Trabalho com o que amo. E isso não me faz feliz.

Jurava pra mim que não iria criar um Medium, mas li o texto do Cleiton Souza sobre não trabalhar com o que se gosta e ser feliz mesmo assim, com o sucesso, e achei que deveria contar minha história.


Oi, meu nome é Pedro. Eu tenho 26 anos.

Não acho que uma profissão define uma pessoa, mas sou jornalista. Me aventuro eventualmente pela carreira de escritor. Já fiz livro sob encomenda como ghostwriter e já escrevi sobre tanta coisa que daria uma explicação tediosa por aqui. É bem legal este trabalho.

Mas a questão toda é que eu amo o que faço. Acordo todos os dias animado com a profissão que decidi abraçar. Trabalhar não me desanima nem por um segundo.

Entretanto, na moral, eu não tenho razão nenhuma para estar feliz com isso.

Quem está por dentro das notícias, sabe a encrenca em que está a profissão de jornalista no Brasil e no mundo. No mês passado, foram quase 50 demissões na maior revista do país. E, num dos maiores portais do mercado, 40 vagas foram ceifadas.

Tenho contato com amigos e colegas em depressão. Alguns saem da profissão porque encontram outra carreira lucrativa. Outros permanecem, mas não trabalham com nenhuma paixão de antes. A sensação de quem fica é péssima, mas a gente continua lutando pela carreira.

Eu trabalho amando o que faço. Mas não há nenhum mistério nisso.

Escrever era um sonho de infância. Eu comecei com oito anos na ficção e aos 15 na poesia. Com a prática, você faz isso todos os dias até quando não está trabalhando.

Pensando em grana, na época do vestibular, eu cogitei não trabalhar com o que amo e cursar engenharia. Mas eu era um desastroso estudante das ciências exatas. E ainda sou. Não ia passar nem de Cálculo I, tampouco Geometria, embora gostasse de engenharia da computação.

Meus pais sugeriram jornalismo, mas sem fazer nenhuma pressão. Entrei na faculdade e fiz todos os estágios que podia, além de iniciação científica.

Como Romeu e Julieta, em seu amor quase trágico, eu e o jornalismo nos apaixonamos. Na verdade, eu virei entusiasta da comunicação social como um todo.

Tento ler o máximo de jornais diários que conheço. Leio os internacionais. Leio blogs de nicho. Releio revistas. E gosto até de propaganda, assessoria de imprensa e relações públicas.

Deixei até de ler um pouco os livros por conta da imprensa. Mas uma coisa puxa a outra e eventualmente eu volto pro cinema, pras artes e pra literatura.

Não trabalho por reconhecimento, mas por gostar do tipo de atividade. Se eu estivesse menos sobrecarregado, talvez escreveria com mais facilidade. Mas existem pressões que nos tornam criativos.

Sabendo de tudo isso, é importante pontuar.

Trabalhar com o que se ama não significa ser feliz.

Aliás, frequentemente o trabalho me deixou mais triste. Me deixou, certamente, mais longe da minha família do que eu gostaria. Arrancou lágrimas quando eu não quis e até esfriou o meu caráter diante de outros assuntos na vida. Me causou problemas quando eu simplesmente poderia ter encarado como um serviço qualquer das 9hrs até 18hrs.

Não falo dos plantões que as grandes empresas nos impõem. E nem dos salários baixos. Alguns sofrimentos fui eu mesmo que criei.

Fui eu que aceitei o apelido de workaholic — trabalhador compulsivo — e fiz mais serviços do que deveria fazer. Fui eu que passei horas no computador buscando cursos e informações para melhorar. E fui eu que fritei os neurônios atrás de algum furo de reportagem ou de alguma informação que ninguém teve acesso ou publicou.

Isso me destrói muito. Mas, felizmente ou infelizmente, faz parte de quem eu sou e eu passei a aceitar, talvez flexibilizando uma coisa ou outra.

Não sei se ficarei rico na profissão, mas, se isso serve para aliviar alguns profissionais na área, eu já ganhei dignamente nesta carreira. Fui estagiário de assessoria de imprensa, blogueiro, repórter, redator de um site com 30 pessoas e hoje vivo de freelancers e de uma renda variável, trabalhando de casa.

Escrevo sobre tecnologia e games, duas paixões, e sobre política e sociedade, dois assuntos que começaram a despertar o meu interesse fora do jornalismo especializado.

Eventualmente escrevo sobre música, quadrinhos, literatura e cultura pop.

Mas isso não é ser feliz.

Eu conheço uma amiga funcionária pública que tem o prazer de ter uma conta bancária folgada no final do mês. Ela não gosta e nem desgosta do trabalho. Mas te garanto que ela é bem mais feliz do que eu sou.

Outro conhecido trabalhava num banco, surtou e hoje vive dando aulas. Ele certamente vive uma situação financeira mais apertada do que a minha, mas é certamente um sujeito mais tranquilo.

Trabalhar com o que você gosta é meio uma coisa de freaks.

Todo mundo fala do Steve Jobs, fundador da Apple, como exemplo de profissional. Mas todos sabemos também o quanto ele era doentio com funcionários e o como ele era ditatorial em sua gestão, tudo em nome de produtos perfeitos como o iPod e o iPhone.

O cara era psicopata.

E, te garanto: Ele amava o que fazia. E não era feliz.

Devia levantar todos os dias com ideias. Devia sentir tesão quando via seu sucesso comercial. E deve ter faturado muito falando sobre o sucesso da sua carreira. Porque sucesso atrai sucesso.

Se você quiser ficar deprimido, tire uma tarde para ler perfis de executivas mulheres top de linha no mundo. São histórias difíceis e que exigem muita garra.

Mas tem muita gente quebrada financeiramente por ai que é feliz de verdade, que está vivendo a vida e fazendo a história.

Um dos privilégios da minha profissão é que você escreve muito pouco sobre você e muito mais sobre o mundo e sobre as outras pessoas. Então, conhecer alguém é sempre uma experiência muito enriquecedora. Imagina ser pago para isso?

Mas você se vê numa posição paradoxal de ver pessoas muito melhores do que a gente vivendo suas vidas de maneira plena, ao contrário de quem sobrevive de escrever sobre as coisas.

Isso não é ser feliz, mas é apaixonante. É viver como testemunha das coisas que acontecem, sejam elas boas ou ruins. E muitas vezes surpreende se comparado com muitos livros ou filmes.

A gente na verdade precisa de pouco pra ter felicidade. E de muito. Uma pessoa me disse certa vez que tudo o que você precisa é de uma mistura de um sebo com uma cafeteria, junto com algumas boas companhias.

Isso me parece um ótimo retrato da felicidade. Um monte de histórias para ler e um café gostoso.

E não é trabalho.

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