O antipetismo, como discurso, está ruindo


Breve ensaio sobre a cobertura midiática da política brasileira nos últimos 12 anos, e como o Partido dos Trabalhadores se transformou no alvo único dos grandes grupos de imprensa.

Aviso: O texto é longo. É uma tentativa de formato conhecido como “long-form journalism”

Leio, num blog, que “a política, sem a polêmica, é a arma das elites”. E sou obrigado a discordar. Me parece que estamos, aos poucos, despertando de um pesadelo em que as elites polemizaram a política incessantemente. Muito desta vitória veio da luta da esquerda, é verdade, mas outra parte da conquista veio do desgaste da própria mídia que dá voz.

Não sou sociólogo, mas apenas um jornalista de 26 anos que atualmente cursa filosofia. Leitor da editoria de política desde a pré-adolescência, o conceito da cidadania e um pouco de história sempre despertaram meu interesse no tema.

Filhote dos 12 anos de Lula e Dilma no poder em Brasília, e de mais de duas décadas do tucanato em São Paulo, formei aos poucos uma opinião forte sobre as duas forças polarizadoras partidárias do Brasil.

O PT e o PSDB serão estudados por muitos anos. Principalmente sobre o efeito que provocaram na comunicação nacional.

Li — e ainda leio — Veja

Imagem: Reprodução/Editora Abril

Atualmente trabalho como freelancer na mídia de esquerda, entre outros ofícios. O que pouca gente sabe é que eu fui leitor da revista Veja por pelo menos mais de 10 anos. E não era qualquer leitor, pois era assinante da revista.

Veja não é a maior revista semanal em circulação por acaso. Seu primeiro diretor de redação, Mino Carta, imprimiu um estilo nela que seria depois empregado em outras revistas que ele passou a dirigir, como ISTOÉ e Carta Capital. Trata-se de reportagens com profundidade, texto bem trabalhado no processo de edição e uma linguagem de fácil compreensão.

É um jornalismo que considero, a priori, de alto padrão.

Depois de Mino, Veja ainda teve uma dupla de editores que elevou suas assinaturas e vendas ao patamar de um milhão de exemplares em circulação. Foi trabalho de Elio Gaspari, que veio do Jornal do Brasil para se tornar o diretor-adjunto, e de José Roberto Guzzo, que assumiu o posto da chefia.

Foi essa dupla que, entre 1980 e 1990, transformaram a revista Veja em um colosso de mídia que, mesmo sendo criticada, ainda a torna influente hoje.

Sendo a publicação mais vendida da editora Abril, em pouco tempo transformou-se na porta-voz do discurso dos patrões. Roberto Civita ainda vivo participava ativamente na confecção da revista. Censurada durante a ditadura militar, embora tivesse dado capas para acalmar os generais, germinou como uma imprensa tradicionalmente antigovernista.

O problema é que, depois de Guzzo e Elio, a direção da publicação enfraqueceu e o poder dos Civitas cresceu. Não sou eu quem diz isso, mas sim o jornalista Luís Nassif, ex-Folha e atual GGN.

O atual diretor de redação é um homem chamado Eurípedes Alcântara. O que poucas pessoas sabem é que Eurípedes foi responsável, há 32 anos atrás, pela maior barrigada — notícia falsa — publicada pela revista.

Trata-se do caso do Boimate, uma notícia de primeiro de abril da revista New Science que a Veja publicou como se fosse real. Eurípedes Alcântara teria consultado especialistas para tentar comprovar a descoberta de um cruzamento genético de um boi com um tomate pelo Dr. McDonalds na Universidade Hamburgo.

Pelo que se sabe, Eurípedes nunca assumiu publicamente o erro. Mas tornou-se diretor da publicação.

Atualmente, Veja se dedica a fazer reportagens com pesadas denúncias contra o ex-presidente Lula, seu partido e aliados. O dilema ético que se coloca é que a revista nem sempre prova seus argumentos.

Tentou vincular Luiz Inácio Lula da Silva a um suposto delator da operação Lava Jato e foi desmentida poucas horas depois, por exemplo.

O modus operandi de Veja é repetido por outras publicações na grande imprensa. Mas ela tomou a si esse papel de atacar o PT nos últimos 10 anos sob a direção de Eurípedes Alcântara. Faz isso nas reportagens e no colunismo de opinião.

Criou o personagem e o maior crítico de Lula — Diogo Mainardi — e o colunista de opinião mais feroz com o PT na internet — Reinaldo Azevedo. Os dois permanecem criando filhotes aqui e acolá na imprensa.

Um colega de reportagem, que trabalhou na Veja durante os anos 90, me confidenciou certa vez: “O pior não é o posicionamento da revista, mas sim a sua previsibilidade. Não preciso mais nem comprar a Veja para saber o que ela publicará na semana”.

Jornalismo pode ser tudo, menos previsível. E isso foi, aos poucos, minando a credibilidade da Veja. Por parte da esquerda, que não perdoa os ataques ao PT, e também por pessoas de outras faixas sociais, que não esperam informações imprecisas, erradas ou mesmo falsas da maior revista em circulação no país.

