O Velho das Cinzas

Até quando um fardo pode ser carregado? Ou ainda, até quando ele deve ser carregado? Um conto para uma reflexão.

Era pleno outono, e as folhas alaranjadas coloriam os bosques de uma pequena vila em algum lugar da Europa. As casas, apesar de extremamente modestas — com seus acabamentos de madeira e paredes brancas — retratavam de forma simples e harmoniosa a combinação entre natureza e área urbana. O vento soprava de forma agradável, levando folhas para todos os lados da cidade. E o mais curioso, tudo parecia estar em um equilíbrio quase perfeito, criando uma paisagem tão bela que poderia ser de um quadro pintado a óleo na era renascentista.

E nessa pequena vila, havia um morador — de mais idade — sentado em uma cadeira, do lado de fora de sua casa. Com seus longos cabelos grisalhos ao vento e com olhos de alguém que já viu e presenciou muito em sua vida, ele observava, como que para se distrair, as pessoas ao seu redor. Ele passaria despercebido facilmente, se não fosse por apenas um pequeno e discreto detalhe: sobre seu colo, havia uma urna — discreta e toda azulada. Ele a carregava para todo lugar que ia, e ninguém sabia o motivo disso. Os moradores pouco sabiam sobre a origem deste cidadão peculiar, e não se atreviam a perguntar sobre seu passado — não apenas por medo dele em si, mas por receio de ser algo muito pessoal e delicado. O que se sabia era: ele morava lá havia um bom tempo; e ele carregava a urna para todos os lugares. Uma bagagem, ou talvez um fardo.

Subitamente, o velho checou as horas e se levantou, de forma que parecia estar decidido a ir a algum lugar. Ele pegou a sua urna azulada e sua mochila, se colocou a caminhar e atravessou a cidade, chegando a uma trilha, cujo o destino final é o topo de uma colina — a mais alta da região. A posição do sol revelava que a tarde estava chegando ao fim, transformando o azul do céu em uma cor crepuscular.

O caminho era fechado pela mata, e parecia abandonado. Porém, mesmo com as pequenas pontes de madeira velha, com as plantas crescendo em toda parte e com sua urna que nunca o abandona, o velho se sentiu confortável e feliz. O ar puro revigorou seus pulmões, o chão de terra macia e grama agraciou seus pés, o canto dos pássaros relaxou seus ouvidos e sua mente.

Uma série de memórias começou a passar em sua cabeça, e uma sensação estranha invadiu seu coração instantaneamente. Sentiu uma alegria sem igual, pois estava revivendo memórias felizes. Mas ao mesmo tempo sentiu uma pontada de tristeza, afinal, o que passou se foi, e não retornará mais. Enquanto as lembranças estavam em sua mente, uma lágrima brotou em seu olho e escorreu lentamente pelo seu rosto, caindo em cima de sua urna.

Depois de algum tempo caminhando e perdido em suas memorias, ele finalmente atingiu seu objetivo e chegou ao topo da colina. A vista era esplendorosa: o céu alaranjado, o sol se pondo, a vila ao fundo, as aves planando. O clima era de uma leveza surpreendente, do tipo que tira qualquer sensação ruim na hora. Porém, ainda existia algo a ser feito. O velho se abaixou, pousou a urna azul, e começou a vasculhar sua mochila. Depois de um tempo procurando, retirou dela um porta-retratos, com uma foto muito antiga — em preto e branco e extremamente gasta pelo tempo — de um casal jovem e belo. O jovem rapaz da foto é o nosso personagem em questão, e a jovem garota, sua falecida esposa. Ele olhou para a foto e sorriu — afinal, foram tempos bons, e mesmo que não seja possível revive-los, a memória continuará lá em sua mente para sempre, e no fundo, ele sabe que isso é o que importa.

Ele pousou o porta-retratos na grama macia e pegou a urna. Alguns moradores da vila conseguiam vê-lo lá de baixo, e se perguntavam o que estava acontecendo — alguns inclusive temiam pelo seu suicídio. Ele retirou a tampa da urna, e despejou ali, no topo da colina, com o vento soprando forte e com o pôr do sol ao fundo, cinzas. Esse tempo todo, ele carregava apenas as cinzas de sua amada, que há muito se fora. O vento levou as partículas, e as espalhou para todas as direções possíveis. Ele carregou esse fardo por muito tempo, e agora, finalmente, estava pronto para prosseguir com sua vida sem ele. Ele não a esqueceria, jamais faria isso, mas a partir daquele momento, ele escolheu deixar a dor se esvair, como as cinzas ao vento. A partir desse dia, os moradores da vila o chamariam de “o velho das cinzas”, e ele, viveria de uma forma mais alegre dali em diante.

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