A falta de preparação dos portugueses para o séc. XXI

Pedro Andrade

Um dos acontecimentos mais marcantes de 2018 deu-se em Setembro quando uma quantidade considerável de taxistas decidiu manifestar-se em simultâneo por todo o país. Não consigo deixar de pensar que assistimos a algo histórico. Milhares de taxistas pelo país fora vêem o seu posto de trabalho em risco de deixar de existir, alegando como causa principal da sua situação a concorrência desleal dos motoristas afiliados à Uber, Cabify ou Taxify.

Efetivamente, os taxistas têm razão quando dizem que estão a ser injustiçados ao terem que pagar licenças e serem altamente regulamentados, quando a concorrência não o é. No entanto, não nos podemos esquecer que essa concorrência apenas existe e cresce, pois responde à procura de um serviço superior e mais conveniente, algo que os táxis deixaram de ser.

Para tornar a situação mais difícil para os taxistas, o Governo tomou a decisão de regulamentar as plataformas eletrónicas de transporte. Os taxistas ficaram descontentes e a Uber e companhia felizes. Fim anunciado dos táxis? Muito provável, mas só o tempo o dirá.

Esta história podia ficar por aqui, mas acontece que apenas estariamos a adiar a conversa sobre um problema muito maior: a falta de meios da população para se reinventar e adaptar a um mundo onde apenas se pode ter a certeza que não se pode ter a certeza de nada.

Agora quem está a manifestar-se são os taxistas, mas daqui a 5–10 anos serão todos os motoristas Uber, Uber Eats, Taxify e Cabify quando as empresas para as quais “trabalham” os substituirem por veículos autónomos. Os consumidores vão sempre preferir a opção mais barata para entregar um Big Mac ou os deixar no aeroporto (não há motorista a quem pagar, logo o preço é inferior). No final do dia, milhares de pessoas vão sentir-se abandonadas e sem saber o que fazer com a sua vida. O mesmo problema, atores diferentes.

Os taxistas e a Uber são apenas a ponta do iceberg. Em Portugal, mesmo que não pareça, centenas de milhares de postos de trabalho estão em risco de desaparecer devido à automação de funções em nome da eficiência produtiva. Alguns exemplos:

  • Operadores fabris
  • Camionistas
  • Operadores de call-center
  • Motoristas de táxis, autocarros e metro
  • Recepcionistas
  • Embaladores
  • Bancários
  • Operadores de caixa de supermercado
  • Analistas
  • Certas especialidades de medicina
  • Contabilistas
  • Programadores de software
  • Carteiros
  • Agentes de viagens
  • Todos os que trabalham num cinema
  • Staff de hotéis e room service
  • Etc.
Fábrica da Tesla nos EUA

Um exemplo muito concreto:

Quais seriam as consequências da Auto Europa dispensar todos os trabalhadores das linhas de montagem e os substituir por robots capazes de fazer as mesmas tarefas de forma mais barata, rápida e sem erros?

Economicamente seriam excelentes para o maior contribuidor do PIB português. Socialmente seriam catastróficas. De repente estariam milhares de pessoas desempregadas, contando não só com quem trabalhava na fábrica, mas também com todos os negócios que dependem da permanência daquelas pessoas na área como restaurantes, cafés ou bombas de gasolina.

A solução para este problema parece ser simples: não substituir as pessoas por robots. No entanto, isso seria negar o nosso país do futuro e deixá-lo ficar para trás do resto do mundo. Aí os portugueses teriam razão quando dizem que o resto do mundo é melhor que nós. Isso não é, nem nunca será opção. Como é que ficamos?

Num cenário perfeito, os ex-colaboradores da Auto Europa encontrariam logo uma ocupação e seguiriam com as suas vidas, mas todos sabemos que isso não funciona bem assim. Trabalhar em linhas de montagem é o que eles sabem fazer e se a Auto Europa tornou-se totalmente automatizada, as outras fábricas também o são ou serão num curto espaço de tempo. Logo, as suas qualificações já não fazem sentido para aquilo que o mercado procura.

Solução?

A solução para este problema tem de passar, como sempre, pela educação. No entanto, não podemos continuar a educar da mesma maneira que temos feito nos últimos 200 anos ou corremos o risco de ver o mesmo drama humano repetir-se de geração em geração. Porquê?

Porque a mudança é a única constante.

Em 1219 sabia-se que, em Portugal, a esperança média de vida era cerca de 40 anos, que a peste matava e que a sociedade estava estruturada de forma feudal. A mudança não era frequente. É verdade que não se sabia quem seria o próximo rei ou quando é que os castelhanos invadiriam. No entanto, sabia-se que em 1250 a maioria das pessoas continuariam a ser agricultores ou artesãos.

