O jornalismo brasileiro está com menos samurais e mais ronins atualmente

Nem todo mundo sabe disso, mas desde pequeno sou fã de filmes de ação e de filmes de máfia. Como um jovem latino-americano classe média baixa e alto consumidor de mídia, nascido nos anos 90, eu sempre gostei de longas estreados pelo Al Pacino ou pelo Robert De Niro. “Heat”, de 1995, é um dos meus favoritos e tem os dois.

No fundo, eu gosto mesmo é de bang bang.

Mas um dos filmes favoritos, que eu mais revisito, é “Ronin” de 98.

Apesar do nome — e da referência dentro dele aos “47 Ronins” do Akira Kurosawa — o filme não aborda os famosos “samurais sem mestres”, que era a designação dos ronins, párias do Japão feudal. O enredo do filme estrelado por De Niro é sobre mercenários na Europa pós-Guerra Fria. De lá eu tirei a lição de que a gente precisa sempre de “um plano B”.

Este texto, no entanto, não é uma resenha do filme. E sim um texto sobre a atual situação do jornalismo tupiniquim. Vi hoje os textos do diretor de redação e de jornalistas da Folha de S.Paulo sobre os 95 anos da publicação e resolvi fazer uma pequena reflexão sobre como a profissão está hoje.

E, mais importante, como chegamos até aqui.

Importante salientar algo antes de começar. Este texto não vai utilizar nem a expressão “mídia golpista” e nem a expressão “mídia governista”. Mas é a minha opinião real sobre o caso.

A mídia brasileira de 2016, com todos os defeitos, salários mal pagos, informações erradas e distorções em nome de determinados interesses, é infinitamente melhor do que a de 1990, 1980, 1960, e por ai vai.

Mesmo assim, não deixa de assustar a informação divulgada pelo jornalista Sérgio Spagnuolo das demissões de colegas nossos na década de 2010, centenas delas só na editora Abril, a maior da América Latina e que foi meu local de trabalho por mais de dois anos. A informação caiu como bomba em 2015 e ainda está acontecendo.

Em todo o mercado de imprensa, você vê cortes, redução de gastos e contratações por valores vergonhosos. Portais de internet que se consagraram por décadas tiveram um time reduzido de dezenas de profissionais para menos de 10. Revistas com marcas internacionais fecham. Grupos que dominam o mercado começam a reduzir o time do impresso por gastos. Com gráfica, com papel e com logística.

É como se a imprensa não valesse, rigorosamente, nada.

Por anos, jornalistas web desejaram trabalhar com impresso. Hoje, se você tem um trabalho na internet no Brasil em crise da Dilma, você deve agradecer por ter algum emprego.

Colunistas importantes de revistas também decidem abrir seus próprios sites. Não vale mais a pena ter um espaço naquele mesmo local que antes pagava seu salário em dia, com direitos trabalhistas. Mais vale abrir o seu próprio.

A televisão aberta, dona das maiores fatias de publicidade, também faz cortes. Porque o YouTube reduz audiência. E o Facebook? Dispersa.

Como chegamos neste ponto?

Parte da resposta é a mudança da audiência digital e das pessoas que não querem pagar os R$ 10 ou R$ 20 do que investiam na banca de jornal, ou a atenção dada aos pontos do Ibope. Outra parte são falhas de gestão dos patrões que estão cortando empregos dos funcionários mais baratos para manter colunistas, polemistas e funcionários que dão mais retorno às empresas.

Mas outra parte da resposta é que, como jornalistas, estamos efetivamente deixando de ser samurais para nos tornarmos, nós mesmos, ronins. Samurais sem mestres.

As contribuições dos grandes grupos de comunicação foram importantes para a formação da imprensa, mas hoje a organização empresarial está com novos donos. Estamos num período de transição, felizmente ou infelizmente.

Isso se reflete na apuração de reportagens. Enquanto nos anos 60, 70, 80 e 90 se apostou como nunca na chamada “grande reportagem”, a internet disseminou o uso de notinhas para alavancar audiência. Das pequenas notas de dois até cinco parágrafos, estamos partindo para vídeos de um minuto. O lema do “less is more” é levado a risca, mesmo para histórias que merecem um carinho maior.

No Brasil, isso se reflete na própria história do jornalismo nacional.

Depois de anos de truculência política dos Diários Associados de Assis Chateaubriand — que foi dono de revistas como O Cruzeiro até a TV Tupi e apitava ativamente na política nacional— , a imprensa viu a ascensão em São Paulo de Victor e Roberto Civita com a Abril. O pai transformou a ideia de uma editora de revistas e de fascículos até uma realidade. O filho, que estudou nos Estados Unidos e trabalhou para a TIME, criou as melhores publicações da empresa.

Goste ou não da revista Veja, a Abril de Roberto era mais moderna do que o Pato Donald de Victor. E ganhou notoriedade por ser um dos poucos veículos de comunicação que se opunham à ditadura militar.

