Eremita, monge ou George Clooney — pt.2, ou Quando eu escrevi ‘árveres’ e a moça me corrigiu

Recebi muito feedback pela primeira parte, obrigado a todos. Eu fiquei bem feliz por meio que ter "acertado" nesse primeiro teste, mas ao mesmo tempo criei uma grande expectativa pra este e para os próximos textos. Eu só quero reiterar que eu não tenho pretensão nenhuma com esses textos. Quem me conhece sabe que eu gosto de criar regras e teorias sem sentido nenhum e totalmente furadas, então não esperem um conteúdo realmente relevante. Segundo um amigo, meu texto cumpriu seu papel de ser tão raso quanto nossa geração (foi um elogio).

O tema da parte 2 é Referências. Ao escrever sobre isso, fui aprofundando e percebi que estava juntando Design + Online Dating. Amiga minha já havia feito esse paralelo num post dela sobre Tinder, e faz todo o sentido. Vou falar disso mais à frente. Escrevi bastante coisa sobre Referências, e resolvi pegar esse texto e destrinchá-lo, reorganizá-lo e dividi-lo em duas partes (também pra leitura não ficar demorada). A parte 3 - Conexão tem relação direta com o conteúdo que vem a seguir. Então, se esse texto não tiver uma conclusão lógica, talvez o próximo tenha — não prometo. Vou tentar postá-los com um intervalo pequeno entre um e outro.

Essa já foi minha life mesmo. Tá sendo né, não tô aqui (nem no Tinder) pra enganar ninguém

Vocês já pararam pra rever episódios de séries como Seinfeld e Friends e refletir sobre como o enredo de alguns episódios não faria o menor sentido atualmente? Ou que todo o enredo/desfecho seria diferente se as pessoas da série tivessem em mãos um smartphone? Na verdade não preciso nem ir muito longe, qualquer celular sem acesso à internet já seria suficiente pra isso. O último episódio de Friends foi ao ar em 6 de maio de 2004, quando eu estava no 3º ano. Na época quem tinha celular com câmera era rei (eu nem celular tive até me mudar pra Brasília, era ótimo minha mãe não conseguir me achar). A Sony-Ericsson estava re-lançando um sucesso dos anos 70, o walkman — mas agora no formato de um celular que tinha as mesmas características de um mp3 player. Quem tinha mp3 player era só quem tinha internet ADSL pra baixar música no Napster, Audiogalaxy, Kazaa… Ou pegava os arquivos dos amigos pelo mIRC.

Esse texto sobre smartphone não prova nada, prova só que o Coringa é um fdp

Esse texto aí em cima não tem muito nexo. Escrevi só pra ilustrar que existem pessoas (com idade suficiente pra tirar CNH) que provavelmente não entenderam muito do que eu acabei de escrever e, se eu mudar as configurações do Tinder, elas aparecerão pra mim. E eu não vou conseguir manter uma conversa por muito tempo com essa galera. Pra ser bem justo, a idade contribui demais, mas não é o fator mais importante pra essa diferença de referências. Eu tenho irmã e primas 7 anos mais velhas que eu, e isso foi crucial para as minhas referências. Eu não lembro de Polegar, Dominó ou Menudo, mas sei muito sobre eles por causa delas. Claro que boybands não foram as únicas referências que elas me passaram, mas deu pra pegar o espírito, né? O namorado da Barbie não era o Ken, era o Bob. Eu vi o Rabito, cachorro de Carrossel, virar de vira-lata pra pastor alemão de um episódio pro outro. A mãe da Maria Joaquina mesmo mudou umas 3 vezes. Roberto Baggio isolando a bola naquele último pênalti, lembro como se fosse ontem. Meus heróis morreram de acidentes e doenças. Mamonas, Leandro, Zacarias, Mussum, João Paulo, Senna. ESSA GALERA NÃO VIU O SENNA!

Segundo uma amiga, ao ler o primeiro texto que escrevi:

Olha, esse gap não é exclusivo para relacionamentos e dates… A primeira vez que mochilei sozinha eu tinha 22 e todo mundo era um companheiro de viagem em potencial, 7 anos depois passando pela mesma experiência percebi que eu simplesmente não consigo manter uma conversa interessante com pessoas com menos de 25/26, ir num date, nem pensar! Claro que sempre existirão exceções… Mas no geral não tenho paciência.

Beleza vovô Pedro, e daí? São gerações diferentes, referências diferentes. Normal, não existe certo e errado. Na empresa onde trabalho costuma-se falar nas palestras sobre esse hiato das gerações, essa diferença abismal de visão de mundo entre uma pessoa idosa e um adolescente, que se agravou exponencialmente nos últimos 15–20 anos. Se eu não consigo manter uma conversa com uma mulher 7 anos mais nova que eu, imagina como é difícil projetar um produto/serviço pra alguém idoso (será que idosos usam Tinder? Nunca coloquei mais de 10 anos a mais que a minha idade. E agora que eu sei da manha de saber previamente quem te deu like, eu ia ficar extremamente bolado se alguma idosa me desse like, apesar de ficar feliz porque posso seguir carreira de acompanhante em cruzeiros do Roberto Carlos). Não sei nem começar a puxar assunto com uma pessoa de 20 anos — na verdade nisso os apps ajudam um pouco.

