o messias, bicheiro aqui da esquina faz tempo, hoje me apareceu com uma bengala e sem metade de uma perna. messias que era não deixava coisas dessas passar. era boa gente, nunca matou ninguém que não merecesse. que passou ai seu messias — do outro cara não sobro foi nada pedrinho — porra mas aquela peladinha de domingo agora vai ser pegado ne nao chefe — vai fazer falta, gostava dessa pata como se fosse parte de mim sabe — risada grande cheia, barrigona suburbana subindo e descendo fazendo dançar a correntona de ouro que emoldurava o pescoço carnudo.
sentado ali na carteirinha de escola de sempre com as fichinhas penduradas no poste de sempre não parece que a perna vai fazer muita falta pra messias aqui da esquina
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jorge era peão de obra aqui da esquina. homem negro carregava num peito erguido sempre um escudo rubro negro, acho que nunca vi ele com outra senão o manto sagrado. falava pouco e reto, era elegante no trampo e no trato, tinha um porte que de rei caído sabe? seus dois braços levavam cimento e uma dor muda da concreta. um dia jorge não apareceu pra obra aqui em casa, jorge nunca falta, que aconteceu com jorge, já faz dois dias, alguém conhece familia — o corpo ficou uma semana no necrotério antes de alguém aparecesse pra reconhecer, jorge ia ser enterrado como indigente depois que soltou seu corpo do vão central da ponte rio niterói. o silencio de jorge ainda faz muito barulho no buraco sem reboco da cozinha aqui da esquina
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luiz é jornaleiro aqui da esquina. tem olhinhos agudos atrás de um oculos e uma envergadura atarrancada que expande com aquela simpatia comerciante que tá acabando aqui na esquina. quatro em quatro anos, incrível, o carinha não desiste, luiz sai pra vereador. LUIZ JORNALEIRO 40555 PELO MARACANÃ QUE NÓS QUEREMOS não sei nem o partido, no ano passado no cartaz tinha uma montagem com um romário de sorriso congelado desconfortável recortado atrás da foto 3x4 estourada do luiz. a montagem foi meio nas coxas e a mão que devia estar no ombro tava uns dois dedo acima e deixava tudo um pouquinho mais constrangedor. mas é certo como chuva, quatro em quatro anos esse cartaz aparece em todo poste que sobe a rua aqui da esquina. esse ano voto no luiz