COMO EU NÃO PRESTEI ATENÇÃO NO GRANDE LANCE DE 2005 ( E COMO EU CONTINUO NÃO PRESTANDO ATENÇÃO EM QUASE NADA).

Em 2005 completei 14 anos. E o que mais esperava dos meus 14 anos não era a possibilidade de começar a ser convidado para as primeiras festas de 15 anos (isso também é claro), mas era que com 14 anos eu podia começar a viajar sozinho de ônibus. E foi o que eu fiz quando meu pai me ligou dizendo que tinha comprado os ingressos pra gente ver Corinthians e Internacional no Pacaembu, o grande jogo daquele ano. Matei aula na sexta-feira, peguei o ônibus em Itajubá, e estava pronto para encarar as quatro horas de estrada sozinho no famoso ônibus da Pássaro Marrom. Na parada em São José dos Campos encarei o medo de ficar pra trás e fui correndo comprar um salgado. E deu tudo certo, cheguei na Rodoviária do Tietê naquela sexta-feira a noite vivo, feliz e pronto para encarar o Inter de Porto Alegre no domingo.

antes eu gostava de viajar de ônibus — agora admito que não muito.

Em 2005, o Corinthians tinha recebido uma bolada do MSI ( um fundo de investimento internacional, para não falar lavagem de dinheiro, que coloca qualquer esqueminho de caixa 2 brasileiro no chinelo) e montou um timaço. Disputou a ponta do brasileiro com o Internacional durante muitas rodadas, e depois do escândalo envolvendo o juiz Edílson Pereira de Carvalho, alguns jogos voltaram, e o Corinthians acabou passando os gaúchos na tabela.

Portanto, aquele jogo no domingo dia 20 de Novembro de 2005, era o jogo que todo Corinthiano queria estar. E eu, que tinha pegado o ônibus sozinho pela primeira vez para estar naquele jogo, era com certeza um dos garotos itajubenses mais felizes naquele dia.

O jogo foi no Pacaembu, estádio que já tinha ido com meu pai algumas vezes e que guardo grande carinho. O dia tava quente. A gente chegou cedo e sentou em um lugar na arquibancada laranja bem no meio do campo.

DORIA NAO PRIVATIZA O PACAEMBU!

Dava pra ver os dois tempos do jogo sem perder nenhum lance. Era como uma grande tela bem na nossa frente. Cenário perfeito pra gente acompanhar cada detalhe do grande jogo. Porém, e sempre existe um “porém” quando você é adolescente, algo aconteceu que eu perdi o lance capital do jogo que estava empatado em 1x1 até a metade do segundo tempo.

Ainda no intervalo pedi um picolé de abacaxi. Estava quente. Tomei quase tudo rapidamente, mas deixei um pedaço cair nas costas do homem que estava na nossa frente. Eu adoro sorvete e odiei desperdiçar o último pedaço. Mas eu odeio também incomodar os outros ( talvez algo que eu precise melhorar, afinal, incomodar faz parte). E fiquei, desse lance pra frente, apenas preocupado se o homem ia perceber o sorvete manchando a sua camiseta preta do Corinthians. Sim, parece loucura, eu até acompanhei alguns lances, mas a preocupação dele reparar era maior. E a irritação por ter deixado comida cair também era grande. E quando uma pensamento vem vishhhh ele leva para outro e CATAPLOFT! Já era. Toda atenção já foi para o buraco infinito das outras ideias que não tem nada a ver com aquilo.

Não vi o gol de empate do Inter. E mais tarde, quando o Fábio Costa, goleiro do Corinthians, deu uma voadora no Tinga do Inter dentro da área e o juiz não marcou pênalti, o lance mais comentado dos últimos 12 anos do futebol, algo que será lembrado pra sempre na história do esporte! Eu estava pensando no pedaço de sorvete que deixei cair…

OLHA ESSA VOADORA!

Não vi voadora, não vi Tinga voando, não vi nada. Fiquei arrependido, tinha viajado sozinho só para aquilo, e não prestei atenção no grande erro de arbitragem da década. Algo que, para uma pessoa que gosta de futebol, é imperdoável.

Mas desde que essa história do sorvete aconteceu, resolvi aprender com ela e venho adotando essa tática de estar em um lugar, mas estar pesando em outra coisa, a meu favor. Afinal, toda essa tragédia tinha que servir para alguma coisa e venho aproveitando esse dom tanto em reuniões de trabalho como no natal da minha família. Algo sempre prende a minha atenção, como o sorvete que caiu na camiseta do homem, e meu cérebro cria duas camadas, duas interfaces que trabalham simultaneamente. Chega a ser bonito.

Eu sempre fico imaginando se as pessoas ao meu lado percebem que estou pensando no que vou comer no final do dia, ao invés de prestar atenção no que elas estão falando.

Fico imaginando se ao lerem isso elas vão de parar de prestar atenção quando eu falo. Mas no fundo, eu fico pensando se todo mundo não faz isso o tempo todo na vida. E que na verdade essa história de atenção total e absoluta é complicada. E que a vida não passa de uma grande falta de atenção descontrolada com momentos de alegria que acontecem também sem a devida atenção.

E quando a pessoa diz: “Ei! Presta atenção em mim!!!!”. Ela no fundo não está querendo dizer: “Ei! Eu também te entendo. Eu mesmo não estou prestando atenção nem no que eu estou falando”.

Eu sei que nada disso faz sentido.

Mas você prestou atenção aqui.

Ou não?

Brincadeira.

PS: Falando da ideia desse texto para outros percebi que de certa forma falei um pouco sobre TDHA ( Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), mesmo não sabendo se tenho ou não. Não sou especialista e li pouco sobre o assunto. Mas acredito que a falta de atenção e a hiperatividade é um lance muito sério e está totalmente ligado com o mundo que vivemos hoje. Um mundo que te obriga a estar com um olho no peixe, outro no celular,outro nas séries, outro no jornal, outro nas pressões do mundo, outro nas suas vontades, enfim, exige bastante.