Veja, ainda por cima, é ameaçada pela internet que mina suas vendas além dos assinantes.

Mesmo com todos esses fatores, eu ainda a leio. É importante para entender o germe do que podemos definir como “antipetismo” na mídia.

Lula e a mídia

Foto: Reprodução/Folha Imagem e EBC

A vitória de Lula em 2002 para 2003 foi inesperada. Lembro bem que o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso não tinha sido tão bom quanto o primeiro, a crise econômica estava galopante na América Latina e o dólar batia altas recordes. Era um clima parecido com este segundo governo Dilma Rousseff, exceto pela enorme mudança que parecia ser a chegada do PT ao poder. Era a esquerda que a Veja e a grande imprensa tanto criticavam assumindo a presidência da República.

O que não se sabia, na época, era a briga nos bastidores. Num texto revelador publicado num sábado, 27 de setembro de 2014, o jornalista Ricardo Kotscho, do R7, contou sobre as relações entre Roberto Civita da Abril e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro mandato. Civita teve a verba publicitária de seu grupo de comunicação afetada pela redistribuição de Lula. A relação entre os dois ficou abalada.

Kotscho assessorou Lula quando era candidato, inclusive em sua campanha fracassada contra Fernando Collor em 1989.

Isso se mostra claramente na relação de gastos da Secretaria de Comunicação do governo federal (Secom) revelada pelo jornalista Fernando Rodrigues, do UOL. Enquanto a TV Globo recebeu R$ 6,2 bilhões de publicidade nos governos petistas, a revista Veja viu seu orçamento derreter de R$ 43,7 milhões em 2009 para R$ 19,9 milhões em 2014.

O próprio portal UOL, do grupo Folha, recebeu R$ 14,7 milhões do governo federal no ano passado. Seu orçamento já começa a encostar na maior revista do país.

Conforme as verbas dos governos Lula e Dilma foram caindo de veículos da grande mídia para blogs e outras formas de comunicação, o discurso antipetista foi se intensificando. Hoje há críticos ao PT em todas as camadas da imprensa tradicional.

E formou-se, igualmente, blogs e sites que abarquem o mercado de pessoas que não se contentam apenas com as notícias anti-PT. Do Conversa Afiada do jornalista Paulo Henrique Amorim até sites como Brasil247, a tendência não é meramente defender os governos petistas, mas suprir necessidades do próprio mercado.

Sumiu do mapa da grande imprensa, por exemplo, assuntos como a compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, a polêmica das privatizações envolvendo os então ministros Sérgio Motta e José Serra, além do mensalão tucano do político mineiro Eduardo Azeredo. A corrupção dos anos 90 sumiu do mapa.

E explodiu, a partir de 2005 e das falas do então deputado Roberto Jefferson, o chamado escândalo do mensalão. Era a suposta compra de votos de legendas aliadas do PT no Congresso. O furo foi da jornalista Renata Lo Prete, da coluna Painel na Folha de S. Paulo, mas a pauta se tornou rotina da Veja dos Civitas, além de seus colunistas.

Foto: EBC

A situação gerada pela denúncia contra grandes nomes do Partido dos Trabalhadores, como José Dirceu e José Genoíno, além do publicitário Marcos Valério, colocou em cheque a reeleição de Lula. Tudo indicava que ele teria uma disputa apertada com o novo tucano Geraldo Alckmin. A questão é que o ex-metalúrgico venceu e, em seu segundo mandato, levou o Brasil até um crescimento acima de 7% do PIB, mesmo com a crise econômica internacional dos Estados Unidos e da Europa de 2008. Boa parte deste impulso veio do boom das commodities brasileiras na China.

Foi um fenômeno que não se repetiu com Dilma 1 e nem com Dilma 2, colocando o PT numa nova berlinda em sua política econômica com presença de estatais e concessões do patrimônio público nas parcerias privadas.

Entre todos esses episódios, ocorreu um duelo de narrativas políticas entre a “grande imprensa” e a “mídia governista”. Paulo Henrique Amorim batizou os grandes de “PIG”, o chamado “Partido da Imprensa Golpista”. A grande questão é que, embora tenham mais recursos para fazer grandes reportagens e apurações cotidianas mais detalhadas, a antipatia dos patrões da grande mídia às políticas de Lula e sua sucessora transpareceram mais do que o sadio no noticiário.

Tudo isso foi provocado pelas ações de Luiz Inácio Lula da Silva diante dos grupos de mídia. Parte das verbas de publicidade migrou de determinadas empresas para outras, dando a faísca necessária para o antipetismo.

A antipatia da imprensa, por outro lado, tem causas ainda mais profundas que se representam na sociedade: Um governo popular do PT não interessa ao grande empresariado. Outro medo aparente, que a mídia sempre teve, é que Lula fosse um novo Getúlio Vargas.

