Carta aberta à gestão do basquete de Brasília

O ano é 2015. O UniCeub, time da basquete da capital, jogava as finais da Liga Sul-Americana. Asceb lotada. Fila de carros, gente em pé atrás da tabela. Uma cena bonita para o esporte, mas não rara para o time de basquete de Brasília: então tetracampeão brasileiro e bicampeão sul-americano, com outros momentos memoráveis de arquibancadas abarrotadas.
Depois de um primeiro quarto duro, vou à lanchonete: — Nossa pipoca já esgotou, senhor. — não quis acreditar. Faltavam ao menos uma hora e meia para o final do evento e a gestão da lanchonete havia se programado para vender 10 minutos de pipoca.
Eu não vou cometer a covardia de comparar o jeito como fazemos as coisas por aqui com a NBA, que oferece dezenas de lanchonetes, pratos e conveniência aos fãs. Eu vou comparar ao pipoqueiro. Ele, sim. O pipoqueiro do zoológico, que no sábado atende centenas de famílias por horas. O pipoqueiro não fica sem pipoca. Ninguém faz demanda reprimida de pipoca: se as pessoas querem, você vende. É simples.
Mas o ponto não é esse. Eu vou aos jogos do UniCEUB desde 2005. Quando nem pipoqueiro tinha. Um senhor andava pelas arquibancadas da Asceb vendendo refrigerantes — em lata, ainda — e salgadinhos Torcida.
Eu vi o time do Kenya e do Byrd. Vi Ratto e Duda, ainda novinho. Vi o Pipoka mandar a torcida do Flamengo fazer silêncio. Vi montarem uma potência com Alex, Nezinho e Arthur. Depois Alex, Nezinho, Arthur e Giovannoni. Eu tava lá, atrás da tabela, esse tempo todo. Pelas minhas contas, foram mais de 150 jogos.
E foi uma honra ver o basquete de Brasília crescer. Eu, que um dia já tinha sido atleta, agora, em 2011, podia comprar a camisa dos atletas — eu já tinha uma, de 2007, mas extraoficial.
Foi uma honra ver crescer uma rivalidade com o Flamengo — um dos gigantes do esporte brasileiro. Um time que tem uma torcida apaixonada — e insuportável. E que batia de frente com o jovem time de Brasília, com uma torcida familiar — e também apaixonada.
Por falar em torcida, foi lindo ver o time ganhar uma torcida organizada. Com camisa, bandeirão, música. Os caras que faziam a Asceb, por vezes, ter cara de basquete argentino — com muito mais tradição e conquistas que o nosso — e suas arquibancadas inflamadas.
Tudo isso aconteceu sob os meus olhares atentos. Meu e de muitos outros. São vários os torcedores que não perdiam um jogo sequer do time de Brasília, a essa altura, ex-Universo e atual UniCeub Cartão BRB.
Até que chegamos a 2016. Um ano mágico. O time até que não era lá dos mais fortes, embora aguerrido. Mas estou falando de magia. Em 2016, o marketing do Brasília é que se mostrou o mais forte do Brasil. Tivemos um final de semana de atrações para anunciar a equipe. Ganhamos hall da fama. Intervalos com interação e prêmios para a torcida. A cortina da distração, importada do exterior, virou notícia no Brasil. Até churrasco entre jogadores e torcedores aconteceu.
Foi lindo.
O problema, porém, da magia, é que enquanto você se deslumbra com o que vê, ignora completamente o que não vê. E enquanto o time parecia se erguer definitivamente no cenário esportivo — e não apenas de basquete — no Brasil, as estruturas internas ruíam.
Um boato aqui e outro ali de que estava complicado. Que as coisas não iam bem administrativamente. Que os bastidores estavam complicados. Uma matéria dizia que os jogadores não recebiam salários completos há meses.
Até que fomos eliminados pelo Bauru, nas quartas de final. Normal. Os caras foram campeões, com um baita time. E perdemos na última bola do jogo 4. Nenhum vexame. A vergonha de verdade ainda estava por vir.
Dois meses depois da final do NBB, ainda estávamos sem resposta. Os times já se preparavam — e levavam nossos jogadores: Fúlvio, um dos pilares do time, foi o primeiro, anunciado pelo Vasco da Gama. Enquanto isso, nós não tínhamos sequer uma decisão. Luzes apagadas. Ninguém sabia o que iria acontecer.
Até que ontem, dia 25 de agosto, às vésperas do reinício do torneio, a incompetência foi oficializada. O basquete de Brasília — tetracampeão brasileiro, tricampeão sul-americano, recordista de público na modalidade no país — estará fora do próximo NBB por razões que não aconteceram dentro de quadra.
A culpada? A crise. A financeira, não a de ética. Nem de profissionalismo.
Seguiu-se a jogada que o basquete brasileiro já tinha feito, há menos de um ano. Fomos banidos de competições internacionais por problemas financeiros e de gestão. Agora, perdemos um dos gigantes do esporte no Brasil.
O basquete perdeu. Brasília perdeu.
O time profissional mais vencedor da cidade — considerando todos os esportes — desmoronou. Não por ser rebaixado. Não por falta de desempenho. Não por falta de torcida. Acabamos por falta de seriedade. Profissionalismo. Planejamento.
O esporte profissional é feito por profissionais — e não apenas atletas profissionais. É comissão técnica profissional, marketing profissional, torcida profissional. Gente que sabe o que está fazendo.
Tínhamos tudo isso. O problema é que o basquete é um esporte coletivo. E a gestão do time de Brasília é feita não só por amadores. Mas por gente que não quer jogar. É um sexto homem que você não pode contar. Que na hora importante, se atrapalha todo e expõe o time. Uma gestão que amarela.
E no basquete, amigos, até para ser pipoqueiro tem que ter o mínimo de talento.
