Tecnologia no futebol

O que os olhos não veem, o coração não sente? Não no futebol. Suscetível ao erro humano, os recursos eletrônicos estão servindo como aliados ao trabalho do árbitro em campo.

Com a imagem parada e as linhas utilizadas como apoio, fica fácil dizer que o jogador estava em posição irregular na hora do passe. O lance aconteceu recentemente na Copa das Confederações, na partida entre Camarões e Chile, e os árbitros em campo não assinalaram o impedimento. A jogada prosseguiu e o chileno Eduardo Vargas acabou marcando o gol. Como criticar a arbitragem nesse momento? Impossível, pois centímetros distanciavam um atleta do outro. Por isso a tecnologia vem sendo inserida no futebol. Nesse caso, o árbitro principal, Damir Skomina, foi alertado de que o gol deveria ser anulado por outros árbitros que assistiam a partida no estádio, mas dentro de uma cabine, com os vários ângulos das câmeras a disposição.

Esse recurso chama-se Árbitro Assistente de Vídeo (VAR, de acordo com as siglas em inglês) e está sendo utilizado pela FIFA ainda em períodos de testes. A orientação é que o VAR só entre em ação quando for detectado um erro claro em campo, nos seguintes momentos:

1. Situação de gol, seja para validar ou anular.
2. Marcação de um pênalti, a fim de determinar se realmente foi falta e se foi dentro ou fora da área.
3. Cartão vermelho, quando os árbitros de vídeo acharem que o vermelho seria mais indicado que o amarelo.
4. Confusão na identificação dos atletas, caso seja aplicada uma punição para outro jogador e não o que realmente estava no lance.

Nesse lance citado na partida do Chile, os jogadores, assim como os seus torcedores, já haviam até comemorado o gol, de forma bem eufórica, antes da anulação. Muitos críticos ao uso da tecnologia alegam que assim está se perdendo a essência do futebol, deixando-o chato. O fato é que realmente há um conflito entre os olhos humanos, a reação das pessoas envolvidas e a marcação do lance irregular. É como se, mesmo depois de balançar as redes, precisasse esperar para comemorar, com as atenções voltadas para a arbitragem e o próprio telão do estádio, o qual diz que o incidente está sob revisão.

Os críticos ainda condenam o fato de que as polêmicas no dia seguinte iriam diminuir, seja nos programas esportivos ou na roda de conversa com os amigos. Além do mais, é questionado se o VAR será usado apenas em momentos cruciais da partida e se os jogadores terão o direito de pedir a reavaliação de algum lance, uma espécie de desafio, como acontece no vôlei.

“Me parece que temos que dar um pouco de tempo, tenho entendido que estamos num processo experimental, mas há algumas sensações que são imediatas e que têm a ver com a parte emotiva em que estamos acostumados no futebol. Para mudar isso, vai ser necessário que passe algum tempo, que possamos conhecer e sentir esses efeitos. No nosso caso, finalizando o primeiro tempo, poderíamos ter ido para o intervalo ganhando de 1 a 0. Mas 20 segundo depois entram os jogadores com um 0 a 0. A parte emotiva que gera essa situação, não estamos acostumados”, disse Juan Antonio Pizzi, técnico do Chile.

Você é a favor do uso da tecnologia no futebol?

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Conversei com alguns especialistas no assunto para saber a opinião deles a respeito do uso da tecnologia no futebol. Confira:

Gustavo Villani, narrador do Fox Sports

“Eu sou a favor da tecnologia sempre, já passou do tempo do futebol usar mais desses recursos para corrigir as injustiças da arbitragem…”

Depoimento completo:

Via: https://vimeo.com/223534330

Alê Oliveira, comentarista da ESPN

“Eu sou absolutamente a favor, mas é claro que a gente precisa treinar essas situações, treinar os profissionais, ter uma sintonia melhor entre o árbitro da partida e o árbitro de vídeo…”

Depoimento completo:

Via: https://vimeo.com/223532667

Na Copa das Confederações, esse recurso vem assumindo o papel de protagonista, desbancando estrelas do cenário futebolístico. Na partida entre Portugal e México, por exemplo, outra utilização. Dessa vez, auxiliou o árbitro para anular o gol do português Nani, já que no início da jogada seu companheiro de equipe, Pepe, estava em posição irregular.

Via: https://vimeo.com/223493918

Seguindo uma orientação da FIFA, os árbitros em campo podem ir à beira do gramado reavaliar o lance duvidoso por meio de um monitor. Mas, em ambos os casos, optaram por seguir a orientação dos árbitros de vídeo.

“Se o futebol ganhar com essa nova regra, que ela seja bem-vinda. Mas precisamos ser sérios no uso desta novidade. Não entendo por que pararam o jogo em alguns momentos e em outros não. Depois que marcamos, houve revisão, mas quando eles marcaram, não” disse Fernando Santos, técnico de Portugal.

O VAR foi utilizado oficialmente pela primeira vez em novembro de 2016, na partida entre Ajax e Willem II pela Copa da Holanda. O árbitro em campo acabou advertindo o jogador Kali, do time visitante, com o cartão amarelo, mas foi recomendado que ele aplicasse o vermelho. E assim foi feito!

