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Onde você estava quando rolou o golpe?

Guarde bem esse momento, você vai precisar dele nos próximos anos.


Todo mundo se lembra (ou acha que se lembra) dos mínimos detalhes de tudo que estava vivendo no momento em que aconteceu uma tragédia. A mais célebre, talvez, seja o infame 11 de setembro de 2001. Eu, criança, estava vendo a Globo, esperando começar Dragon Ball Z.

Quando liguei a TV a Torre 1 já estava em chamas, e as notícias desencontradas falavam em acidente. George W. Bush ainda não havia feito nenhum pronunciamento. Alguns canais começavam a falar em possível ataque terrorista. Eu tinha 14 anos. Fui na cozinha, fiz um misto quente, peguei uma caneca de leite com Toddy e me sentei, ainda me perguntando se iria passar ou não Dragon Ball.

Enquanto mordiscava meu café da manhã, eu vejo, completamente chocado, um avião preto indo com tudo na Torre 2. Foi uma das cenas mais chocantes que eu já vi na vida. Enquanto os apresentadores entravam em parafuso, eu tentava raciocinar, entendendo tudo que estava acontecendo.

Tinha gente naquele avião. Tinha gente no prédio. Essas pessoas todas morreram entre uma mordida e outra de um misto quente. Quando você presencia um momento chave da história do mundo sendo escrita diante de seus olhos, você se lembra dos detalhes.

Choque.

Foi o mesmo que eu senti vendo os deputados votando por Deus, pela família, pelo aniversário da filha e por tantos outros motivos chulos, pelo impeachment de Dilma Roussef. Assim como no 11 de setembro, eu temi pelo futuro e pelo tamanho do impacto que aquele acontecimento ia ter na minha vida.

Hoje, dia 29 de agosto de 2016, é a nossa invasão do Afeganistão. É o resultado do que aconteceu naquele dia marcante. Os EUA começaram sua “cruzada contra o terrorismo”, como disse o Bush. O Senado federal decidirá de hoje para manhã que a presidenta de fato será destituída do cargo.

Eu votei em Dilma. No segundo turno. E só porque a outra opção era o Aécio. Eu poderia me abster, votar em branco, etc. Mas o pavor de ver o país nas mãos de um homem que nós mineiros conhecemos muito bem, me fez votar para que ele perdesse. Torcendo para que Dilma conseguisse governar.

Não conseguiu. E quem realmente manda nas bandas de cá não aceitou o resultado.

Ouvi muita gente, que não queria se posicionar (convenhamos, uns covardes), dizendo que se houve crime ela devia ser condenada. É um pensamento lógico, justo e racional. Absolutamente tudo que a política nacional não é.

Eu, você e até quem acha que não se posiciona, a favor, contra… dos que acham que o PT queria implantar uma ditadura comunista até aqueles que QUEREM que o PT implante uma ditadura comunista, sabem que o impeachment não foi pelo tal crime que até hoje ninguém sabe se foi cometido e se seria o suficiente para tal julgamento.

O impeachment é só o nome protocolar para golpe.

Golpe. Pode se acostumar. Olhe as coisas ao seu redor, sua roupa, o que você comeu e o que fez hoje. Essas coisas vão acompanhar você para sempre e terá de lembrar delas todas as vezes em que, no futuro, te perguntarem onde você estava quando rolou O Golpe.

Como diria o genial Millôr, o Brasil tem um longo passado pela frente.

Ps.: Não insulte a minha inteligência e a sua dizendo que eu estou comparando o que acontece hoje com o 11 de setembro. Estou falando sobre o sentimento no dia em que a história está sendo escrita. E, acredite em mim, um dos capítulos mais importantes (pro bem ou pro mal) está sendo escrito hoje.