Ando meio cético sobre a capacidade que a arte contemporânea tem de cumprir seu projeto de se diluir no real. Comecei a sentir isso a partir da disparidade na qual coisas consolidadas e até ultrapassadas no campo da arte são recebidas por aqueles que não estão inseridos nele. Performances que envolvam nu, por exemplo, presentes aqui no Brasil desde que Antonio Manuel invadiu o MAM sem roupas e prôpos que “O Corpo é a Obra”, em 1970. Mil novecentos e setenta. Ninguém que tenha um mínimo de conhecimento do que foi produzido no Brasil nos últimos 46 anos se choca com pele a mostra. Mesmo assim, quando uma colega de curso se despiu e se depilou numa performance durante o evento de reinauguração do MAC em 2016 foi recepcionada com extrema truculência e incompreensão generalizada. Com certeza por se tratar de um corpo feminino essa dicotomia foi potencializada, mas acho que vai além disso.

Outra coisa recorrente no que se tem feito atualmente, ao utilizar-se de proposições que envolvam moradores de uma comunidade específica, (pessoas que muitas vezes não contam com a disponibilidade e o tempo livre necessários para se submeter a uma iniciação e um estudo histórico da arte para compreender que estão sendo usados como matéria para fazer algo que convencionou-se chamar de arte contemporânea) esbarramos numa fronteira ética — onde será que essas proposições não caem na tautologia da “arte pela arte” modernista que tenta tão desesperadamente superar?

A incapacidade total de se diluir na realidade mora no fato de que aquilo que legitimamos ao chamar de arte contemporânea (essa movida a editais e residências-safari) não tem absolutamente nenhum ponto de contato com a realidade de quem vive a cidade do ponto de vista de uma janela engarrafada na avenida brasil.

Não seria a hora talvez de abandonar o apreço que temos essa palavra antiga Arte — apreço esse talvez sintoma de um colonialismo que ainda assombra nossos espaços de discussão e ensino? Por que usar um termo e uma narrativa européia para legitimar os produtos de nossa cultura, o barulho que sai dos nosso corpos e muros?

Eu quero chamar o pixo e o xarpi de pixo e xarpi mermo, entender e pensar eles sem me pautar por um filtro genealógico que não lhes diz respeito. Quero poder respeitar e sentir o grave do funk sem ter que lavá-lo e botá-lo numa perspectiva de instrumentalização que o samba passou, na necessidade de geração de uma unidade na identidade nacional varguista.

O que proponho aqui é deixar esse nome moribundo morrer nos velórios eternos dos leilões e feiras mercantis. Não procuremos nos encaixar onde não cabemos. Não se deixar engolir, empacotar-se em comodity. Não tem nada pra nós na ART Rio.

Quem topa se livrar do peso de uma linha histórica colonial e começar a nos entender por nós mesmos? Nos termos que nos são próprios. Artista é o caralho.

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