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=TM3Qu3nArr0

Esse sistema foi utilizado também no Mundial de Clubes, outro torneio organizado pela FIFA, em dezembro de 2016. Na ocasião, gerou ainda mais polêmicas. Na partida entre Kashima Antlers e Atlético Nacional, após bola alçada na área, houve um enrosco entre dois jogadores, mas o lance prosseguiu normalmente. Após 44 segundos, quando a bola havia saído, aconteceu a comunicação entre o árbitro em campo, Viktor Kassai, e os árbitros de vídeo. Alertado sobre um possível pênalti, Kassai foi à beirada do campo rever o lance pelo monitor e acabou assinalando a penalidade. Entretanto, não foi observado que o jogador japônes envolvido no lance estaria em posição irregular. Além do mais, o período de interromper o jogo e reavaliar o lance demorou 2 minutos e 17 segundos.


Captura de tela do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ZYiUCSr57Ic

No Brasil, o recurso foi utilizado pela primeira vez no dia 7 de maio de 2017 no empate por 1 a 1 entre Sport e Salgueiro pela final do campeonato pernambucano. O Sport ganhava por 1 a 0, quando aos 48 minutos do segundo tempo, o árbitro em campo, José Woshington, marcou um pênalti para o Salgueiro. Depois, ele estabeleceu comunicação com o árbitro de vídeo, Péricles Bassols, e se dirigiu até a beirada do campo, onde havia um monitor a sua espera. Revendo o lance, decidiu manter a sua decisão inicial. Todo esse procedimento demorou cerca de 6 minutos, algo impensável para a dinâmica do futebol.

“Experiências como essas deveriam ser feitas em jogos que não têm tanta importância e que não possam ter uma decisão polêmica em função dessa novidade. Se quiser utilizar o árbitro de vídeo, o ideal é que se coloque em jogos que possam ter polêmica, mas que não decidam campeonato. Numa decisão de campeonato é meio complexo”, opinou o técnico do Sport, Vanderlei Luxemburgo, que ainda não comandava o time naquela partida.

Erros inesquecíveis

Futebol é algo que vai muito além das quatro linhas. Mexe com os sentimentos, com a emoção do torcedor. Perder ou ser eliminado de uma competição por erro de arbitragem é algo muito marcante. E alguns casos ficaram marcados na história do futebol:

Inglaterra x Alemanha ocidental, 30 de julho de 1966

As duas seleções se enfrentavam pela final da Copa do Mundo daquele ano. No tempo normal, 2 a 2. Então, na prorrogação, veio o 3º gol inglês, ou pelo menos foi isso que os árbitros assinalaram.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ySUM0ZERdA4

A Inglaterra acabou vencendo aquela partida por 4 a 2, consagrando-se campeã do torneio.

Argentina x Inglaterra, 22 de junho de 1986

Um dos lances mais emblemáticos da história do futebol. Maradona marcou 2 gols na vitória sobre a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986 por 2 a 1, sendo um deles com a mão.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=-ccNkksrfls

O lance ficou conhecido como “A mão de Deus”. Posteriormente, a seleção argentina seria a campeã daquele Mundial.

França x Irlanda, 18 de novembro de 2009

A partida era válida pela repescagem para a Copa do Mundo do ano seguinte. Como havia vencido o primeiro jogo por 1 a 0, a seleção francesa precisava apenas de um empate em casa para garantir sua vaga. Mas a Irlanda acabou repetindo esse mesmo placar no tempo normal, levando a partida de volta para a prorrogação. Então, aos 12 minutos do tempo extra, a polêmica: após bola alçada na área, o atacante francês, Thierry Henry, utilizou a sua mão para controlar a bola antes de tocar para seu companheiro marcar.

Fonte: https://vimeo.com/7701616

Além do mais, a bola foi para o zagueiro Squillaci, que estava impedido. Com o resultado, a França classificou-se para a Copa do Mundo de 2010.


Na Copa de 2010, um lance causou muita polêmica e acabou sendo o fator decisivo para a utilização da tecnologia da linha de gol.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=EveCKNN3c00

Pasmem-se: os árbitros não viram que essa bola entrou.

O erro aconteceu na partida entre Inglaterra e Alemanha. Esse poderia ter sido o gol de empate dos ingleses, que acabaram derrotados por 4 a 1.

Após a partida, com os recursos eletrônicos foi possível observar que a bola entrou 33 centímetros. Isso mesmo, 33!

A partir de então, começou a ser pensada e adotada, a tecnologia da linha de gol em vários campeonatos pelo mundo. Com esse sistema, câmeras em diversos ângulos ficam apontadas para as metas a fim de detectar se a bola entrou ou não. Além do mais, a bola e as traves ainda são equipadas com um sensor, onde, em caso de gol, o árbitro recebe uma notificação no seu relógio.

No campeonato inglês, a sua primeira intervenção aconteceu em 2013, na partida entre Chelsea x Hull City.

Fonte: http://www.sync.pe/2013/09/06/la-fifa-y-la-tecnologia-cuales-son-y-como-funcionan-los-dispositivos-que-estan-cambiando-el-futbol/

Em 2014, um lance na partida entre Vasco e Flamengo pelo campeonato carioca também causou espanto.

Captura de tela do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=OCoYr5ujdDc

Acredite se quiser: mesmo com aquele árbitro de linha, não validaram o gol! Portanto, a tecnologia no futebol surge para tentar amenizar os erros de arbitragem. Por ainda ser algo recente, causa polêmicas e divide opiniões. O fato é que precisa passar por aprimoramentos antes de ser colocado em competições de tão grande importância no cenário esportivo, como a Copa do Mundo de 2018.