A “americanização” do jornalismo brasileiro trazida pela Abril contribuiu positivamente para nossa história. Embora Veja tenha sido sempre elitista, a editora teve um portfólio com mais de 20 publicações, atendendo gostos distantes e distintos. Tendo afinidade ou não com as revistas, elas contribuíram para a profissionalização do nosso próprio trabalho.

Entre os jornais, O Estado de S.Paulo sempre foi um patrimônio da cidade que se ergueu como o melhor mercado de jornalismo do país enquanto o falecido Jornal do Brasil era uma porta aberta de intelectuais dentro da imprensa no Rio de Janeiro. Já a Folha de S.Paulo deu o sopro de juventude e de pluralidade de opiniões em plena ditadura militar e na redemocratização — mesmo que os seus patrões tenham ajudado o regime enquanto ele não rompia com sua cúpula. Virou o jornal de maior circulação.

Na TV aberta, o grupo Globo dominou o mercado a partir do golpe de Castelo Branco em 1964, recebeu verbas estatais e criou não só o maior veículo do segmento, mas também o primeiro a funcionar como uma verdadeira “network”. A competência técnica da televisão da Globo não é superada nem em 2016, e nem mesmo com a ascensão da internet.

Diferente da Abril, a Globo conseguiu efetivamente conversar com as classes mais pobres e humildes graças a uma revolução cultural que trouxe com suas telenovelas e telejornalismo profissionalizados. Com todas as críticas que se pode fazer à empresa, é inegável a sua capacidade técnica e como ela atua de maneira efetiva na sociedade.

No entanto dois episódios começaram a romper com o oligopólio dos grandes grupos. Beneficiados economicamente durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso, a cobertura das privatizações foi mais aprofundada em veículos fora do escopo padrão, como foi o caso da revista Carta Capital criada em 1994 por Mino Carta — o mesmo criador da Veja com Roberto Civita e da revista ISTOÉ com Domingo Alzugaray.

Em oposição ao grupo constituído, essas mídias passaram a crescer. Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assume em 2003, declaradamente de oposição à FHC, a publicidade estatal passa a mudar de direcionamento, o que provoca um conflito entre os grupos de imprensa e o governo, que se prolonga há mais de 13 anos.

Mas essa disputa política não explica todos esses problemas. A iniciativa privada brasileira tem uma tradição de investir mal no jornalismo. Anúncios em revistas na década de 1990 valiam milhões cada vez valem menos. Se você têm alguma dúvida, vá a banca de jornal e olhe a qualidade e a quantidade de papel impresso ali.

É, de fato, cada vez menos.

E a internet, neste jogo, também muda a trajetória do dinheiro. Aplicar a verba num jornal “respeitado” ou numa campanha digital criativa? Injetar numa redação ou num YouTuber?

É neste contexto que enxergo cada vez mais jornalistas deixando de serem samurais e adotando a falta de código dos ronins. Antes, éramos fiéis aos ideais, aos patrões ou aos interesses vigentes.

Hoje remamos na contramão e acreditamos mais em novos negócios. Alguns fazem por convicção firme, outros por falta de alternativas. Muitos de nós enxergam apenas esta opção até por uma atuação em bloco dos grandes grupos de comunicação para padronizar sua abordagem.

Ao decidir seguir pela trilha do ronin, do samurai sem mestre, nós precisamos saber o que fazer com tal liberdade, uma vez que ganhamos mal e o investimento não é bom. Muitas vezes nem é suficiente.

Alguns se tornam céticos quanto à profissão. Outros são excessivamente sonhadores. Há aqueles que decidem entrar em guerra aberta contra o poder estabelecido. Há aqueles que só acreditam na vassalagem estabelecida com os patrões, que demitem cada vez mais. Eles desejam permanecerem samurais, quando isso é cada vez menos possível.

O próprio Roberto Civita disse, em entrevista ao Roda Viva em 1996, que acreditava que sua geração seria a “última dos grandes barões da imprensa”.

O filme “Ronin” de 1998 acertava na associação dos lendários guerreiros com mercenários.

Cada vez mais nós jornalistas somos mercenários, em busca do dinheiro e acumulando cada vez mais empregos mal-remunerados. Saudades do CLT e do cargo estável.

Mesmo com as possibilidades abertas pela internet, muitos de nós não praticamos o jornalismo que o nosso público espera. Cometemos erros, apostamos apenas no raso e não aprofundamos importantes assuntos.

Uns fazem por falta de caráter, outros por falta de formação das escolas de ensino superior de jornalismo, que ficam paralisadas na divisão entre “conhecimentos teóricos versus práticos”.

É uma divisão mentirosa que não aponta os reais problemas.

Os ronins da imprensa brasileira precisam encontrar novos senhores para devotar a sua busca pela verdade. E eles não estão no plano das ideias.

Mas eles não precisam ser os antigos patrões. E nem uma promessa vazia de “todos podemos ser empreendedores”.

Precisamos, sim, de critérios.

Precisamos reconstruir a nossa imprensa — dando a ela os novos veículos e a concorrência que ela merece. Isso leva tempo, mina o otimismo e deixa alguns malucos que ainda devotam pela causa.