Nada provoca mais pânico aos grupos tradicionais do que um líder populista e que não atende aos interesses das oligarquias poderosas dentro do país. No fim, nem Lula e nem Dilma foram os líderes imaginados pela esquerda e flertaram, sim, as políticas da direita e do liberalismo, mesmo dando um viés social.

Mesmo com esse medo, a Globo não foi prejudicada em 12 anos. Mas outros grupos de imprensa sentiram o impacto na mudança do relacionamento de Fernando Henrique Cardoso, que era mais dócil com a mídia tradicional, até chegar em Lula, que era mais crítico desde suas campanhas eleitorais.

Foto: Reprodução/Memória Globo

O PT paga mídia para se proteger?

O jornalista Fernando Rodrigues começou a divulgar, desde dezembro de 2014, os gastos de empresas estatais com sites de notícias simpáticos ao governo federal. Há valores consideráveis, na casa de um milhão de reais. Indo nas planilhas da Secom, os dados diminuem ficam na casa dos milhares. Não é nada comparável aos bilhões que a TV Globo ainda recebe. Televisão é grande mídia, e é tradicionalíssima.

É correto dizer que Lula e Dilma no poder redistribuíram a verba na mídia, inclusive em veículos simpáticos a eles, mas é errado dizer que criaram redes de blindagem. A maior prova de liberdade de imprensa é justamente a existência de Veja como principal veículo de oposição ao governo, financiada inclusive por políticos do tucanato paulista.

Mesmo com barrigadas, a revista é publicada toda semana e não há sinais de que vá parar mesmo com centenas de demissões na editora Abril. Culpa do Lula ou da má gestão?

É deste ponto que surge o principal pilar do desgaste do antipetismo.

E qual é o desgate?

Ricardo Stuckert/Instituto Lula

O desgaste do antipetismo não é provocado pela briga entre governistas e antigoverno. O desgaste do antipetismo é sobretudo de discurso.

Em 2012, o mensalão foi julgado ao vivo na televisão com a exibição pública das sessões do Supremo Tribunal Federal. José Genoíno foi preso, mesmo sofrendo penas controversas na opinião de determinados jornalistas. José Dirceu não foi encarcerado apenas uma vez, mas duas vezes.

Lula agora é investigado por tráfico de influência com empreiteiras, em casos fora do mensalão. Dilma Rousseff, embora não seja formalmente acusada, é citada como uma das responsáveis pela corrupção na Petrobras por ter feito parte do board de diretores da empresa.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No chamado petrolão, um esquema de propinas envolvendo a Petrobras e construtoras de grande porte, como Camargo Corrêa, Odebrecht e outras, a reputação do Partido dos Trabalhadores foi mais comprometida do que na época do mensalão.

O problema é que o discurso único da mídia vem de razões comerciais e de uma política de antipatia ao atual governo. Suas causas e sua base não vêm do jornalismo. Se um escândalo some do noticiário para a priorização de outro, isso segue pelo caminho da panfletagem e não da reportagem.

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Saindo dos escândalos da era FHC, José Serra do PSDB apareceu citado no esquema de cartel Alstom-Siemens em 2013. Da mesma maneira, a Sabesp sob a gestão de Geraldo Alckmin, do mesmo partido de oposição ao PT, não fez as reformas no sistema Cantareira para evitar a seca de água entre 2014 e 2015.

Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República

O antipetismo nos grandes grupos de mídia cegou parte do debate.

Este texto centrou-se na revista Veja, do grupo Abril na era Roberto Civita. Mas o mesmo comportamento esteve nítido em setores das organizações Globo, de Roberto Marinho e seus herdeiros, na Folha de S. Paulo da família Frias, além do Estado de S. Paulo, dos Mesquitas.

São as famílias que concentram a publicidade privada e estatal no mercado de comunicação. No entanto, com a chegada do PT ao poder, suas verbas passaram a ser ameaçadas.

Neste semana, num golpe baixo, a revista Época da Globo, concorrente de Veja, publicou um texto especulando sobre a vida sexual da atual presidente Dilma Rousseff. Qual é a relevância de saber se Dilma transa ou não?

Foto: Lula Marques/Agência PT

Mas a diretriz é atacar primeiro, especialmente quando faltam argumentos via reportagens.

O PT está mergulhado numa crise política sem precedentes em sua história na presidência nos últimos anos. No entanto, cegar-se para irregularidades e crimes de outras legendas é fazer uma imprensa ruim e é alimentar disputas panfletárias que pouco tem a ver com a competição midiática. Há poucos grandes grupos e muitas empresas minúsculas. O panorama do mercado de comunicação é precarizado, mal-remunerado e concentrado.

Os “passaralhos” que o digam.

Numa disputa comercial, perde-se o interesse jornalístico e a cobertura equilibrada. No meio do tiroteio entre grandes e pequenos grupos de comunicação, quem sofre é o leitor.

O leitor acaba sendo doutrinado pelo desgastado antipetismo que agora apresenta sinais claros de fraqueza. Está ruindo como discurso único.