Que Lixo é esse?

Os desafios, os avanços e os porquês da importância de pensar o lixo a partir de dois campus da Universidade Federal do Goiás

Ilustração de Pawel Kuczynski

Era novo o prédio do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Universidade Federal do Goiás em meados de 2007. Mas, no corredor do primeiro piso havia uma parede molhada, com aspecto de mofo. A causa estava numa tubulação estragada pela reação de resíduos químicos indevidamente descartados nas pias.Não havia coleta desse conteúdo, tampouco se pensava sobre o que fazer com ele, até aquele ano.

Adelair dos Santos, professora do IPTSP, notou o descaso e juntou-se a um cordão humano em torno de um problema que ninguém sabia como solucionar. Entre alguns docentes e servidores à guiza do professor Eraldo Henrique de Carvalho, da Escola de Engenharia Civil e Ambiental, surgiu uma saga. Questionaram a Vigilância Sanitária, o Conselho Regional de Química e a Companhia de Urbanização de Goiânia, a Comurg. De comum a resposta surpreendente: os órgãos não sabiam o que fazer com o lixo químico.

Era necessário o descarte desses resíduos em incineradoras. A mais próxima ficava em Belo Horizonte, o que tornava muito caro uma eventual parceria. Eis que surge naquele ano, em Senador Canedo, a Incinera Tratamento de Resíduos Ltda, cobrando, naquele ano, R$1.900,00 por quilo de incineração.

Negócio fechado.

O grupo envolvido na causa se transformou na Comissão de Resíduos Integrados da UFG, vinculada à Pró-reitoria de Administração e Finanças e responsável por todas as conquistas na área do descarte dos resíduos da Universidade.

Ao longo dos 10 anos, a comissão preparou planos de gerenciamento de resíduos, planos de reciclagem e instalou abrigos para resíduos químicos e resíduos infectantes. A professora Adelair conta que o orçamento para o gerenciamento de resíduos não é pomposo, e que, portanto, ainda há muito o que desenvolver. No ano de 2015, foram gastos R$ 10,384,874,72 só com limpeza e conservação da UFG — abarcando todos os campus.

Os dois campus da UFG em Goiânia carecem de gestões diferentes para os resíduos. Há abrigos para o resíduo infectante, comum, reciclável e químico no IPTSP e nas Faculdades de Odontologia e Farmácia. A faculdade de Veterinária comporta uma incineradora de pequeno porte. O Hospital das Clínicas, vinculado à UFG, conta com seu próprio abrigo para resíduos.

Volume

São descartados entre 2,500 e 3 mil toneladas de resíduos químicos a cada três meses do campus Colemar Natal e Silva, no Setor Universitário. No Campus Samambaia, são em média 10 a 12 toneladas de resíduos químicos enviados para incineração por semestre.

Quanto ao resíduo infectante, que é o lixo hospitalar, são coletados 250 kg por semana no campus Colemar, quatro vezes a mais que o recolhido do campus samambaia: em torno de 50 kg semanais. Também semanalmente é recolhido em média 500 kg de resíduo comum nas faculdades de Farmácia, Odontologia e no IPTSP.

O Restaurante Universitário do campus Samambaia produziu 2.410 kg de lixo comum no mês de abril deste ano. Também neste mês foram 200 kg de Plástico mole; 46 kg de Plástico duro; 179 kg papelão e 250 kg de lixo orgânico diariamente de segunda a sexta-feira.

Praticamente não há sobra de alimentos, o resto é descartado cotidianamente como lixo orgânico, afirma a administração do Real Food, empresa que fornece a alimentação. Não há dados referentes aos resíduos do RU do campus Colemar.

Os primatas

No Campus Samambaia, a presença dos macacos-pregos exige cautela na administração desse lixo. Os silvestres já se acostumaram com a presença humana e não raro eles são vistos roubando comidas dos distraídos. Não há, por isso, lixeiras ao céu livre no campus. Projetos já foram discutidos porém abortados por causa dos custos não saborosos, afirma Everton Silveira, da Pró-Reitoria de Recursos Humanos.

Um deles foi sugerido pela Faculdade de Arquitetura. A ideia consistia em implantar contêineres cavados com a tampa rente ao chão. Para tanto, seria necessário a adaptação dos caminhões de busca. Já o uso de contêineres tradicionais exigiria que os cadeados se mantivessem sempre fechados, o que não é garantia com uma fiscalização frouxa.

