Só o trabalho dignifica o homem

Pedro Vianna
Sep 7, 2018 · 2 min read

Marcos morreu no trabalho. Há tempos tinha largado o bico de soldador na metalúrgica do irmão, pra arriscar a pele como autônomo. Aquela rotina de acordar cedo, suar rios dobrando metal pra receber sempre a mesma merreca, nunca fez sua cabeça. Talvez por isso, tudo que entrava no sábado ele convertia imediatamente em cachaça, cigarro e nóia. Faltava religiosamente o trampo todas as segundas. Jurava que era revolta, não se rendia ao sistema, mas todos sabiam que no fundo era só ressaca.

Depois de penhorar o gerador da oficina do irmão por meia 25 de pasta (jurando inocência, apesar das câmeras flagrarem sua via crucis com o monstrengo nas costas) decidiu abrir seu próprio negócio. Investiu os últimos reais nos recursos que precisava para começar sua empresa: uma buchudinha de Duelo e um maço de Derby vermelho. Meiou a buchuda num gole, acendeu um careta, e começou a bater perna pra vender seu produto.

Marcos trabalhava com o que tinha de mais precioso. Vendia aquilo que só ele podia dar: sua tragédia pessoal. Abordava as pessoas na rua e falava absolutamente a verdade. Nunca inventou uma doença terminal, uma passagem pra voltar pro interior, um troco pra inteirar o leite dos filhos. Chegava junto e dava a real. Um ou dois reais pra comprar a próxima birita, o próximo careta, o próximo tiro. Assim ganhava muito mais do que se fazendo de aleijado no sinal. As pessoas curtem premiar a honestidade, por mais grotesca que ela seja.

Numa de suas multadas numa mesa da Praça do Carmo, bateu de frente com um amigo de infância. Marcos explodiu de alegria. Tentava à força abraçar o conhecido que fazia de tudo pra se esquivar do bafo de cachaça e da sovaqueira de cachorro morto. Depois de muito impregnar, o cara lançou um desafio: Tá bom mano, não vou te pagar uma, vou te pagar duas, mas só te pago a segunda se tu virar a primeira só numa talagada. Marcos, que tinha experiência no ofício, não contou conversa, virou fazendo graça a primeira buchuda. Mas antes de matar o último dedo, teve um revertério e caiu duro do lado da mesa.

As pessoas que assistiram o desfecho ainda se empenharam em sacudir o caboco e jogar água na cara antes de chamar o SAMU. Quando a ambulância chegou Marcos já estava morto há uns 20 minutos. Quem viu o corpo no chão até hoje diz que a expressão de Marcos era de alegria. Morreu fazendo o que fazia de melhor. Morreu no pleno exercício de sua vocação. Morreu com a certeza da missão cumprida. Morreu feliz por devoção ao seu ofício. Cumpriu com excelência sua sina confirmando a velha máxima popular há tanto repetida: Quem morre por gosto não fede.

Pedro Vianna 2018

    Pedro Vianna

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    Escritor de canções. Compositor de poemas. Cantor de silêncios.