AMAR EM TEMPOS SECOS

O relógio da Praça Charles Miller marcava mais de 30 graus em pleno inverno. Na Rádio a repórter falava do tempo seco e da falta de chuva na capital. A região tinha acabado de bater o recorde de estiagem e a previsão para a próxima chuva era de um ano.

Michel, um ex-jornalista que passava pela praça dirigindo seu uber, sentia calor mesmo no ar-condicionado. Pela janela do carro observava o sol refletindo no asfalto quente e só pensava em uma única coisa: o fracasso do primeiro, e único, encontro com Mariana.

Ela, com quem ficou semanas conversando pela internet, não quis dizer o verdadeiro motivo porque, no primeiro encontro, foi embora no meio da noite e nunca mais deu notícias. Eles não chegaram nem a ir para a cama. Ela topou ir até o apartamento mas não quis prolongar a estadia depois que entrou em seu pequeno quarto. Ela entrou no cômodo, pensou um pouco e rapidamente foi até banheiro. Ficou lá por alguns minutos e depois saiu dizendo que uma amiga estava com problemas e foi embora. Ela nunca disse a verdade. Michel desconfiou por um tempo se foi a caneca suja que estava no criado mudo que deu um ar de sujeira. Ou o livro do Augusto Cury, presente de uma tia no natal que tinha esquecido de devolver, que estava na prateleira que espantou.

Nesse calor você prefere água ou Augusto Cury?

Mas a resposta definitiva veio depois que Mariana não parava de postar fotos agarrada ao seu novo ar-condicionado e de se gabar a cada tweet da piscina no condomínio da melhor amiga. Aconteceu com Michel o que ele temia: a alta temperatura de seu apartamento e a falta de um umidificador de ar descente foram decisivos para a recusa da garota em ficar mais um pouco e quem sabe, um dia mais pra frente, engatar em um relacionamento.

Ele já tinha lido em uma matéria em um site escrito por ex-jovens publicitários de como jovens pós-millennials teriam suas vidas afetadas pela falta de água e pelo tempo seco. E ele imaginava que a falta de algumas frutas que ele gostava no supermercado e o racionamento de água já eram o sinal disso. Mas seu faro de ex-jornalista passou a falar mais alto e Michel começou a perceber que alguns casais de amigos estavam se separando no período de estiagem, e que os solteiros continuam mais solteiros do que nunca. Foi aí que Michel chegou a seguinte constatação: o amor não supera o tempo seco.

Sem filtro e com poluição

Michel foi a campo e listou alguns dos motivos para a falta de amor no período sem chuva: Insônia por muito calor gerando stress, ansiedade e mal-humor exagerados. Falta de cerveja nos bares da cidade por conta da falta de água. Ou naqueles que ainda tem cerveja artesanal, o Chopp era servido em copos de plástico pra não gastar água o que quebra qualquer encanto em qualquer encontro. Famílias se mudando para regiões com mais nascentes e mudanças podem ser boas ou ruins para casamentos. Piscinas super lotadas causando muito desgaste, não apenas na relações amorosas, como também nas relações de amizade, já que o filho de alguém sempre faz xixi na água o que faz gastar mais água ainda e acabava gerando grandes conflitos sobre o tema do desperdício. A falta de banho. O aumento no preço das contas. A falta de água pra fazer gelo pra caipirinha. Os motivos eram muitos e a conclusão uma só: Era pouco amor para pouca água.

Mas Michel não queria passar essa experiência em branco. Então, depois de sua pesquisa e de passar noites vendo inúmeras fotos de Mariana no instagram, que passou a morar em Campos de Jordão ( terra de várias nascentes como da Minalba) Michel resolveu escrever um livro que só saiu em seu blog pessoal, já que a editora que ele queria trabalhar faliu porque não tinha mais água nos bebedouros.

O livro intitulado “Amar em Tempos Secos”, foi um sucesso de clicks e ainda gerou uma pequena grana, já que Michel vendeu o espaço de publicidade em seu site para uma empresa de refrigerantes que descobriu como fazer coca-cola sem usar água.

Michel virou um jornalista publicado e finalmente comprou um umidificador descente.

Mas ainda continua solteiro, já que muita gente acha bobo ele escrever sobre relacionamentos em pela crise hídrica. Ele passa as tardes em seu pequeno apartamento tomando refrigerante feio sem água ( ganhou muitas latas e não sabe o que fazer com elas). Mas tem medo de morrer de sede, literalmente.