uma política de igualdades, não? E não ache que estou utilizando os verbos no pretérito por algum tipo de mudança brusca com minhas ideologias, não — é porque ser de esquerda no Brasil sempre foi algo tão imoral e antiético quanto ser de direita.

Em terras tupiniquins, nunca houve luta por igualdade — mas por mudança de poder. Só passa a bola pra cá um pouco, deixa eu fazer embaixadinha também. O Brasil pareceu não entender que, quando se tem uma bola e dois times, o futebol fica mais divertido se os dois lados jogarem. E sim, eu fiz uma metáfora política com futebol, no Brasil. A verdade é que a grande luta dos oprimidos, aqui, não é sobre ter direitos iguais — mas se vingar. Não os culpo e, segundo Kant, provavelmente esta é a forma mais instantânea de reagir. Porém, será que estamos lutando com armas certas? Será que a forma de debater política brasileira é mesmo antegozando panelaços e ‘fora Temer’s?

Ou, pra sintetizar, até quando a esquerda brasileira vai preocupar-se mais com a decisão do hit do ano e de qual dupla de nádegas lacrou mais e não com o facto de que temos o congresso mais conservador da história do país, desde que somos uma república novamente? Pois é esta a verdade mais crua possível: enquanto nos preocuparmos em roubar a bola do amiguinho, enche-la de purpurina — para deixar com nossa cara e representatividade — , e continuarmos jogando no nosso círculo, não ganharemos campeonato algum.

Bom, para responder isto, fica mais simples. Nunca tivemos esquerda porquê sempre foi mais fácil dominar quem não é esclarecido, do que esclarecê-los. Para isto, vamos analisar o campo cultural nacional mais difundido, a música: onde estão as pessoas que defendem o acesso a moradia digna, saneamento e infra-estrutura básica para todos, quando aplaudem o clipe novo que se passa numa favela? Porque pode acreditar, é maravilhoso ver que aquelas pessoas estão tendo acesso à internet e podendo se expressar — mas também é muito triste saber que ninguém parou para pensar que aquele clipe foi gravado por pessoas que não moram (mais) ali. Elas saem de suas mansões na Zona Sul, entram em seus carrões, dão uma esmola para aquelas pessoas — que infelizmente, aceitam, afinal para quem não nasceu rodeado de trigo, receber alguns quilos de pão já é luxo — e vão embora. É isto que acontece. Fim.

Claro, no fim todo mundo de esquerda sabe que aquelas pessoas vivem em condições péssimas e só produzem certas coisas devido à sua condição social — vide o facto que cultura nada mais é que um espelho da nossa realidade. Porém, se tirarmos todas aquelas pessoas da miséria; dermos alimentação decente; educação de qualidade, a maior chance é de que eles começassem a tomar decisões por si só — ou, iluminar-se (soa familiar?). Mas se a gente fizer tudo isto, o que vai tocar nas calouradas da PUC; quem vai arriscar a vida comprando pó, para todo mundo entupir o nariz enquanto vira a noite na balada? Como eu vou poder dormir de consciência limpa, se começar a perceber que um tiro, para aquelas pessoas, significa mais do que um hit de carnaval?

Perceba que estamos falando de nicho, de centro universitário. Estou citando somente o que conheço, pois facto é que não sou candidato ou político — sou estudante, só. Falo tudo isto e só me regozija o sentimento de asco e contradição, ao pensar ser de esquerda. Enquanto o sonho do oprimido for roubar a bola do opressor, não seremos esquerda alguma — nada além de uma direita ensolarada e que ficou um pouco vermelha depois das férias na praia. Enquanto acharmos que dar acesso igualitário à universidade por parte de negros, mulheres, homossexuais for luxo, e não acto básico de humanidade, não vamos entender o mínimo do que é estar à esquerda. Lutar à esquerda não é deixar que um cantor qualquer retracte sua realidade fútil e deprimente na internet — é transformar a realidade dele em algo substancial e digno. O que fazemos, na verdade, é incentivar o status quo. Enquanto miséria for sinónimo de liberdade, nada será tão reacionário quanto o que já reside no poder.

"Paulo, acorda… Pensa no futuro, isso é ilusão. Os próprio preto num tá nem aí pra isso não" — Racionais MC

Dizer-se a favor da desigualdade social, machismo e qualquer outra pauta — e dançar ao som de ‘Taca a bebida, depois taca a pica/ E abandona na rua’ — não é só contraditório, é agir de má-fé. Não adianta lutar por escolas nas periferias, mas não lutar pelo fim das periferias. Pois o certo não é igualar aqueles com menos por baixo, mas sim elevá-los sempre. Afirmar que manter aquelas pessoas em condições sub-humanas, mas dar espaços mínimos para elas existirem na mídia é representatividade e sororidade, é agir de má-fé. A baladinha representativa com funk que tu vais aos fins de semana não é nada além da espetacularização da miséria alheia. A esquerda sobrevive, actual e contraditoriamente, da alienação.

"Revolução no Brasil (teve) um nome" — Racionais MC
(…) Confesso: Queria ver David matar Golias.

Revolução faz-se com luz, seja do fogo que marcara o passado, seja com a metáfora kantiana para o futuro — e enquanto não nos dermos conta que restos não constroem mentes esclarecidas, o Brasil nunca estará, de facto, à esquerda.