Racismo e a cultura do “lacre”

O racismo no Brasil é algo estrutural e tem suas raízes no período colonial. Apesar de parecer óbvio boa parte da militância tem insistido em bater na tecla da individualidade quando se propõe a combater o racismo.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, lá em 1500, eles traziam com eles características sociais, que eram resquícios da Idade Medieval, dentre elas uma sociedade muito hierarquizada. O escravismo acaba entrando nessa lógica, que só veio sendo reforçada durante anos a fio. Qual é o papel do negro africano, trazido para terras tupiniquins? Fazer o trabalho braçal, de maneira forçada. Um trabalho marcado pela inferioridade, mesmo entre os brancos livres. O ideal de vida era viver como um nobre, nada de comerciante, nada de artesão, nada ligado a trabalho com o esforço do seu corpo. O ideal era ser um senhor de engenho, viver dos “rendimentos” que ele traria.

E assim passam os anos. E os sistemas. Se antes a vida era muito marcada pelo feudalismo, pelo mercantilismo, as relações de trabalho vão mudando. A nobreza passa a dar lugar a uma burguesia, mas ainda sim, trabalhos que não estejam ligados intimamente ao esforço físico. Assim como vivemos hoje: quem manda no Brasil é a galera que tem terras, é o agropecuário, é o sócio de uma empresa. Trabalhador braçal, o cara que faz o serviço pesado? Seu lugar é embaixo.

Como vivemos durante muitos anos sobre o escravismo, onde o negro, apesar de resistir e muito, ainda sim ocupava posições subalternas, hoje em dia pouca coisa mudou em relação a posição social. Os negros continuam ocupando serviços pouco cobiçados pela sociedade. E a luta para que isso mude vai muito além de bater na individualidade.

Se o padrão de beleza que a gente tem é branco, europeu, ainda hoje, isso se dá pela nossa formação econômica. Viver de “esculacho” com o cara que é racista pode contribuir pro ego, pra curtida na internet, mas pra estrutura formada desde o período colonial? Nadinha.

A luta não é nada individual, ela é coletiva, e principalmente, contra uma estrutura econômica montada para manter o negro (e a mulher também) numa posição submissa. Para que existam pessoas muito ricas são necessárias algumas coisas: que existam pessoas pobres para trabalharem pra uma minoria rica, que exista propaganda que faça você acreditar que é trabalhando que se alcança o status do rico (quando não é necessariamente verdade), e que exista um máquina poderosa, chamada Estado, que mantenha uma estrutura que marginaliza esses “peões” num jogo gigante.

A luta então deve ser contra esses mecanismos. Contra quem faz que eles existam. Contra eles e só eles. Atacar o trabalhador que é racista e machista (não falo de figurões políticos, falo do trabalhador que acorda as 5 da manhã e pega transporte cheio e que ganha um salário mínimo) é pouco produtivo. É necessário atacar a estrutura que faz com que essa massa trabalhadora seja formada dessa maneira.

Bons exemplos de luta estrutural e não individual? Futebol e Samba. Dois espaços em que o negro lutou (e muito) para que fosse reconhecido como cidadão, num momento em que o racismo era ainda mais forte, e o fim da escravidão mais recente. Figuras como Mário Filho, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Cartola, Nelson Sargento, Delegado, Dona Neuma, Tia Surica, entre tantas outras, foram pessoas que lutaram por seus direitos, e que venceram. O nosso futebol é marcado pelo ícone negro, pela ginga que muitos tentam e poucos tem, porque não tem o sangue negro nas veias. O samba, marca do brasileiro. Marca do carioca. Um espetáculo a parte, com irreverência, deboche, sarcasmo e uma gigante veia crítica. Ambos os movimentos foram estruturais, não individualizados, foram coletivos. Times de operários, associações que juntavam os sambistas, as escolas de samba, os terreiros. Nada de “lacre”, mas muita luta. E amigos, só a luta muda a vida!