Eu não vou esse ano pois ele nunca canta Caminhoneiro

Happn e Tinder podem ser conectados ao Spotify e Instagram. Eles já são automaticamente ligados ao Facebook, então mostram as comunidades das quais você faz parte. Consequentemente, mostram as comunidades (em comum com as suas) da pessoa com quem você deu match. Isso facilita demais na hora de puxar um assunto, porque aparentemente pessoas que perguntam sobre o emprego, faculdade e hobbies da outra pessoa têm o papo ruim (como se a conversa não fosse construída por duas pessoas). É preciso “inovar”. Eu sou adepto desse tipo de conversa que foge do “questionário de emprego”, tento sempre mandar um comentário engraçado sobre algo que me chamou a atenção no perfil da mulher. Uma foto, uma comunidade, um músico… Qualquer coisa que faça com que a pessoa se interesse um mínimo por você. E a diferença de referências não ajuda em nada (quem viu Master of None sabe que dá pra puxar conversa de forma engraçadinha sem precisar de muito).

Uma vez deu match com uma moça que havia cursado Direito e curtia a comunidade do Hermes e Renato. 
(eu) — Você teve aula de Direito com o professor Gilmar, consagrado pela OAB?
(ela) — Não, nem conheço.
(eu) — Aula de direito, artigo 280 do livro do código penal. Falcatrua, com um pouquinho assim de vadiagem.
(2 dias sem responder, insisto:) 
(eu) — Sinhá Boça, do Hermes e Renato, não viu? O Away era o professor Gilmar.
Nunca mais me respondeu.

Acontece, às vezes a abordagem não agrada. É preciso estar acostumado a levar fora, a ser ignorado. Na verdade, caro amigo homem (hétero?), se deu match com uma mulher, a bola está no seu campo (machismos à parte, moças podem e devem puxar assunto). Cabe a você se fazer relevante, porque ela tem você mais uns 40 caras falando com ela, falo com propriedade (quando o cara puxa assunto né, muita mulher reclama de homens que dão match e não conversam. Tenha a decência de excluir o match se você se arrependeu. Não sei se devo, mas gostaria de escrever sobre regras de conduta em apps como o Tinder). Se você escolheu bem sua abordagem e ela respondeu, ponto pra você. O anzol já foi jogado, agora é fazer fisgar de verdade, e isso exige muito savoir faire (sou chic). E na boa, não precisa de muito. Há muito tempo deu match com uma mulher que tinha só três fotos (não havia como conectar com outras redes), e em uma delas ela estava acompanhada do que parecia ser seu pai, que vestia uma camisa do Palmeiras. 
(eu) — E aí Fulana, tudo bem? Seu pai também acha que o Oséas é o jogador mais estiloso que passou pelo Palmeiras?
(ela) — Oi! hahahaha não sei!
(eu) — Saudades daquelas madeixas… E do Paulo Nunes, claro.

Esse é o Oséas, jogou no Palmeiras na época que era patrocinado pela Parmalat, que tinha as criança vestida de animal

Ela não fazia ideia de quem era Oséas, Paulo Nunes, Veloso ou Dinho. Mas foi o suficiente pra chamar a atenção. Às vezes as referências podem ser direcionadas a terceiros. E eu não torço para o Palmeiras, a minha memória que é esquisita pra certas coisas. Não decorei o celular do meu pai até hoje. Aliás ninguém decora números de telefone hoje mais, a disponibilidade dos dados nos deixa preguiçosos e dependentes. Já tive a teoria que o designer é o preguiçoso com propósito de passar mais tempo à toa. Como falei no começo do texto, depois de começar a trabalhar com Design de Serviço e realmente tentar me aprofundar no ser humano para projetar, comecei a encaixar na minha vida muita coisa dos métodos, livros, textos e abordagens que usamos para projetar um serviço.

Só pra contextualizar quem não conhece: quando falamos sobre Design, ou Design Thinking (que aplicamos para projetar produtos e serviços), estamos falando sobre uma abordagem apoiada em 3 pilares: colaboração, experimentação e empatia. Empatia, nesse caso, é um aprofundamento para tentar obter conexões com as pessoas, investigar suas vidas, motivações e anseios, e tentar projetar algo que seja de real valor para elas. E quando eu aplico isso ao Tinder, qual artifício uso pra obter conexão? Referências.

Uso referências para tentar ter uma conversa menos travada com a pessoa que acabou de te dar match no aplicativo. Abrir essa primeira porta é o mais difícil, depois flui com mais facilidade — mas tá complicado… Amiga minha saiu com um cara pro karaokê uma vez, e o cidadão não sabia quem era Alcione. Alcione. Eu não preciso gostar de samba, eu não preciso nem gostar de música brasileira pra saber quem é Alcione. Fica moroso o processo, a gente é raso (ou se acostumou a nivelar por cima) a ponto de não querer mais que o relacionamento vá pra frente porque a pessoa tem uma “falha” que nos faz (querer) perder a conexão. Pra ser justo minha amiga saiu mais vezes com esse caboclo, mas não deu em nada. Ainda bem, o cara não sabia quem era a Alcione, BFF do Axl Rose, A MARROM PORRA!

Quem não ama essas tias

Tá bem difícil ter uma conexão, manter se tornou algo hercúleo. Como este texto já está grande e eu comecei a ficar triste com meus próprios pensamentos (os casamentos de dois grandes amigos nos últimos finais de semana não cooperaram), vou parando por aqui. Desculpe se não existe uma conclusão clara, ou se você chegou até aqui e sentiu que perdeu uns minutos da sua vida. Na Parte 3 eu vou falar mais sobre essa conexão, elaborar mais sobre a relação entre design, inovação e online dating. E, claro, sobre esses relacionamentos rasos igual piscina de criança, que não molham nem o tornozelo direito e tem o cheiro esquisito.