Rap na Pós-modernidade: sim ou claro?

Don L, Makalister, Amor Líquido e Melman

Don L. Foto: Reprodução. (A Escotilha)

As ruas do Capão Redondo, a ganhar voz nas avenidas vocais dos Racionais MC’s, eram improváveis para meus ouvidos; na época. Não vi o rap crescer; seja por ser novo de mais, seja por estar longe de mais. Branco, nordestino e de classe média, cresci longe da cena pioneira do rap brasileiro. Porém, as listas de melhores discos de 2017 não me deixam mentir: o rap, e a ascensão da cultura hip-hop em geral, está vindo com tudo.

O género me ganhou com as letras pesadas e reais de grupos pioneiros, Facção Central e Racionais, chegando-me pelos fones de ouvido paulistas de um amigo corinthiano. Em pouco tempo, rimava mais que o meu colega e, quase 6 anos depois, ainda tenho os poemas que compuseram Sobrevivendo no Inferno tatuados na garganta. Porém, foi o Sulicídio, de Baco e Chinaski, que me fez re-visitar esta paixão pelos beats e mixtapes.

No ano passado, conheci o cearense Don L e mano, o cara veio pra tomar a tudo e fugir de ser mais um boneco com sotaque robótico. Roteiro para Aïnouz, vol. 3 é um dos álbuns mais originais dos últimos tempos e, junto com o Mal dos Tropikos – Makalister, vem pra sabotar nosso raciocínio mais uma vez.


A nova geração do Rap e a importância do Sulicídio

Don L; Diomedes Chinaski; Baco, Exu do Blues; Rapadura: ambos concomitantes em tantos aspectos, diferentes em lírica, mas unidos pelo sangue nordestino. O Rap do Século XXI é do Nordeste, com sotaque e companhia.

Algo curioso sobre a terra de escritores e poetas tão renomados — João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Graciliano Ramos — seria a falta de presença na lírica combinação entre DJ e MC. Foi com a música escancarada e satírica, temas originais e novas visões das ruas tão cantadas de SP, que o nordeste povoou o rap nacional.

Baco Exu do Blues & Diomedes Chinaski — Sulicídio [Prod. Mazili & Sly]

Porém, o que torna o rap actual tão único? Replectas de imagens coloridas, a São Paulo de Don L se encontra no caos do amor fluido e da sintetização de nosso âmbito sentimental. Ao firmar Não Existe Amor em SP como hino da nova geração do rap, Criolo abriu espaço para os versos ácidos deste recém-chegado à selva de pedra. A voltar suas críticas muitas vezes aos próprios colegas, o rapper debocha do estilo gângster, forçado muitas vezes por alguns artistas: "É, então cê quer ser o gangsta rap/ Posando com seu skank em snaps/ Porque maconha é muito gangsta, né?/ Todo mundo é rock star/ Quando chegam os flashes". Em seu álbum, voltamos a ver as mensagens de superação — voltadas ao público de periferia, sem expectativa e esperança —, como já feito pelos eternos Mano Brown e Dudu.

"E eu deixei o nordeste/ Há dois ano com uma sede de secar a Sabesp/ Sem chapéu de palha, nada clichê e velho/ Eu vim pra tomar o jogo/ Não pra ser um boneco exótico/ E forjar um sotaque meio robótico".


O universo líquido e enfermado de versos

Mas o que torna estes rappers tão originais são suas críticas a pós-modernidade, dignas de Bauman e Melman. Com filosofia demarcada, letras arrojadas e batidas criativas — Makalister e Don L espalham a crítica ao mundo líquido em que vivemos pelas avenidas corridas de São Paulo. Principalmente focados nos relacionamentos amorosos e fraternais, Don L joga limão nas feridas enquanto o jovem Maka tempera-as com sal e pimenta — as músicas possuem finais sempre inesperados, como se rompessemos com elas a cada track que se passa, dando a sensação de amores a sair de nossas vidas e ainda deixar o gosto agridoce de 'quero mais'.

Mal dos Tropikos (2018) e Roteiro para Aïnouz, Vol. 3 (2017)

“Da era do amor virtual/ Fizeram do amor ritual/ Onde os dogmas laçam e os androides se abraçam/ Castos e cultos/ Tudo é hologrado, inorgânico, mudo/ Onde os tolos se abraçam”, Mal dos Tropikos denuncia a troca de informações e a falta de sensibilidade nos relacionamentos contemporâneos. A conversação com o ‘Homem sem Gravidade’, de C. Melman é sublime e torna a obra um dos álbuns mais promissores para 2018.

Para Don L, é visível como estamos a nos tornar cada dia mais niilistas, e o próprio rapper entra em discussão consigo ao ver suas contradições batendo a flor da pele. Será que todo ideal, realmente, é teórico ou Roteiro para Aïnouz é a reafirmação sólida que o rapper necessitava para fincar os pés no concreto? Fica claro que com flow ágil e melódico, rimas imprevisíveis e letra rebuscada, ele comandou espetáculo — mas não esqueceu o porque está ali.

Em um mundo onde todo o orgânico em nossas vidas é suprimido por pílulas e atenuado por pó, a crítica relevante dos artistas vem a calhar, principalmente por levar a discussão pós-moderna às ruas; tirando-as dos círculos d’ostra nas Academias. A importância da linguagem do hip-hop mostra como a periferia tem a oferecer em qualidade, falando a língua do povo mas oferecendo ao povo o poder de falar qualquer língua.

A força de síntese do rap, ao trazer ritmos modernos para debater temas tão relevantes, faz do género uma escolha prima para os artistas desabafarem sobre condições sociais e diversos tipos de desigualdades. Há tempos vemos isto acontecer e fazer história, e agora vemos a nova geração revolucionar, como profetizara o saudoso vocalista dos Racionais.