A ocupação Escola Fernão Dias Paes na visão de quem mora e se manifesta em Pinheiros

Foto: Vivian Ortenzzi

Vivian Ortenzzi Alfinito tem 28 anos, é formada em design de jogos e trabalha com produção de conteúdo. Ela mora a uma rua da avenida Pedroso de Morais, número 420, onde fica a Escola Estadual Fernão Dias Paes cercada pela PM de São Paulo. “Eu consigo ouvir tudo da minha casa. As pessoas gritam muito alto e eu não sei distinguir em alguns momentos se são os estudantes, as crianças, se manifestando ou se são policiais”.

A designer afirma que a presença da Polícia Militar, executando a ordem de fechamento de 94 escolas públicas, mudou a rotina do bairro de Pinheiros e das pessoas que moram na região.

No dia em que a Justiça deu um ultimato de 24 horas para que os estudantes deixem a ocupação na escola pública, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo em 12 de novembro, Vivian resolveu conversar com as pessoas que estão no local além dos moradores do seu próprio condomínio. “Eu não vi direito quando a PM chegou, e não vi algumas das ações truculentas deles, mas vi viaturas fechando a rua, passei próxima do local e fiquei com curiosidade de saber mais. A culpa disso é deste governo Alckmin”.

“Eles estão tratando as pessoas que estão ocupando a escola, desde o dia 10, como marginais. A Globo, a TV, mostrou a gente como se fôssemos bandidos, como se a gente tivesse quebrado alguma coisa aqui dentro. Isso não é verdade”, contou para Vivian uma das três meninas menores de idade que concordaram em conceder entrevista. No entanto, a pedido de parentes, a identidade delas foi mantida em sigilo. “Meus pais nem sabem que eu estou aqui ocupando. Minha mãe já ligou preocupada, mas eu quero ficar aqui”, disse outra.

Foto: Vivian Ortenzzi

Os pais da terceira garota disseram para a filha ter cuidado com os policiais. Ela tinha sido assaltada na periferia naquela mesma semana. “Fico me perguntando o que esses PMs fazem aqui e por que eles não estão fazendo o trabalho deles”, disse.

A escola teve a água cortada na terça-feira, no começo da ocupação, e a polícia passou a impedir a entrada de alimentos, reprimindo professores e adolescentes com spray de pimenta. “Agora os PMs estão deixando entrar água e comida, mas muitos deles diziam que não podiam fazer isso por ordens superiores”, explicou mais uma vez uma das meninas menores de idade. Para ela, nem todos os policiais militares são ruins, mas a atitude é completamente descabida.

As pessoas não ficam 24 horas na escola pública, de acordo com diferentes integrantes da ocupação. Após a polícia liberar a entrada e saída monitorada pelo Conselho Tutelar, depois do primeiro dia, a maioria das pessoas está fazendo rodízio para não se desgastarem tanto. De acordo com quem está ocupando o local para evitar seu fechamento, há alimentos estocados e pessoas que estão cuidado das reservas.

A Tropa de Choque fez visitas à Escola Estadual Fernão Dias Paes, mesmo com estudantes de 12 anos no local. O governador Geraldo Alckmin disse que tem dedo da política na ocupação. Política para quem? “Muitos dos policiais ficam inclusive com as mãos nas armas, ainda sem sacar. A gente tem que falar mais com a mídia alternativa porque tá foda contar com o resto da imprensa”, disse uma das estudantes.

O aluno William Miyakava brincou com o fato de ser descendente de japoneses na prova do Enem e foi um dos poucos que teve autorização para ter sua identidade revelada. “Tem muito estudante secundarista aqui. Não é uma galera mais velha. Uma menina tentou pular o muro e eles só estão deixando sair se mostrar o RG. Prenderam ela e deram voz de prisão pra um monte de gente. A menina que foi presa ia ser levada para um DP, mas as pessoas impediram os policiais e ela foi liberada”, explicou o jovem nipônico.

Foto: Vivian Ortenzzi

“Os empresários que trabalham aqui perto da escola estão putos com o que está acontecendo, falam que a gente está fazendo baderna sem nem saber o que ocorre aqui dentro. Algumas pessoas entendem e vem ajudar a gente. Tem gente que é informada e não faz nada, tem gente desinformada por escolha, mas existem pessoas que querem nos ajudar”, disse uma amiga de William que pediu para não ser identificada. Para os meninos e meninas ali, a maioria das pessoas em Pinheiros estão alheias ao que está ocorre.

A Escola Estadual Fernão Dias Paes venceu o Desafio Bovespa em 2006 e é reconhecida como uma instituição pública de qualidade em São Paulo. Em sua conta no Facebook, a cartunista Laerte disse que fez o ginásio e o período científico naquela escola. Tanto alunos de classe média quanto da periferia frequentam o recinto.

“As minhas filhas estudam na Fernão, com amigas dela lá. Se a escola fechar, vai ser inviável levar elas, porque elas ficam ao lado do local que eu trabalho. A gente mora longe e não pode ficar gastando muito com deslocamento”, disse o zelador do prédio de Vivian Ortenzzi Alfinito, que tem medo de ter o nome exposto. Na madrugada, o homem fica atento ao que está acontecendo na ocupação, conversando com as pessoas na rua e temendo o que pode ocorrer com as próprias filhas.

“A calma do nosso bairro acabou”, comenta a própria Vivian.

Muitas histórias podem mudar com novas decisões do governo Alckmin, mas a presença insistente da PM rompeu a normalidade no bairro de Pinheiros, que fica a poucos metros da Avenida Brigadeiro Faria Lima — e do empresariado paulistano.