músicas que fazem a terra girar * Episódio 4: Metronomy — Love’s Not An Obstacle
diferença entre o eixo de rotação e os pólos magnéticos? porra nenhuma, o que faz a terra girar é a música

Existem duas sensações que o Metronomy captura muito bem: a euforia de se preparar para uma festa em um sábado à noite e o júbilo de gostar de uma pessoa nova. A banda invoca esse estado de espírito adolescente de uma forma sempre sarcástica e nunca séria (afinal eles escreveram uma música sobre sentir inveja do cabelo alheio) então quando o grupo compõe algo levemente triste surge a dúvida: eles estão sendo irônicos ou não?
A ironia pode ser o combustível que move o motor do Metronomy, mas por trás desse maquinário distante pulsa um coração humano e até vulnerável. O amor que Joe Mount canta é infantil e pubescente, mas sua experiência concreta como um pai de 33 anos feliz e casado sugere que sua perspectiva sobre esse sentimento não é, afinal de contas, irônica. Entre os relacionamentos fáceis e efêmeros e os árduos e duradouros, ele parece se sentir mais confortável no segundo grupo.
Por isso, toda vez que o Metronomy aborda o assunto amor ele surge simultaneamente de forma zombeteira e honesta. Em Love’s Not an Obstacle, um dos pontos altos do seu álbum mais recente, Joe canta repetidamente I spent 14 weeks with 14 lovers (como algum hedonista desinteressado em compromisso) ao mesmo tempo em que declama thought you’d be the one to save me/love and understanding, baby (como alguém que esperou demais do outro e foi magoado)
Talvez analisar minuciosamente cada estrofe seja um erro, uma vez que o Metronomy é uma banda tão confortável com o deboche e pela ironia quanto os seus ouvintes pós-modernos (o próprio som eletrônico e agudo do grupo sugere ironia), mas não levá-los a sério seria um pecado. Love’s Not An Obstacle em particular não oferece um vencedor concreto para o embate amor fútil versus amor concreto e simplesmente sugere que você pode dormir com quem quiser se o amor não for um obstáculo, sem atestar se isso é certo ou errado. (literalmente: I spent 14 weeks with 14 lovers — yeah anything’s possible when love’s not an obstacle).
Essa é uma música singular na discografia da banda, mais próxima ao retrô lento do Love Letters do que da explosão de energia e criatividade do Nights Out e da ambição artística do The English Riviera e que no final pode ter uma interpretação mais complexa que seu autor pretendia. Parafraseando a própria música: everything’s so complicated — I don’t understand, translate it! Joe tem razão: O amor é intricado mesmo.