Ainda é defeituosa a coleta seletiva nos campus. Não há reservatórios para os recicláveis no campus samambaia. Projeta-se, mas ainda sem perspectivas, a construção de uma área telhada sem acesso aos macacos para onde se destinaria todo o material a ser recolhido pelas cooperativas. Até há pouco tempo, a cooperativa beija-flor fazia essa ronda no campus em caça dos recicláveis.

Quem coleta

Em junho do ano passado a Prefeitura anunciou que deixaria de coletar lixo de grandes empreendimentos a partir desse ano, UFG incluída. Segundo Everton Silveira, deverá ser contratada uma empresa para dar continuidade a coleta. No entanto, até a última semana foi a Comurg que recolheu os resíduos comuns.

Em fevereiro de 2016 a Comurg deixou de coletar os resíduos infectantes. Desde então, a usina Incinera foi a responsável até fevereiro deste ano, quando a empresa Gestão Ambiental venceu o novo contrato licitatório que vigorará até fevereiro de 2018.

Também vale por um ano os contratos firmados entre a Real Food e empresas terceirizadas para recolhimento de lixo dos restaurantes universitários. Atualmente a Ecosense é a contratada. O destino do lixo comum é o aterro sanitário de Goiânia.

Por meio de nota, a Comurg afirmou que, considerando toda a cidade, “a coleta orgânica recolhe mensalmente cerca de 35 mil toneladas de lixo. Já a coleta seletiva recolhe uma média de 3 mil toneladas/mês e possui um total de 14 caminhões realizando o serviço de coleta. Foram feitas cerca de 1936 viagens sendo recolhidas uma média de 168 toneladas mensais que são distribuídas em 15 cooperativas.”

A comurg conta ainda com o serviço Catatreco, que atende solicitações de recolhimento de móveis e eletrodomésticos velhos. Também por nota, a Comurg afirmou que “são atendidas cerca de 60 ordens de serviço por dia, englobando os horários diurno e noturno. Neste mês de março foram recolhidos cerca de 2062 itens entre os quais se destacam: colchões, sofás, eletrodomésticos e eletrônicos antigos.”

A companhia não coleta o lixo hospitalar que não seja das unidades de saúde municipais. É recolhido em média 20 toneladas desse tipo residual por mês.

Plano de Gestão de Logística Sustentável

O plano de Gestão de Logística Sustentável foi decretado em 2012 pela União e estabelece regras para criação de um plano de racionalização de gastos e sustentabilidade. O decreto abrange empresas estatais e órgãos vinculados à Administração Federal. A UFG elaborou um PLS para o biênio 2014/2015.

No relatório do PLS de 2014 é possível notar alguns avanços, apesar de inerte alguns pontos planejados. Adelair, que esteve na comissão do Plano, aponta que houve algumas melhorias na gestão dos resíduos e entulhos da construção civil, além da limpeza da Escola de Engenharia Civil.

O relatório de 2015 ainda está sendo montado. Por motivos orçamentários, não há, pelo menos por ora, perspectivas para novos PLS’s.

Má educação brasileira

No Brasil, falar de lixo não é papo que rende numa roda de amigos, mas deveria. Em 2016, 3.334 cidades do país enviaram seus resíduos para locais inadequados. A capital do país, Brasília, abriga o Lixão Estrutural, o maior lixão a céu aberto do país e o segundo maior do mundo. Embora a lei havia determinado seu fechamento em 2014, a celeuma só deve começar a rarear neste ano, com o funcionamento do Aterro Sanitário de Samambaia.

Para Angelita Lima, diretora da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, pensar no lixo é uma questão profundamente humana. Sua relação lógica com os resíduos é cotidiana. Ela conta que é recorrente o hábito de recolher lixo jogado sob o chão após a realização de eventos que organiza na UFG.

A consciência ambiental de Angelita se desenvolveu com a experiência que teve com pessoas de Porto Alegre — cidade que desde a década de 90 já havia a coleta seletiva — e após assistir o documentário Ilha das Flores(1989), de Jorge Furtado. Mesmo antes da aplicação da Lei de Resíduos, em 2010, ela se antecipou e estruturou um modo de separar o lixo, ainda que não houvesse uma destinação correta.

“Uma vez que você entra em contato com essa temática você não tem mais paz. Porque você passa a pensar no modo como contamina o lixo e no modo como as pessoas vão para os lixões para sobreviver do lixo”, reflete Angelita.

O mal-hábito de jogar lixo no chão beira ao irracional quando se é argumentado que, se não houver lixo, os garis não tem emprego, aponta Adelair. Dado o fator cultural, para ela somente uma geração futura irá desenvolver uma consciência responsável sobre o tratamento dos resíduos.

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