O Barco e o Cais.

Sentia a brisa fria e deslizava nas ondas, nunca tive um destino certo. Mas vivi momentos intensos, alguns dias de sol, outros nublados com as luzes filtradas pelas nuvens, meus dias eram assim. Dias com céu azul e outros dias na cor cinza chumbo, mas luz o importante é que a luz era sempre difusa e no final da tarde era dourada.

Dependia das minhas velas e do vento. Sempre fui um barco zen rumo, durante toda a minha vida, guardei histórias do mar, da terra e do céu. Numa certa noite, fazia frio. Estava sozinho e resolvi olhar para as estrelas. Talvez você não saiba, mas barcos não costumam dormir. Tem a vantagem do tempo e como barcos não dormem, barcos também não sonham…Então nesse noite, resolvi contar as estrelas. As velas foram recolhidas e podia balançar ao sabor das ondas. Estava numa Marina, existiam muitos barcos, mas como estava em viagem, tentei me comunicar, mas os outros barcos não falavam português. Mas existia um, que havia no seu casco a inscrição com letras azuis e contornos prateados. “Ode Marítima”. Cumprimentei com um Boa noite Ode Marítima, mas ele não respondeu…Não importa…

Me lembrei imediatamente que houve um sarau na cidade do Porto em Portugal e pude ouvir a poesia de Fernando Pessoa.

Minha memória nunca foi muito boa. Mas me lembro apenas desse trecho.

“Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! E quando o navio larga do cais. E se repara de repente que se abriu um espaço. Entre o cais e o navio.”

Como pode, um homem que nunca foi barco, escrever algo de tamanha profundidade.

Talvez pessoa fosse um barco que diferente de mim, sabia escrever poesias.

Mas esse espaço entre o cais e o navio é tão importante para os homens. Vocês podem imaginar o que representa para um barco, que nunca ficou ancorado por muito tempo no mesmo cais.

A vida de um barco é feita dessas distâncias e desses espaços.

Muitos silêncios…

Agora, estou aqui nesse cais, não sou e nunca serei um navio. Sou um simples barco a vela, pequeno e frágil, as distâncias são pequeninos sonhos meus, sim dependo do vento para ir para longas distâncias.

É verdade, nunca saberei a quantidade exata de estrelas, porque algumas das minhas noites são sempre vazias, uns dias nublados…assim, dia após dia, noite após noite. Minha vida é viver em todos os portos. Enquanto não estou num cais, viajo para esquecer, na minha vida de barco não há espaço para monotonia, nos intervalos, quando a noite está fria, eu conto as estrelas.

Para alguns homens o barco é apenas um elemento inútil da paisagem. Afinal quem se importa com o vento ? Com As mudanças da marés! Se a lua está cheia ou minguante?

Estou farto de navegadores.

Eu só sei que enquanto você está lendo, eu posso encalhar num banco de areia. Posso afundar e ninguém sentirá a minha falta.

É tarde, agora preciso partir, mas um pouco de ti certamente vou levar, quem sabe um gosto da areia, um pouco do sal do mar ou lembranças desse grande cais, para onde irei!

Não sei. Talvez vá para um outro Porto. Outras águas. Na verdade, são pensamentos meus, não deveria estar compartilhando com você.

Nessa manhã, preciso muito mais dos meus silêncios, não aguento mais ouvir o ruído dos guindastes, o burburinho dessa gente e dessa circulação das mercadorias, especiarias, vinhos e tecidos turcos.

Se pudesse, partiria agora, bem antes de acabar essa história, tenho medo, uma nuvem negra se aproxima. Me sinto tão inseguro, frágil diante das minhas limitações de barco. Se pudesse teria nascido diferente. Mas como um velho barco que vai, mas sem saber se volta.

Se pudesse teria nascido como um poema de pessoa.

Like what you read? Give Pedro Teixeira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.