Por que eu “saí” do Twitter

not happy

Foi com 19 anos, em junho de 2009, que entrei no Twitter por indicação do meu amigão Thales Bruno. Poucos minutos procurando entender como funcionava aquela interface, qual o intuito do site e voilà, comecei a digitar minhas primeiras besteiras. Consegui inclusive iniciar uma discussão inútil com o grande Lúcio Maia do Nação Zumbi, um cara que eu admiro bastante.

love you lucinho, sorry

Neste último ano comecei a revisar alguns tweets que escrevi, e meu Deus, como a gente muda. Por conta disso resolvi apagar meus tweets, e após inúmeras tentativas finalmente consegui, usando uma ferramenta na linguagem que estou estudando, Ruby (aos interessados possam).

Meus amigos estranhavam, “mas por que você faz isso?”, “que hipsteragem é essa?”. Outro motivo além de matar de vez tanta besteira escrita ao longo do tempo era a privacidade: fui inevitavelmente afetado pelas ideias de Edward Snowden. Ainda é coisa de século XXI, mas acho que aos poucos as pessoas vão se sentir afetadas por isso e vão se conscientizar (ou não). Leiam mais sobre big data.

Foi após umas leituras nessa mesma época sobre a forma como as redes sociais nos prendem com truques psicológicos que comecei a perceber esses sintomas em mim, de forma grave, que atrapalhavam a minha produtividade, interferiam na minha vida afetiva, no meu psicológico, na forma como eu enxergava as pessoas, o mundo ao meu redor, etc. Elas prestavam na maior parte do tempo mais um desserviço para mim do que a função para as quais foram idealizadas originalmente. Elas estavam “comendo” o meu tempo, me jogando em uma dança que eu não tinha controle, e que muita gente não tem, mas prefere enxergar que tem ou simplesmente tem medo de se isolar, de perder a identidade no grupo ao qual pertence, etc.

A cereja do bolo foi encontrar um amigo que passa férias aqui, me explicando o quanto ele se sentiu mais feliz após o anonimato, ou seja, ter saído de todas as redes sociais, como o Facebook. Resolvi fazer um teste, removendo a timeline do Facebook e do Twitter (removendo a coluna de timeline do Tweetdeck). Para minha surpresa me senti menos ansioso, consegui atingir os objetivos que tinha definido para o dia: estudar, ler um pouco os livros no meu Kindle (que estava tão abandonado), começar uma nova série que estava interessado e zapear pelos meus canais do Youtube, que sempre lançam conteúdo interessante.

Por fim, me lembrei do poema do amigo Charles Ribeiro “só os encontros são reais” e decidi de uma vez abandonar as redes.

Não é uma experiência, não mais, é uma decisão. Eu precisei de 7 anos para entender como funcionam esses sites, e ainda melhor, ver como eles evoluíram, e ainda não sei se posso usar essa palavra ironicamente ou não. O fato é: não me cabe mais. Não me cabe mais ver o que minha tia fez no fim de semana, talvez seja melhor pegar o resumo na casa dela duas semanas depois, o roteiro já estará revisado, e os pormenores tão detalhados já hão de ter sido esquecidos. Se minha crush colocou um piercing, eu posso ver ao vivo. 😏

As redes sociais nos condicionam a prestar atenção nesses pormenores, que até tem seu charme realmente, mas não são o mote da nossa existência. Nós não nascemos pra descrever como a alça da chaleira quebra facilmente, como o nosso cachorro é fofo pegando a bolinha. Isso é detalhe pra preencher o enredo, não é pra ser o tema principal. E hoje esses sites criaram formas de nos prender a esse tipo de informação, de nos condicionar a achar isso divertido, interessante e finalmente necessário para que consigamos iniciar um dia de trabalho, por exemplo. As pessoas como num grande redemoinho compartilham emoções, frustrações, medos, inseguranças, e ok, isso deveria ser legal, nos ajudarmos, mas o que mais percebo é que esses sentimentos começam a serem compartilhados, o crivo vai se esvaindo, passamos a ser um só, com os mesmos medos, os mesmos objetivos, as mesmas dores, os mesmos sorrisos. Pode ser uma questão de personalidade, mas essa ideia não me apetece, isso pra mim não é comunidade. Eu preciso de gente diferente de mim, que fale coisas que eu não pensaria, e eu não quero mais ser afetado por essas ideias comuns, pelos medos comuns, porque isso não me amedronta, não me dói. Eu não aceito a ideia de estar sendo manipulado, submetido, e só por isso decidi abandonar. Nosso relacionamento já não ia bem, amor, e os likes não salvavam. Sexo não é tudo.

Talvez você também olhe ao redor e perceba. Esse texto é pra você. Dê like e compartilhe.

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