Retrato,

Por alguém.


Não bastava apenas ter uma caneca, tinha que haver uma garrafa de café cheia sobre a mesa onde ficava a sua antiga máquina de escrever, agora substituída por um computador desses que se encontra em qualquer loja no centro da cidade, e até mesmo em bairros menos populares. Mesmo com essas novas mudanças, o hábito de usar sua mente para pescar ideias e encaixar palavras para tornar o texto mais atraente e bonito não lhe escapou como aquela moça o tinha feito.

Entre dias de luto, aqueles que passaram não há muito tempo, e que o deixavam lastimavelmente estrapilhado sobre seu sofá de cores amareladas sobrepondo ao marrom de uma estampa com flores e galhos misturados em uma sala, onde sua única companhia era o silêncio dos outros moveis e o ruído do seu respirar e transpirar, estes acompanhados de uma poeira já velha conhecida de seus pulmões desgastados pelos cigarros fumados por outros e que se encontravam no centro dentro de um cinzeiro com um cheiro leve soltando-se, não dos cigarros, pois estavam desgasto pelo forte aroma do incenso que prometera lhe trazer amor.

Voltando aos dias atuais.

Deixou de inalar a fumaça alheia, abandonou, parcialmente, o hábito de pescar ideais. Tornou-se daqueles que antes mesmo de chegar a um ambiente, aos poucos, se desprende de si a ponto de se tornar invisível.

Assente fácil, ou nem tanto.

Gosta de invernos, e de usar roupas que o aqueçam durante a estação. Não se importa se seus sapatos ficam cheios de lama, pois sabe que ao chegar em casa, poderá tirá-los e se aquecer envolto de um lençol na companhia de um bom livro. Diz que não faz parte da estatística dos que reclamam do verão, apesar de conhecer de perto o solo tão castigado.

Duas décadas; nada no bolso.

Acumula livros, pilhas de não lidos, mas não se importa de desapegá-los em troca de boas histórias.

Possui cachos que são tratados como um ser pensante. Seu sorriso revela uma covinha no lado esquerdo do rosto e faz os olhos brilharem. Não deixa de lado sua mania de contar os inúmeros sinais pelo corpo.

Vive do ócio e da calmaria, faz desafios mentais, frequenta o nada e acha um barato pensar que sua vida é como uma música das décadas de 70 e 80 do cenário nacional.

Inconstante. Avesso. Apenas.