Cheguei aos 28. Estou perto dos 30 anos. Não sei onde estou. Mas sei para onde vou.

Meu Medium estava meio morto. Não tenho o costume de escrever textos pessoais no dia do meu aniversário. Mas hoje eu resolvi falar sobre como é completar 28 anos. Não é tão emocionante quanto os 18 e certamente deve ser menos depressivo do que completar 30. Aconteceu muita coisa.
E nem dá pra fazer as piadinhas clichês com os 27, do Nirvana e dos roqueiros mortos.
Fica até difícil saber por onde começar. Mas arrisco outro clichê.
Eu já amei de verdade (várias vezes) e já escrevi alguns livros, mas não tive um filho. E mesmo faltando algumas coisas, tenho a impressão que fiz muito mais do que poderia imaginar que faria.
E a vida foi muito generosa em me oferecer oportunidades para fazer muitas coisas.
Mas não dá pra confundir generosidade com sorte. Fui azarado e às vezes acho que tive tanto rabo que parece que ganhei na loteria.
E a justiça das coisas se firma no meio do caminho.
Tive um melhor amigo que conheço desde meus cinco anos de idade e que ainda converso até hoje. Tive amigos que comecei num dia e, seis meses depois, terminamos brigados e magoados. Ataquei, sim, pessoas. Penso que fui injusto em inúmeras oportunidades.
Já me arrependi muito do que já fiz. Já fiz coisas sem pensar muito. E hoje vejo erros e acertos no que faço. E arrependimento já é uma palavra que não uso muito.
Já perdi um voo num aeroporto, caí no chão no asfalto e soube que tinha dinheiro contado no banco pra remarcar. Já deixei dívidas acumularem. Algumas ainda acumulam.
Já tive bastante dinheiro para viajar por cinco países na Europa. Já tive euros o suficiente para comer no restaurante considerado como um dos mais caros numa cidade da Itália. Já fiquei economizando para ter dez reais na carteira.
Assinei dois livros. Escrevi muita coisa sem assinar. Faço vídeo com edição porca. Já fiz vídeo com edição boa. Hoje faço locução numa rádio que nasceu com tudo pra ser profissional.
Fui noivo. Tomei tocos. Já chorei em posição fetal. Já fiz coisas que sinto culpa. E fiz sim coisas das quais me orgulho.
Já pedi uma pessoa em namoro numa cena que parecia de filme.
Já ajudei filha pequena de amiga minha. Já tive o carro apreendido na estrada porque queria visitar uma namorada.
Quando tinha 10 anos, mandei cartinha pra menina que sentava a duas carteiras na frente porque tinha medo de dizer “eu gosto de você”. “Eu te amo” e beijos na televisão me davam vergonha.
Já tive namorada aos cinco anos que não me dava beijo na boca, mas a gente conversava.
Era legal.
Participei de coletiva com presidente da República. Estive com candidata à presidência nos bastidores. Vi e ouvi muita coisa. Acho que vivi e vivo o Brasil.
Acho que videogames são mais do que diversão. Acho que o fato de escrever sobre videogames me faz cumprir um sonho de faculdade ao me tornar especialista em algum tipo de cultura. No começo pensei em literatura, mas acho que games me representam melhor como linguagem. Games são cultura.
Sempre acho que estou perdendo tempo e não estou trabalhando o suficiente. Meus amigos acham que eu sou uma máquina que não pára de trabalhar. Levo constantemente o assunto para a terapia.
Já me descrevi, em muitas ocasiões, como uma pessoa pessimista. Hoje tenho dúvidas. Hoje até acredito que sou otimista com a vida.
Já perdi voo de namorada no aeroporto. Já terminei namoro por mensagem. Já terminaram namoro comigo olhando nos olhos. Já engatei relacionamentos com dúvidas. Todas as minhas ex-namoradas foram ou são amigas.
Já olhei uma pessoa e descobri que o sentimento ali já tinha morrido. Já li mensagens e vi olhares que mostraram que o sentimento ali dificilmente vai morrer.
Sempre gostei de personagens e figuras públicas gays e bissexuais. E isso de nada afetou minha heterossexualidade.
Sou precoce em algumas coisas.
Videogames entraram na minha vida com dois anos de idade, minha mãe conta. Num Phantom System. Eu derrubava o Mario do penhasco.
Resolvi que queria ser escritor aos sete anos. Comprei um livro azul numa livraria em Santos. Retornei ao local, 20 anos depois, com uma namorada. Amo pessoas como amo meus textos.
Sou atrasado nos compromissos. Mal sei cozinhar. E eu sou muito mais preguiçoso e mimado do que meus textos dão a entender.
Se tivesse dinheiro, gastaria viajando. Mas também me vejo com uma família. Gostaria de ter uma filha mulher.
Sinto meu tempo cada vez mais escasso. E ao mesmo tempo não o sinto passar.
2009 e 2015 foram dois dos piores anos da minha vida.
Eu acho que andar de mãos dadas na Avenida Paulista ouvindo David Bowie uma das melhores lembranças que tive na vida.
Beijar num ponto de ônibus, também.
O momento que pisei e andei por Paris foi definitivamente uma das sensações que nunca vou esquecer.
Ouvir rock e andar sozinho em Londres é uma terapia que recomendaria até aos meus inimigos.
Visitar um país inóspito no inverno, como a Finlândia, pode ser um exercício excelente de descoberta sobre si mesmo.
Existe um local no Guarujá onde ver as ondas faz bem para a alma.
Tenho certeza absoluta que algumas pessoas me julgam como hipócrita ou não me reconhecem mais. Tenho certeza absoluta que alguns bastas que dei na minha vida trouxeram consequências difíceis, mas era o que eu precisava fazer.
Já pensei em desistir das coisas. Nunca tive coragem de tentar tirar a minha vida. Hoje eu tenho certeza absoluta de que quero viver.
Vou publicar livros. Vou ser o melhor jornalista do que já fui. Quero ser pai. Quero ser um comunicador melhor. O escritor que queria ser aos oito.
Sim, eu me arrependo de coisas que fiz. E de coisas que escrevi.
Não, eu não voltaria ao passado. Está bom como está.
Cheguei aos 28. Estou perto dos 30 anos.
Não sei onde estou. Mas sei para onde vou.
