em defesa de Graça Infinita (ou razões para ler um livro difícil)
- Dimensões: um cruzamento entre lista telefônica e vade mecum. 1100 páginas, sendo 200 delas de notas (e sub-notas) de rodapé, além de gráficos, diagramas, tratados geométricos e fórmulas matemáticas
- Vocabulário: palavras inventadas, vocabulário técnico e científico
- Gênero: Ficção científica? Realismo mágico? Distopia futurista? Estudo de personalidade? Estudo psicológico?
- Tema: Vício? Esportes? Entretenimento? O declínio da civilização moderna? suicídio? relações familiares? depressão? tédio? cultua do consumo? cultura pop? geopolítica dos excluídos?
- História: não-linear, sem eixo central, final inconclusivo
- Personagens: literalmente centenas. divididos em dúzias de sub-grupos
- Nível de desafio: ____________
Graça Infinita completa 20 anos esse mês e continua tão polarizador quanto na sua época de lançamento. De um lado estão aqueles que denunciam o livro como um monumento pedante e auto-indulgente, uma obra inacessível e sem propósito de um autor deslumbrado pelo sua própria intelecto. Do outro estão os literatos e fãs que o consideram a maior novela do Século XXI, um trabalho seminal e incomparável da mente suprema de David Foster Wallace. Nenhum dos grupos está errado e é isso que torna esse livro fascinante.

Argumentando do primeiro ponto de vista: Graça Infinita é, de fato, supremamente pedante. É provavelmente a coisa mais pedante criada por um ser humano (infinitamente mais pedante do que aquele seu conhecido na universidade). É um livro que quer ser admirado e invejado, e não amado. É uma obra que irá lhe fazer se sentir supremamente burro e inferior. Não importa o quanto você se ache esperto, letrado ou um floquinho de neve especial: você gastará no mínimo 4 ou 5 meses da sua vida lendo-o e se frustrando com a quantidade de notas de rodapé, com o nível microscópico de detalhes e com a irrelevância de centenas de páginas que parecem estar ali apenas para impressionar o leitor. Não é à toa que existem enciclopédias, grupos de estudo e guias para ajudar a ler Graça Infinita: essa não é uma típica leitura de cabeceira. Lê-lo é o equivalente mental de correr uma maratona: é exaustivo, desgastante e drena suas forças. Depois de algumas horas de leitura, o seu cérebro implora por um pouco de Michel Teló ou Henrique e Juliano para regressar ao mundo real (e não estou sendo nem um pouco irônico).
“ I was two pages in and started to feel confused, zoned out, and lost.” — Review de Graça Infinita na amazon.com (avaliação: 1 estrela)
O próprio David, conforme visto em ensaios e entrevistas, disse não acreditar que uma grande obra literária deva ser acessível. Para ele, livros devem exigir esforço e dedicação do seu leitor. Isso já é motivo suficiente para odiar Graça Infinita. Muitos argumentam (com razão) que esse é um livro que as pessoas supostamente intelectualizadas usam para impressionar outras pessoas supostamente intelectualizadas.
Mas existe algo positivo em Graça Infinita ou ele é só um trofeu pessoal para aqueles que conseguiram lê-lo até o fim?
Sim, existe. Primeiro de tudo, fica claro que esse livro foi escrito por alguém supremamente inteligente. David Foster Wallace pode não ter adquirido o status de gênio que tradicionalmente atribuímos a um Aristóteles, a um da Vinci ou a um Mozart, mas não seria exagero colocar seu intelecto no mesmo patamar dessas figuras mais célebres. Seu conhecimento enciclopédico e a naturalidade com que ele insere elementos científicos (matemáticos, farmacológicos, ópticos, físicos, elétricos, entre tantos outros) no seu texto assustam qualquer leitor. Você fica convencido de que está lendo algo escrito por alguém com um intelecto superior à média e muito superior ao seu. Apesar dessa sensação ser alienante para muitos, também é bastante inspirador. É o tipo de sensação que temos quando ouvimos uma palestra de um grande professor (E Wallace foi professor de literatura)

Esse é um livro que desafia qualquer sinopse. Ao invés de um tema central, a história possui sub-núcleos que não necessariamente estão relacionados entre si. Existem, contudo, três grandes núcleos: o da família Incandenza/Academia de Tênis Enfield, o da Casa de Recuperação Ennet e o dos Assassinos em Cadeiras Rolantes (AFR — Les Assassins des Fauteuils Rollents). O primeiro fala sobre um família disfuncional que busca conviver com o afastamento dos seus membros depois do trágico suicídio do patriarca, o segundo núcleo foca no dia-a-dia e nas dificuldades dos internados de uma casa de recuperação para viciados e o terceiro é uma mistura de ficção científica, realismo mágico e distopia política/ecológica que caberia em um episódio de Black Mirror: no universo de Graça Infinita, terroristas separatistas de Québec insurgem-se contra a ONAN (Organização das Nações da América do Norte) por depositar uma enorme quantidade de lixo tóxico em seu estado e tornar a vida nele inviável.

Graça Infinita aborda uma infinidade de temas, muitos deles surreais. Um deles é a obsessão dos personagens com entretenimento, televisão e comerciais. A história se passa em um universo em que os anos são nomeados por empresas (exemplo: ano do Whopper) e onde existe um filme que entretém as pessoas de uma forma que faz com que elas nunca parem de assisti-lo.
É um livro estranho e imaginativo, mas também (e sobretudo) bastante humano. As idiossincrasias de Wallace, a sua batalha contra a depressão e o vício e o seu suicídio anos após a publicação de Graça Infinita contribuíram para o seu status de lenda. A forma com que ele escreve sobre dependência química e depressão é algo único na literatura. Ao invés de glamorizar drogas e doenças mentais, Wallace é didático e gráfico ao tratar do assunto. É um retrato horrpilante de perigos muito reais. É uma leitura para lhe deixar drenado e devastado. Muitos de seus personagens são zumbificados devido à falta de perspectivas na vida, aos seus vícios e às suas neuroses. É um livro surpreendentemente bem humorado, absurdista e surrealista, mas é também bastante sombrio.
Então sim, eu vim advogar em favor de Graça Infinita. Não é um livro particularmente conhecido no Brasil (afinal, demorou quase 20 anos para ser traduzido e lançado aqui), mas no estrangeiro ele é (aparentemente) fruto de calorosas discussões em círculos acadêmicos (pedantes). Quando algo é tão polarizador, ambos os lados costumam ter certo grau de razão e nesse caso não é diferente. É um livro frustrante (poderia ser centenas de páginas mais curto, o final/clímax é abrupto e inconclusivo) e pedante, mas também é uma obra de arte no sentido mais clássico da palavra. Ao criar algo tão singular, corajoso e grandioso, DFW cimentou o seu lugar no panteão de gênios. Outros argumentos em favor de Graça Infinita é que você vai se emocionar e se sentir inferiorizado ao mesmo tempo. É o livro perfeito para dar àquele colega que comenta que é especial demais para assistir filme de super-heroi* ou para ler Harry Potter quando criança.
Você vai se sentir humilde e desafiado e isso é bom. Há uma grande sensação edificante ao terminar um projeto que exija tanta dedicação. Como eu falei, ler Graça Infinita é o equivalente literário de terminar uma maratona: sua mente exausta é inundada por serotonina e pela percepção de estar participando de algo muito maior que você. É uma experiência realmente única.
Quem quiser eu empresto