Cansei de tentar a perfeição e foi a melhor decisão que tomei até agora

Porque por mais que você realmente se esforce para agradar a todos que ama e admira, a tendência é que fazendo isso consiga só foder com sua própria vida.

patrícia brüllinger
Nov 3 · 4 min read

— Obra do livro “Les Masochistes” de Roland Topor.

Ultimamente ando fazendo parte do grupo de vigília da oposição aos fundamentalistas religiosos que assediaram mulheres vítimas de violência sexual, outras pacientes e alguns funcionários do Hospital Pérola Byington, responsável pela grande parte dos atendimentos de mulheres que realizam abortamentos legais na cidade de São Paulo.

O grupo, organizado pelo WhatsApp mesmo, é formado majoritariamente por populares das mais diversas militâncias e crenças e se caracteriza por um intuito comum: defender o direito adquirido das mulheres atendidas no hospital e garantir que não haja recorrência de agressões e assédios.

Várias discussões acontecem diariamente, muitas produtivas inclusive. O que prevalece é o discurso manso de tentar o diálogo e a paz entre opressores e oprimidos.

Bom, particularmente, não busco a paz com quem defende estuprador e sei que é pessoal. Sei que é por conta de todo um histórico, sei que é problema “meu”.

Mas será mesmo? Porque, nos últimos meses, andei conversando com dezenas de mulheres sobre a violência masculina em suas diferentes instâncias e, juntas, lendo muita teoria — dentro da minha bolha social de esquerda, é claro — concluímos que pode ser sim impossível que mulheres brasileiras nunca tenham passado ao menos por um assédiozinho. Aquele na rua, sabe?

“Gostosa demais ein bebê, desse jeito meto um filho em você só pra comer também” — um dos últimos “elogios” que recebi na rua, em Guarulhos, onde vivo atualmente.

E, indo mais a fundo, lendo um pouco mais de Beauvoir, concluimos também que nenhuma das mulheres de um dos grupos — de um total de 16 — teria vivido um relacionamento heterossexual saudável, sem nenhum tipo de violência psicológica, especificamente falando.

Não vou me aprofundar nos dados porque mal existem e basicamente têm um espaço de observação ridiculamente pequeno, mas posso dizer que tiro dessas conversas mais aprendizado do que tirei em todas aulas de Direito Civil IV. É impressionante o poder da catarse coletiva das mulheres.

Partindo do pressuposto que o ciclo de violência doméstica se mantém sempre que a vítima continua em contato direto com o abusador — sempre acaba voltando na fase de lua de mel e posteriormente é agredida novamente, passa pelo luto e volta pra lua de mel — , como é possível que mulheres se vejam em situações de violência se ainda estão inseridas nas relações de poder que as oprimem?

Não sei responder. Não sei se quero responder pelas outras. Sei que só estou viva porque corri assim que tive a chance pra 400km de distância do meu abusador e tenho plena ciência de que só fiz isso por privilégio de classe.

Como é possível manter mulheres vivas morando sob o mesmo teto que os homens que as estupram, batem e abusam de todas maneiras que conseguem e julgam justas? Não sei.

Sei que medidas protetivas de urgência duram, em média — e quando deferidas, é claro — 90 dias. E que em 90 dias a maioria das mulheres não consegue se reestruturar sequer emocionalmente para voltar a viver. Sei que os abrigos de acolhimento a mulheres em situação de vulnerabilidade trabalham arduamente para mantê-las vivas e acolhidas, mas que não dão conta de toda demanda.

E porque comecei falando sobre o diálogo com opressores? Porque, sinceramente, em todo tempo que tenho vivido tive contato com misoginia estrutural, racismo e xenofobia, nunca vi empatia vindo de quem sente tesão em ver alguém como inferior.

Eu não quero diplomacia com estuprador não, senhores. Eu quero justiça social. Quero poder viver e ver mulheres de todas raças e classes podendo ter sua independência financeira — enquanto estamos nesse sistema, é o único meio de conseguir sair de uma situação de violência.

Honestamente, não estou pessoalmente preocupada nem por um segundo com o bem estar dos que abusam — apesar de reconhecer a absoluta relevância de quem cuida destes e a estrutura racista do sistema carcerário — , porque tenho meus transtornos mentais causados por abusadores e cuido todos os dias para não reproduzir nada disso com pessoas ao meu redor. Ter sido abusado não te dá o direito de ser um merda com outras pessoas pra “compensar” a sua.

Não tenho intenção alguma de agradar ninguém nesse mundo, tenho a intenção de incomodar os que aproveitam da fragilidade alheia para satisfazerem sua lascívia.

À esquerda pacifista deixo meu mais sincero desejo de diplomacia, só não garanto que funciona. O Chile usou o exemplo dos franceses na bastilha nas últimas semanas e tem demonstrado algum impacto político de maior relevância. Não sei o que é certo e errado, não sei se quero saber. Sei que essa sensação de buscar diplomacia com quem abusa não me desce, então vomitei tudo nesse texto.

Aos misóginos de plantão meu mais sincero desejo de mudança, porque as mulheres suburbanas de Guarulhos estão se organizando politicamente e pensando em espalhar a ideia.

    patrícia brüllinger

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    jurista, feminista, amante de jiu-jitsu e tatuagens.

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