O golpe e o fracasso de uma estratégia

Os limites da tática de conciliação de classes



Nease texto me proponho a fazer uma análise do golpe parlamentar de 2016 ocorrido no mandato da presidenta Dilma Rouseff. Para entendermos esse evento é preciso nos propormos em analisar as táticas e estratégias tomadas pelo Partido dos Trabalhadores e nos afastarmos de análises superficiais sobre o que foram os governos petistas. Para isso nos vale 3 momentos de análise. (1) Entender o porquê do foco da luta institucional pelo viés da conciliação de classe. (2) A operação dessa política nos 13 anos de governo petista e suas consequências. E por fim, (3) sintetizar as falhas táticas e estratégicas do governo.


Para compreender melhor os três pontos citados, nós utilizaremos as ferramentas analíticas de tática e estratégia política. A primeira consiste em determinar o que deve ser feito de acordo com as condições históricas e concretas do momento (HARNECKER 1985). E tais decisões devem estar de acordo a estratégia. Essa última define-se como as maneiras de trilhar um caminho que destina-se para um objetivo (idem). Então é como se a estratégia fosse a projeção de uma trilha, a distancia e os obstáculos, e os passos dados, desvio de situações imprevistas, a tática.


Antes de entender os passos percorridos pelo Partido dos Trabalhadores nos 13 anos de governo, é preciso entender o caminho que ele escolheu caminhar e o porquê dessa trilha. Avalio que o caminho da disputa institucional pela conciliação de classes seja devido ao afastamento do Partido das suas bases, uma vez que o partido perde força social a correlação entre as forças vigentes se alteram, obrigando o Partido a tomar outro rumo estratégico.

Na década de 90, as bases petistas se fixavam em 3 principais polos: núcleos-base inseridos nos bairros; os sindicatos, sobretudo o SindBancário (Sindicato dos Bancários de Porto Alegre) e o SMABC (Sindicato dos Metalúrgicos do ABC); e a igreja católica, no que se refere aos membros da Teologia da Libertação vinculados as CEB (Comunidades Eclesiais de Base). Nessa década o Partido vivenciou um movimento de duas vias contrárias que por um lado conquistava os diversos postos do Estado, como as prefeituras, governos estaduais, deputados e senadores. Mas por outro, suas bases estavam sendo drasticamente fragmentadas.

  1. Os núcleos-base foram deixados a margem da organização. As dirigencias do partido não fizeram o trabalho político e organizativo de integrar os núcleos entre si e com as suas instâncias superiores. Isso fez com que não se formasse quadros políticos para aglutinar as massas no local de atuação do núcleo.
  2. Os sindicatos sofreram com os avanços do neoliberalismo, no caso do SindBacário com a terceirização das empresas, e do SMABC a automação das fábricas. Essas práticas desmobilizaram esses dois grandes polos da luta sindical.
  3. E com o avanço do neoliberalismo, setores mais conservadores da igreja católica assumem o Vaticano e iniciam um projeto de eliminar a influência comunista da igreja. Setores como a OPUS DEI e a RCC conseguem posições mais privilegiadas e a Teologia da Libertação começa a ser censurada e perseguida.

O PT anterior ao desmonte da base tinha como perspectiva uma tomada do poder e a implementação de um projeto de reformas estruturais populares. Conforme o neoliberalismo avança sobre a América Latina, principalmente depois do fim da URSS (1991), o Partido vai alterando seu caminho estratégico, visto que sua base estava desarticulada – ou seja, perdendo sua força social – então era preciso mudar a estratégia, pois não existia força social para um projeto de tomada do Estado. Como já existia diversos cargos ocupados no governo, o Partido começou a priorizar a disputa institucional.


Como ter governabilidade em um cenário como esse? Eis que o PT opta por duas decisões: primeiro, abandonar a estratégia de reformular o Estado e optar por um projeto de políticas que visava atingir todas classes sociais do País. Dentro desse contexto que surge a política de conciliação de classes. Essa prática consiste, basicamente, em aliar interesses de forças sociais distintas. Na prática seria correlacionar classes distintas e aplicar políticas que tantos setores populares quanto das elites saíssem beneficiados. Em 2002, na Carta ao Povo Brasileiro, tem um trecho que resume a atuação tática do governo pelos próximos 13 anos: “[O povo brasileiro] Quer abrir o caminho de incremento da atividade econômica com políticas sociais consistentes e criativas”. Inicia-se uma política de manejo de interesses contrários. Enquanto o povo brasileiro conseguiu ter melhores condições materiais de disputar a luta de classes, grandes empresas privadas começam a se fortalecer. Um exemplo claro dessa contradição é o projeto do PROUNI que promoveu acesso mais facilitado ao ensino superior para classes mais pobres, em troca de grandes empresas privadas do ensino superior serem financiadas pelo Estado para promover essas políticas. Então ao passo que a classe trabalhadora conseguiu melhores condições materiais, que é um fator essencial para uma mobilização popular, as elites econômicas, tanto nacionais quanto internacionais, se fortaleciam.


Pensando o capitalismo como um ciclo de picos de mais-valor, expressos pelo acúmulo de capital econômico, e crises econômicas, devido ao excesso desse acúmulo, essa estratégia de aparente harmonia entre povo e burguesia é possível nesses momentos de pico. Em que é possível implementar medidas populares sem desestruturar o sistema econômico. Contudo, em momentos de crise econômica, a contradição de interesses é posta em cheque e a luta de classes emerge mais forte do que nunca. Desde a crise de 2008 a conciliação de classes aos poucos vai tornando-se uma tática inviável. Ao passo de que as políticas de cunho popular vão se tornando inconciliáveis com os interesses das elites. Em 2016 quando o tensionamento de interesses de classe atinge seu ápice, os setores da direita se coalizão em um bloco golpista que teve como objetivo retirar o PT do Estado e aplicar um projeto neoliberal que continuasse a ampliar o lucro das elites – agora principalmente a internacional – e que a classe trabalhadora pagasse a diferença que permite os capitalistas estarem intactos a essa crise.

A rigor tático e estratégico, o erro petista se encontra principalmente em 3 pontos: Primeiro, em projetar sua tática de conciliação de classes como uma estratégia de conciliação permanente, sem levar em conta os movimentos de picos e crise do capitalismo. Segundo, em não centralizar a sua tática na construção da disputa do poder em torno de uma força social de massas nas contradições que essa aliança permitia. Terceiro, em abandonar por completo durante seus anos vigente as reformas estruturais do Estado, principalmente em relação a democratização da mídia e medidas para tornar o judiciário popular, pois essas conseguem se materializar em ferramentas de disputa popular contra os interesses imperialistas.


A análise sobre as táticas e estratégias tomadas pelo Partido dos Trabalhadores é essencial para projetarmos caminhos contra o golpismo. Nesse momento de defesa ativa da esquerda, recuados, mas sempre projetando a tomada do poder, é o momento de formarmos coligações de unidade de estejam em torno de um projeto que barre o golpismo e reverta suas medidas retrógradas e paute uma reforma das estruturas do Estado. Estamos em um momento em que o velho não morreu, um projeto que se mostrou insuficiente, mas que o novo ainda está nascendo. Uma nova frente ampla que se guia em um novo projeto democrático popular para que trilhemos um novo caminho.

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