Minha primeira Meia Maratona.

Como foram os meus primeiros 21 km na Cidade Maravilhosa.

Sempre gostei de esportes, de todos os tipos de esporte, tanto para praticar ou assistir. Cresci nas escolinhas de natação, futebol, judô, vôlei, handball e apesar de praticar quase todas modalidades, nunca me destaquei como o melhor, com exceção da natação, esporte que consegui até ganhar algumas medalhas em campeonatos municipais e estaduais de MG.

A corrida surgiu na minha vida após um “acidente de percurso” em 2007, quando rompi o ligamento cruzado do joelho direito, jogando uma pelada. Foi um trauma; muita dor, cirurgia, fisioterapia, musculação e fortalecimento, até que depois de 6 meses de recuperação e fortalecimento, o médico liberou a prática da corrida.

No início, achei a corrida achei um pouco monótona e solitária pois sempre gostei de esportes coletivos, mas com o tempo comecei a gostar e colocar desafios como aumentar a distância e diminuir o tempo.

Apesar de gostar de correr, nunca consegui manter uma frequência, corria em média uma vez por semana e um dia do final de semana, até que no início de 2016 coloquei a meta de correr 10 km em 2016, e a partir março, o Rio de Janeiro me ofereceu um dos melhores (se não o melhor), local de treinamento, a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Na Lagoa comecei a treinar (quase) diariamente, com treinos matinais e percursos entre 5 e 7km, contemplando ora Corcovado, Dois Irmãos, Pedra da Gávea, ora Jardim Botânico, Floresta da Tijuca e Catacumba. Até que em abril, cheguei na meta de 10km. Fiquei contente com o resultado e vi que poderia chegar aos 12km e até mesmo aos 15km ainda em 2016, entretanto nunca imaginei “dobrar a meta” e chegar aos 21km.

Com os passar dos meses, continuei com o meu ritmo de treinamento e vi melhoras no meu pace e nas distâncias percorridas, até que em setembro fiquei sabendo da XX Meia Maratona que aconteceria 16 de outubro e por influencia de amigos e familiares comecei a pesquisar sobre o assunto. Abri o site de inscrição por diversas vezes e pensei, pensei, pensei, até que me inscrevi. Faltava agora pagar o boleto, então, pensei, pensei, pensei e paguei! Pronto, não tinha mais volta, de uma forma ou outra eu iria participar da XX Meia Maratona Internacional do Rio.

A primeira coisa que fiz depois de pagar o boleto de inscrição foi ligar para meu antigo personal, que me incentivou bastante e me enviou uma sequência de treinamentos que eu tinha que seguir. Como faltava apenas um mês para a corrida, o plano era basicamente correr 12km, 14km, 16km e 18km a cada final de semana e treinos de 8km e 10km no meio da semana.

Well done, 18 km no sábado de manhã, com sol das 10am na cabeça, depois de algumas cervejas na sexta-feira à noite, faltando uma semana para a corrida e mantendo o pace dos treinos de 10/12 e 16km, pensei: estou pronto! Mal sabia o que viria pela frente…

Na semana da Meia, apenas dois treinos, um de 10km na terça-feira e um de 5km pra “soltar” e estar descansado para o domingo. Na véspera da prova, recomendações diziam para comer massa e carboidratos e nada de bebida alcoólica sexta e nem pensar no sábado, pequeno sacrifício, mas sabia que valeria a pena.

Chega o dia da prova; Praia de São Conrado, 7:00 horas da manhã do primeiro domingo do horário de verão, até então com um clima ameno e fresco. Havia um misto de tensão e felicidade no ar, todas aquelas pessoas empolgadas e ao mesmo tempo caladas, voltadas para si, aquecendo, preparando, se hidratando, rezando. Eu só queria que a prova começasse logo, queria encarar logo a íngreme subida da Avenida Niemeyer, passar rápido pela orla do Leblon, Ipanema e Copacabana, aproveitar a sombra do túnel de acesso à enseada de Botafogo, chegar no aterro do Flamengo e pá, completar a minha primeira meia maratona. Doce ilusão!

