Filho da Guerra

João Carlos Pinto se ofereceu a entrar no batalhão de voluntários da pátria, no ímpeto de acompanhar o imperador e notoriedade, ter reconhecimento, achou que numa guerra a carreira militar ascenderia como um pássaro e que a chance de ter contato com alguns heróis brasileiros como o Conde de Caxias era real, esse desejo de crescer socialmente e financeiramente vinha sendo o sonho dele e de seu amigo Pedro Paulo Albuquerque, os dois se esforçaram ao máximo nos meses de treinamento, e João tentava se concentrar para a chegada no Rio Paraná, apesar de Pedro Paulo dizer sempre que não era necessário já que a guerra terminaria antes da chegada deles ao fronte, João ansiava o embate e a glória que viriam desta guerra.
Ao chegar nas campanas a austeridade e tensão pairavam no lugar, todas as pequenas amenidades que era costumeiro para um militar se perderam, algo que nem João nem Pedro entendiam os motivos, talvez por nunca estarem no fronte ou talvez fossem as ”notícias de guerra” que como ondas numa praia, vinham grupos de feridos chegando ao acampamento causada pelo avanço Paraguaio na região, era uma quantidade exorbitante sem contar os mortos que não podiam ser recuperados, João sentia-se inebriado de medo, ódio e angústia, a expectativa de fazer a diferença no campo de batalha era cada vez maior, apesar de achar que a guerra estava sendo perdida ao invés de vencida.
Um pouco antes da alvorada seu batalhão foi acordado para participar da invasão de Corrientes, os comandantes argentinos esbravejavam em espanhol e os soldados se entreolhavam com um semblante de dúvida, e avançaram até ouvirem os tiros que estouraram em seu flanco esquerdo, em segundos o seu melhor amigo estava caído ao seu lado e como um ato reflexo foi acudir seu amigo. Cheio de adrenalina e medo, mas pensando muito mais no amigo que em si mesmo caiu de joelhos onde seu amigo engasgando no próprio sangue, estava fatalmente ferido e moribundo, e sem notar as lagrimas jorrando dos seus olhos ele gritava por calma, que ele não sabia ao certo se eram gritos para o amigo ou a si mesmo.
Foi um outro soldado que o avisou que ele estava morto e que tinha que seguir em frente e quando finalmente João ergueu a cabeça viu a vila bem próxima, e começou a avançar na direção dela acompanhando seus compatriotas pois era o mais bravo a fazer, mas durante a corrida em meio aos tiros a certeza de que agora não havia mais volta, pela manhã ele estava cheio de sangue sujando seu uniforme, mas não era dele e sim dos companheiros caídos e inimigos que não recuaram.
O dia passou rápido pois a vitória foi arrematadora e apesar da alegria de toda a tropa João não compartilhava deste sentimento, pois o seu amigo de infância estava sendo enterrado numa cova comunal próximo ao acampamento e mesmo que houvesse comemorado não duraria muito, pois logo os Paraguaios tornaram a invadir a cidade e enquanto recuava várias baionetas se viraram contra ele e alguns tiros o atingiram e eles simplesmente desmaiou, sem noção do tempo que havia passado ou do que havia ocorrido entre seu desmaio e o momento em que acordou sentiu o gosto metálico na sua boca e sentiu seus músculos doerem por falta de movimento, a dor não era apenas nos músculos mas a lateral de sua barriga dava uma sensação ruim.
Foi o relato da enfermeira dizendo que ele não poderia fazer muitas coisas quiçá combater no momento em que ele acordou, perna direita completamente esfolada e possivelmente irá ser amputada se a infecção continuar, e foi retirado estilhaços do abdômen, pescoço e rosto, enquanto a enfermeira falava tudo que aconteceu com ele, João pensava em quão inútil tinha sido sua vida, em como um homem católico e relativamente culto que lera de vários outros que mudaram o mundo antes de chegar aos trinta anos, se julgando muito mais inteligente que o normal, notou que inteligência não era a solução para grandes feitos, ele amou, perdeu seu irmão de armas, tentou e não conquistou nada, agora se via com trinta anos e não havia feito nada. Pelo contrário, todas as suas tentativas se mostraram ser a escolha errada, agora se mostrava com uma vida medíocre sem dinheiro ou opção alguma, pior do que aos dezoito anos, muito pior, suas cicatrizes tanto na alma quanto no corpo eram irreparáveis e não davam futuro para um homem com tantos defeitos.
A dor de João foi sua companheira durante muito tempo, mas como uma amante apaixonada, sua intensidade foi perdendo a força, no entanto sempre presente o tornando um homem amargo por não ser o que almejava, o medo de ser inexpressivo e o stress de ser um fardo para quem não gostaria nem de manter mais relacionamento algum o fazia pensar em buscar novas saídas. O que fazer, como fugir da realidade e falhas de caráter que custaram o sucesso da sua vida? Ele tinha trinta anos e não possuía nada para dizer que tinha feito de especial para si mesmo ou quiçá para a humanidade, o desemprego, o medo, a dor o fizeram ser mais um número, mais um filho da guerra.

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