
VI — SMS
Os três jovens se reuniram para decidir o que fazer exatamente. Marcus tinha ido para delegacia. Precisam ter uma forma de confirmar que ele chegou e, principalmente, que poderia sair sem problemas.
- A Carla não é advogada? Ela pode ajudar a gente! — Sugeriu Vinicius.
- Ela ainda tá no segundo ano de direito. Duvido que possa ajudar nessas horas. A mãe dela é advogada, mas a mulher não vai com a minha cara — Alexia bufou — Não adianta nem pedir.
- E se a gente fosse pra tal delegacia?
- Não acho que vai adiantar. A gente pode falar com esse pessoal da TV. — lembrou Taiane — Acho que… -
O bip do celular anunciando uma mensagem interrompeu a garota, que pegou o celular achando ser Marcus. O brilho da tela iluminou a expressão de decepção em seu rosto. “Droga de propaganda…”. Ela ameaçou retornar a conversa quando outra mensagem chegou. Ela ignorou. Então outra, e mais uma e mais uma.
- Que inferno! — explodiu pegando o aparelho e abrindo para bloquear o número.
- O que foi, Tai? — perguntou Alexia ao ver a amiga encarando a tela com os olhos arregalados.
Taiane virou o aparelho. Uma sequência de SMSs pipocando no celular. “FUJAM”, “AGORA”, “FUJAM”, “VOCÊS OLHARAM POR TEMPO DEMAIS”, “AGORA ESTÃO OLHANDO DE VOLTA”. E, por último, uma imagem da viatura com as portas abertas e a janela coberta de sangue a poucas quadras dali. “CORRAM”.
Rapidamente, Taiane puxou Alexia pela mão e correu a direção em que a viatura havia ido. Ao ver as duas, Vinicius também começou a seguí-las.
- O que você tá fazendo? — Reclamou Alexia.
- Eu preciso ver!
- Isso é armação, Tai! Algum maluco fazendo isso…
- Por quê? A gente não apareceu no jornal. Não chamou atenção. pra que perder tempo com a gente?
- E se for o mesmo cara que mandou a carta? — Vinicius entrou na conversa.
Os três pararam. talvez, depois de tudo que já tinham visto naquela tarde, estivessem alterados demais para perceber o quanto aquilo parecia irreal.
- Tá. Vamos parar um pouco e pensar. — decretou Alexia. — Precisamos avisar a alguém sobre isso. Talvez fosse bom a gente ir pra delegacia mesmo. Agora a gente tem essas mensagens. Servem de prova, certo?
Conforme a garota terminou a frase, um chiado ecoou na rua, quase como um chocalho.
- Que foi isso? — Disse Vini, olhando em volta — Vocês também ouviram?
As duas garotas sacudiram a cabeça, concordando. Os três estavam sozinhos na rua, próximos a um dos muitos prédios com a fachada em obras, tampados por plásticos e andaimes. Fora a barata passando pelo canto da rua, não havia mais nada ali. Entretanto, novamente o chocalho.
- Mas que mer…
Um bueiro no final da rua estourou, atirando a tampa a mais de dois metros de altura, enquanto uma alta labareda escapava pela abertura. Os três gritaram e o chocalho voltou a ressoar, então outro bueiro, um pouco mais a frente no lado oposto também estourou.
- Tá de sacanagem!
Dessa vez, foi uma grande rachadura no asfalto, que se abriu mais, deixando escapar as chamas, que pareciam se movimentar pela terra.
- Sério gente, que droga é essa? — a voz de Alexia tremeu.
- Corre! — Gritou Taiane.
Os três disparam, enquanto o som do chocalho parecia cada vez mais próximo, encoberto pelo estampido de mais um boeiro estourando.
- Esse troço tá atrás da gente? — Vini gritou.
O celular de Tai tocou novamente. “PARA ESQUERDA” dizia a mensagem. A garota não teve tempo de pensar, apenas repetiu o comando para os demais enquanto começava a fazer a curva. “SEGUNDO PRÉDIO”, “GARAGEM ABERTA”. A mensagem mal acabou de chegar e a porta da garagem do edifício começou a se abrir. Taiane apontou o caminho e mudou o rumo da fuga. Ao mesmo tempo, o som do chocalho tornou a reverberar, junto com as labaredas escapando pelo bueiro na lateral da rua.
- Esse fogo tá seguindo a gente, sim! — Vini tornou a gritar enquanto o grupo subia a rampa do estacionamento.
- Você tá dizendo que o fogo tá vivo? — Questionou Alexia.
- É o fogo tá vivo, o trem tem um fantasma e a porcaria do apartamento sumiu sem ninguém ver! Sério que a essa altura você tá duvidando disso ainda?!
“SUBAM”, orientou a mensagem enquanto a garota tentava responder perguntando quem era. “SUBAM”, repetiu a mensagem. Ela correu os olhos pelo lugar até achar andaimes próximos, ligando ao andar superior. Os três subiram, mas Taiane travou no meio do caminho.
- Não dá! — dizia agarrada a um dos vergalhões.
- Para de dizer besteira! — reclamou Alexia — É só subir.
- Isso vai cair com meu peso!
- Tai! — Alexia Gritou — Não é hora disso. Sério!
O barulho de algo batendo contra o portão da garagem repetidas vezes começava a ecoar junto ao chocalho. As penas de Taiane tremiam. Alexia e Vini já estavam no segundo piso e começavam a descer de volta atrás da amiga quando o barulho do portão se rompendo preencheu a construção.
“Me ajuda!”, Taiane enviou a mensagem. Algo estava se arrastando pelo primeiro andar do estacionamento, iluminando os corredores e fazendo sombras compridas por toda parte, como num pesadelo. “ATIRE O CELULAR”, veio a resposta. A garota ficou perdida, olhando para mensagem. “AGORA”.
Taiane olhou novamente para o fundo do primeiro andar. Algo se aproximava cada vez mais rápido. Então leu a mensagem novamente, torcendo para que algo naquilo fizesse sentido algum dia e atirou o aparelho.
O celular voou por cima das pilhas de material da obra e, de repente, um clarão inundou o ambiente, seguido do que pareceu ser um guinhado rouco e uma última chocalhada.
Tudo seguiu em silêncio logo depois. Alexia e Vini chegaram até onde a garota estava e, após tomar coragem, fizeram o caminho de volta. O celular estava no chão, quase virado do avesso e derretido. Uma marca negra se alongava até desaparecer próxima a entrada. Fora do prédio, os primeiros moradores apareciam nas janelas e portas, reclamando da confusão como se finalmente percebessem que algo acontecera.
O celular de Vinicius tocou. Na tela, uma foto de Marcus caído no chão com o rosto salpicado de sangue e um endereço. “VÃO”.