O Misterioso Dr. Pavão

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Devia ser 1993. Eu não tinha 18 e tava decidido a ser músico. Lembro de passar as férias de julho tocando violão, compondo e cantando com alguns amigos em Marudá, e de como aquilo foi mágico e determinante. Uma nova dimensão se abriu pra mim. Voltei pra Belém literalmente cagando pra faculdade. Só a música fazia sentido. Passava dias inteiros sentado no chão da sala, em frente ao nosso Gradiente 3x1, ouvindo e fazendo música. Lembro do trabalhão prazeroso de tirar aquelas harmonias lindas do Edu Lobo, por quem eu fui, sou e serei apaixonado. Só saía pra encontrar a galera, beber, bater papo e mostrar as canções que tinha composto e aprendido.

Num desses balões a gente descobriu um boteco perto de casa. Era na Pariquis quase esquina da Apinajés. Tinha um cara (acho que era o Lauro Cleber) fazendo aquela MPB de voz e violão, e lá pelas tantas, depois de muita pressão dos meus brothers, encarei a tal da canja. Nem sei mais o que toquei, mas uns figuras de outra mesa curtiram e me chamaram pra tomar umas com eles. Meus amigos foram embora, eu fiquei por lá. Descobri rapidola que todos os caras na mesa eram músicos, e também moravam ali pelo Jurunas. Foi um acontecimento. Quase amanhecemos o dia falando merda, rindo, tocando, cantando. Bons tempos em que eu ainda tinha fígado.

Naquela noite conheci Ziza Padilha, Pedrinho Calado, Marcos Campelo, Taca Nunes, Fernando Amorim, Darley Darlen e Adilson Natureza. Em pouco tempo o bar se tornou minha segunda casa. De quarta a sábado era sagrado. Eu batia ponto cedo e só ia embora quando fechava. Muitos músicos iam pra lá dar canja, mas os funcionários da casa valendo eram Kleber, Darley e Fernando. Como a gente nunca tinha muita grana pra cerveja, e geralmente apelava pro fiado, um dos garçons nos apelidou, carinhosamente, de pirentos. Mas não cabe nesse texto nem metade das causos dos golden years do Notívagos. Por isso vou contar uma presepada que, se eu não tivesse visto, não tinha quem me fizesse acreditar.


Não lembro mais quem era o músico que tava na função. Cheguei e sentei na mesa perto da entrada. Dei aquele quick scan na calçada pra ver se tinha alguém conhecido. Lá pelas mesas do meio reconheci um corôa de paletó e gravata. Ele pintava vez ou outra lá no bar, já vinha devidamente mamado, sempre acompanhado de um garotão bonito. Era discreto, bebia scotch, nunca puxava papo e dava boas gorjetas. Ninguém sabia o nome, quem era, ou o que fazia. Me disseram uma vez que era desembargador. Não duvido. Era um mistério. Naquela noite senti ele meio estranho. Gesticulava muito, falava alto, e o michê com ele parecia encabulado. Mas logo desencanei. Fiquei ali do lado mordiscando meu gelo e curtindo o som.

Lá pelas tantas da madruga, o violeiro recebeu o clássico bilhetinho com pedido, e não contou conversa: Pavão Misterioso. Foi cantar a primeira frase pro tiozinho engravatado explodir em aplausos. Daí em diante baixou o Ney Matogrosso no cabôco e ele não sentou mais. Dançou, se esgoelou, e, não se dando por satisfeito, começou a fazer um strip. Sim, um striptease. Tirou o paletó, tirou a camisa, tirou o sapato, tirou a calça, até exibir o corpitcho de halterocopista, só com uma sunguinha verde, asa delta. E quando o show parecia ter acabado, ele subiu no palco com um bolinho de notas na mão, e começou a jogar dinheiro pro público. O povo das mesas, que não era besta nem nada, cuidou de meter corda e embolsar a grana. Até eu agarrei uma de vinte, que passou voando perto da minha orelha, e foi imediatamente convertida em birita.

Foi só terminar a música pro Dr. Pavão desencorporar. Olhei pra mesa e o boy dele tinha aproveitado a cagada e caído fora. Voltou catando as peças de roupa do chão, se vestiu cunscaralhos, pagou a conta e vazou. A gente ainda ficou um tempo se olhando antes de cair na gargalhada até chorar. Juro que nunca vi nada mais surreal até hoje. Nem em vernissage de arte contemporânea. Mas não pensem que o cara sentiu qualquer vergonha em voltar lá depois disso. Parecia que nada tinha acontecido. Por trás do terno, do silêncio e do uísque, ele sabia ser o mesmo de sempre. E como o dono do bar não tinha curtido nem um pouco aquela viagem torta, a gente não perdia a chance de tirar onda toda vez que o desembargador chegava: — Ei João, pode trazer logo aquela por conta da casa, senão tu já sabes o que eu vou tocar né?

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