Apoiar ou não o Uber? Depende. Estamos falando de mobilidade urbana, inovação ou postura de empresários?

A Bia Granja trouxe de volta um texto que mostra que o Uber não é toda essa maravilha que pinta ser. Verdade. A empresa antes de ser polêmica por mexer no vespeiro que é o monopólio de taxistas (lê-se sindicatos e patrões, e não os motoristas em si) tem polêmicas bem mais cabeludas na bagagem.

Acusações de estupro, perseguição a quem denunciava, inclusive atingindo os filhos de quem denunciava. É jogo sujo. Por um bom tempo até que boicotei a empresa por conta disso. Passado um tempo, não vi mais notícias sobre esse ou outros casos similares. Também não fui atrás, confesso.

Até que num belo dia, precisando fazer um longo trajeto de táxi e descobrindo quanto daria a corrida pelo Uber, resolvi dar uma chance finalmente e testar o serviço. Precisava ir do aeroporto de BSB para minha casa.

De táxi, daria uns R$ 70. Chamei o Uber. Deu R$ 51, com o desconto da primeira corrida, R$ 31. Fora todo o serviço em si, que não cabe chover no molhado o quanto é melhor que o dos táxis.

Não nego, me senti meio culpado. Estava utilizando os serviços de uma empresa que eu sabia que não era lá muito exemplo para construirmos uma sociedade mais justa.

Mas vejamos. O serviço é superior ao do concorrente. O preço bem mais atraente. Há uma facilidade enorme de ser tudo via app no celular.

Impossível negar que o Uber, como serviço, é sim algo espetacular.

Não o Uber apenas. Tudo que envolve o conceito de economia colaborativa é atrativo. E positivo para a sociedade. Compartilhamento de caronas, hortas comunitárias, espaços de co-working. Voltando ao Uber, ele pode perfeitamente nesse contexto ser encarado como um projeto de mobilidade urbana (menos carros na rua), segurança (menos gente bêbada dirigindo), saúde (menos gente bêbada causando acidentes com vítimas).

Se do ponto de vista de como a empresa é tocada no dia a dia, dentro de seu escritório, pelos seus diretores é algo condenável, do ponto de vista de inovação ela está bem longe de ser condenada.

Assim, independente de eu continuar usando ou não o serviço, eu apoio sim o movimento para que o Uber não seja proibido. O Uber está sendo proibido em nossas Câmaras Legislativas, não porque tenta acobertar estupros, mas porque cria concorrência a um sistema de monopólio, corrupção e poder.

O Uber tem sim o direito de propor concorrência. Tem sim o direito de prestar um serviço melhor que os atuais detentores do monopólio. Hoje querem proibir o Uber, amanhã serão todos os outros que tragam uma economia mais sustentável e mais justa. O que está em jogo é criar um precedente pra proibir tudo que tire grana e poder dos corruptos e corruptores que hoje ocupam as cadeiras.

Não acho que seja viável também não haver nenhum controle para o caso do Uber. Talvez algum tipo regulamentação para ele e todo e qualquer sistema de transporte tratado de forma comercial. Mas proibição? Jamais.

Quero sim que o Uber ganhe essa luta contra políticos e sindicatos. Não vou torcer contra a empresa, porque isso seria torcer a favor do outro lado, o que seria pior ainda, e mais condenável ainda, diante de quem são e como atuam.

Quero que cada vez mais pessoas que chegam empreendendo propondo inovação, serviço melhor e mais vantagens ao consumidor tenham sucesso e sejam livres para fazer isso.

Ao próprio mercado, ao público consumidor, é que cabe determinar o sucesso ou não dessas iniciativas e não a canetada por interesses escusos.

Aqueles que forem moralmente condenáveis, se o público assim julgar, terão o que merecem. Se for o caso do Uber, fica fácil. Ele é boicotado e surge um concorrente com o mesmo serviço no lugar. Afinal, a demanda permanecerá. O serviço (não importa a prestadora) é consumido. Os clientes compraram a ideia. Ninguém vai mais aceitar ficar só na mão dos táxis da forma como eles estão.

Lembrem que Airbnb também já passou perrengue em vários lugares com governantes obedecendo sindicatos hoteleiros que buscaram proibir o serviço. O Ministério Público já tentou fazer com que o compartilhamento de w-fi fosse crime. Um dono de restaurante é proibido de dar sobras de comida para moradores de rua. Ele é obrigado a jogar no lixo. Até mesmo sopão de voluntários já tentaram proibir.

Vejam que está tudo ligado ao conceito colaborativo. Não há controle de uma pessoa, um sindicado, um governo. Isso tira poder desses agentes. É óbvio que serão contra.

A esperança é que não adianta ir contra um movimento irreversível. As pessoas estão cada vez mais sendo donas de si. Ganhando consciência que não dependem de governos ou empresas pra fazer as coisas. Há uma demanda reprimida? Vai lá e faz.

Essa economia colaborativa ainda vai apanhar muito pra ser aceita, mas não tem volta. Ela vai rolar. Já está rolando. Já está incomodando. Mas os incomodados também serão obrigados a (se) mudar, assim como empresas que incomodem por motivos alheios ao de consumo.

Espero de verdade que o Uber conquiste essa sua vitória contra a canetada. E ao mesmo tempo reveja sua política de segurança, tratamento de funcionários e mania de perseguição. Apoiar uma coisa, não quer dizer deixar de apoiar a outra.

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