Na largada aquela euforia, um mar de gente gritando, fazendo sinal para as câmeras e correndo na mesma direção. Logo nos primeiros quilômetros na Avenida Niemeyer vi pessoas paradas, andando. Minha vontade de terminar a prova era tanta que não vi subida, não reparei no Vidigal e muito menos no Sheraton, mas apesar de tudo, a estratégia traçada de não me afobar no início e seguir a prova no meu ritmo estava sendo seguida.

Passando pelo Leblon e Ipanema, continuei focado e sem prestar muita atenção na praia ou acontecimentos externos, única coisa que chamou atenção foram as pessoas que estavam acompanhando a prova, batendo palma e incentivando os participantes.

No trecho da praia de Copacabana, continuei sem prestar muita atenção nos acontecimentos externos, estava com pensamento apenas em terminar a prova pois nesta altura, aos 10km de percurso e quase uma hora de prova o sol já estava a pino e o calor castigando os corredores. Segui também a recomendação de me hidratar em todos os postos, aproveitando também para dar aquela refrescada.

Quando chegamos no túnel de acesso à Botafogo foi um sentimento de alivio para todos pois teríamos sombra e uma sensação “refrescante”, mesmo que momentânea e por apenas alguns metros.

No km 14, um sentimento misto de “falta pouco” e “ainda faltam 7km”. O calor continuava insuportável e começou um trecho onde o Aterro do Flamengo parecia interminável. Sabe aquele trecho onde você passa a 80km/h de carro e ás vezes freia para tirar uma foto do Pão de Açúcar? Quando você está correndo não é nada disso, do Botafogo ao Monumento dos Pracinhas a impressão é que você correu do Leme ao Pontal (e voltou).

Uma das recomendações que todos passam, é de não testar nada novo na prova, seja tênis, vestuário, acessórios, alimentação e até mesmo bebidas e complementos. Acho que esta foi uma das únicas recomendações que não consegui seguir pois tomei tudo que tinha nos postos, água de coco, isotônico, gel de carboidrato, felizmente não tive nenhum problema, pelo contrário, acho que ajudou na hidratação e deu um ânimo a mais.

No km 16 no aterro do Flamengo, você consegue ver a linha de chegada do outro lado, o que para alguns é um incentivo, porém para outros é algo que desanima pois você consegue ver as outras pessoas chegando. Neste trecho também há um grande número de pessoas assistindo, batendo palma, incentivando e apoiando, o que é muito bacana e dá uma energia a mais. Para mim, depois do km 16 foi quando começou a parte mais difícil da prova onde o psicológico mais pesa, é um momento onde os corredores começam a andar, outros desistem e também onde há um dos principais fatores pesando contra, o calor.

Do km 16 ao final da corrida tive a impressão que colocaram fogo na minha meia, meus pés começaram a queimar de uma forma absurda, algo que não senti em nenhum treinamento. Me abstive de pensar e/ou lembrar que tinha pés, pensava na festa da chegada, no chope pós prova, no mergulho no mar, na foto do Instagram, em tudo, exceto no incêndio que começava no asfalto e chegava nas canelas.

As poses sorridentes que fazia para os fotógrafos nos dez primeiros quilômetros viraram caretas desesperadas, os murmúrios de dor antes raros viraram frequentes, calafrios eram recorrentes, a música que antes incentivava agora já atrapalhava e os aplausos e gritos do público externo já não estimulavam quanto antes, era uma competição cabeça versus físico.

Cruzando a linha de chegada não sabia se estava feliz ou prestes a desmaiar, então veio na minha cabeça a cena clássica das Olimpíadas de 1984, com a maratonista Gabriela Andersen que cruza a linha de chegada se arrastando. Segui a recomendação de não parar e continuar andando por alguns minutos e vi ao lado esquerdo um posto de atendimento médico. Com os pés ainda em chamas, não pensei duas vezes, entrei no posto e pedi para auferirem minha pressão (não sabia se estava muito alta ou muito baixa), felizmente estava tudo certo, fiquei deitado com compressões de gelo pelo corpo por alguns minutos enquanto me recuperava e logo já estava bem, pronto pra mais 21 (metros).

Depois de alguns minutos de descanso e já com a medalha no peito só tinha uma certeza; apesar de todo o sofrimento, valeu demais a experiência e vou correr outra(s) meia maratona(s)!

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