Tendo isto em conta, as famílias pobres ensinavam as crianças a cultivar os campos e as famílias ricas a combater a cavalo. Ninguém esperava uma mudança drástica na organização social, pois estas demoravam centenas de anos a ocorrer. Uma pessoa podia morrer sem nunca ter-se afastado mais do que 10 km do local onde nasceu, tendo passado a vida inteira a cultivar o mesmo campo.

Acontece que o mundo já não funciona assim.

O João nasceu em 2018. Entrará na escola em 2024 e terá cerca de 30 anos em 2050.

Que skills deverá ele adquirir para ser uma pessoa produtiva em 2050? Deve aprender a programar? A resolver equações diferenciais? A editar vídeo? Que empregos vão existir em 2030 e em 2050?

Infelizmente ninguém sabe o que o futuro nos reserva. No entanto sabemos que a velocidade a que a realidade que nos rodeia muda, está a acelerar de forma exponencial.

Já só podemos ter a certeza que não podemos ter a certeza de nada.

Um mundo em constante mudança obriga a reinventar-nos constantemente. O que é certo hoje, já não o é amanhã.

Este foi o principal erro dos taxistas. Não se deram ao trabalho de ver que a população procurava algo melhor e deixaram-se ficar quietos, deixando outros mudarem o paradigma e adaptarem-se ao presente e ao futuro. Não ouviram o despertador tocar e já estão atrasados.

Será que a culpa é somente dos taxistas? Não é. A culpa é principalmente de um sistema educativo que procura enfiar o máximo de informação na cabeça das pessoas, na esperança que estas a organizem e criem uma imagem do mundo atual e futuro com base em informação antiga e por vezes desatualizada.

Acabamos por investir muito tempo e esforço a ensinar crianças a programar ou a falar francês, apenas para descobrirmos que em 2050, a inteligência artificial já consegue escrever código de forma mais eficiente que um ser humano e que a nova app de tradução da Google permite-nos ter uma conversa em francês fluente com alguém, mesmo que apenas saíbamos dizer croissant.

Com isto não quero dizer que essas coisas não são importantes. O problema aqui é que ensinar somente isso já não é suficiente para uma formação que nos prepare para um mundo cada vez mais competitivo.

Um sistema educativo que prepara as pessoas para o séc. XXI é aquele que dá as ferramentas para nos reinventarmos sempre que necessário. O mundo vai continuar a avançar. Todas as tarefas que envolvem regras e repetição serão sempre melhor desempenhadas por robots. Para nós ficarão os trabalhos que trazem ao de cima aquilo que nos distingue como seres humanos. Só nos cabe aceitar isso como algo inevitável e seguir em frente. Quem preferir amuar vai acabar por ficar de castigo.

Já todos ouvimos dizer que a escola mata a criatividade e que é necessário reformar o sistema de ensino. Está na altura de passar esta ideia do papel para a realidade antes que seja tarde demais para as próximas gerações.

Se não sabemos o que o futuro nos reserva, não devemos preparar-nos para algo certo, mas sim para aquilo que é incerto.

Para evitar futuros dramas humanos e preparar a sociedade portuguesa para o séc. XXI, é necessário educar para um mundo onde a mudança é a única constante. Será necessário reinventar-nos como pessoas de X em X tempo se queremos acompanhar um mundo em constante aceleração, nunca esquecendo que a automatização é apenas o início de uma revolução que ainda agora começou.

É verdade que a opção de substituir os humanos por robots é a que mais favorece o capitalismo, aquele bicho feio que faz os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, mas pensemos bem: se todos forem capazes de se adaptar a um mundo em mudança, não é mais provável a balança equilibrar? Não no sentido em que os ricos ficariam mais pobres, mas que os pobres o deixariam de ser. O capitalismo favorece o trabalho de forma inteligente e adaptiva. Se todos nós estivermos prontos a aceitar a mudança e trabalhar de acordo com esta, a automação dos postos de trabalho é positiva para a sociedade. Negar o futuro pode parecer a melhor opção, mas isso só traz benefícios a curto-prazo. No longo-prazo perdemos todos.

Para que estas mudanças sociais possam ocorrer da forma mais tranquila e justa possível, será necessário que ocorra uma conversa entre todos os elementos envolvidos, desde o Estado às famílias, no sentido de encontrar um equilibrio. Esse equilibrio permitiría aqueles com mais dificuldades em se adaptar à mudança a encontrar um papel produtivo na sociedade.

No Portuguese left behind.

Se suspeitam que estão em risco de serem substituidos por um robot, vão a https://willrobotstakemyjob.com/. Basta pesquisarem o vosso emprego (em inglês) e será vos dado uma probabilidade.

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Pedro Andrade

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23 • Professional Optimist • Global Citizen • Tackling the safety issue in Micro Mobility @ Hunter (hunterboards.com)

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