Pejota Moraes
Sep 3, 2018 · 5 min read

GLAM “HORROR" ROCKY

Para o site “Be Style”

Este ano o mais excêntrico musical de rock já visto completa quarenta anos. Da série “ame ou odeie”, The Rocky Horror Show se tornou um marco na cultura Glam Rock, perpetuada nos anos 1970. O espetáculo estreou tímido em um teatro com capacidade para sessenta pessoas na Londres de 1973 e ganhou o mundo explorando o prodigioso universo dos filmes de ficção científica da década de 1930. Aliás, referências – ou sátiras – a outras obras é o que não faltam na história. Nas próprias canções, no figurino e no cenário era possível identificar citações de filmes como Nosferatu (1922), King Kong (1933) e Tarântula (1955) e de séries como Flash Gordon(1954).

Escrito de forma despretensiosa pelo ator neozelandês Richard O’Brien, a montagem do espetáculo só se deu quando o autor apresentou o texto ao colega Jim Sharman, que por acaso era o produtor de musicais de sucesso, como Hair (1969) e Jesus Cristo Superstar (1972). O sucesso de The Rocky Horror Show foi tanto que no mesmo ano pipocaram montagens da peça por polos acolhedores da cultura Glam Rock, como Nova Iorque e Los Angeles – cidade para onde partiram O’Brien, Sharman e sua trupe, que passou a contar com Susan Sarandon e com o cantor americano Meatloaf.

No início, a história se apoia em um velho clichê de filmes de terror: Em uma noite chuvosa, um casal de jovens universitários caretas vai a um castelo assombrado pedir para usar o telefone, pois o pneu de seu carro furou no meio da estrada. Brad e Janet – os universitários – são recepcionados no castelo por duas figuras medonhas, o mordomo Rif Raf e a doméstica Magenta. Mas o clichê para por aqui. No momento seguinte os dois presenciam um grupo de excêntricos realizando uma dança engraçada ao lado dos anfitriões e quando resolvem dar o fora dali são surpreendidos por Frank-N-Furter, um travesti gótico alienígena e cientista que está prestes a apresentar a sua mais nova criação: Rocky Horror, o amante perfeito. Qualquer semelhança com Frankenstein, não é mera coincidência.

Daí em diante segue uma série de situações impensáveis e temas como bissexualidade, traição, canibalismo e repressão sexual são abordados ao som de muito rock’n roll e baladas pop. Talvez a fiel reprodução da realidade social que parte da sociedade da época vivia, tenha sido o fator determinante para que uma história “sem pé nem cabeça” fizesse tanto sucesso e se tornasse um cult nos países de língua inglesa. É claro que a trilha sonora e o elenco genial deram o tom do sucesso. Só na Inglaterra, a peça ficou em cartaz por quatro anos ininterruptos. Aos poucos, The Rocky Horror Show, foi ganhando o mundo. Mas ainda era só o começo do sucesso.

De olho nos comentários em torno da obra de Richard O’Brien, os estúdios da Fox resolveram bancar a produção cinematográfica da obra em 1975. Ofereceram um gordo orçamento para que Jim Sharman contratasse estrelas de Hollywood para viver as esdrúxulas personagens. Ao contrário do que se poderia supor, Sharman preferiu uma receita mais modesta para que pudesse trabalhar com o elenco original da peça.

Ficariam então no elenco do filme os mesmos nomes do teatro como Patricia Quinn (Magenta), Barry Bostwick (Brad), Susan Sarandon (Janet), Meatloaf (Eddie) e o autor Richard O’Brien (Rif Raf) e eram foram dispensados nomes como Mick Jagger, que queria muito fazer o papel de Frank-N-Furter, personagem que permaneceu com Tim Curry .

Apesar de todo barulho em torno do lançamento de The Rock Horror Picture Show, inicialmente o filme foi um fracasso de bilheteria. Não havia procura por ele, até que uma rede de cinemas teve a sacada de apresentá-lo nas sessões da meia-noite. A ideia foi um sucesso absoluto e o longa passou a ser exibido neste horário em vários países, arrebentando na bilheteria. Existem salas nos EUA que até hoje dispõem de sessões especiais para fãs. De fracasso eminente, The Rocky Horror Picture Show tornou-se um fenômeno cult. O hábito de se vestir como as personagens e se reunir nestas sessões para juntos cantar suas canções deu origem a uma rockymania que se estende há décadas.

É justamente essa rockymania que dá o tom das festividades de aniversário da obra. Em 1998 a Fox Filmes lançou um DVD comemorativo marcando o aniversário de 25 anos da peça. Doze anos mais tarde, em 2010, uma apresentação celebrou os 35 anos do filme. Com representações das cenas e esquetes musicais, o encontro contou com a participação de grandes nomes do cinema e das séries, como Jack Nicholson, Lea Michele, Danny DeVito, Matthew Morrinson e Jorge Garcia. No meio da apresentação coreografada da canção “Time Warp”, Tim Curry e Barry Bostwick se juntaram aos demais na coreografia que remete a uma espécie de dança do acasalamento alienígena.

O sucesso estrondoso de The Rocky Horror Show não foi tão esfuziante em terras tupiniquins. No Brasil, a primeira montagem da peça chegou em 1975, ano em que o mundo já assistia à versão cinematográfica. A iniciativa foi do produtor Guilherme Araújo – o então empresário de Caetano e Gil –, que chamou Rubens Correa para dirigir, Jorge Mautner para adaptar e Zé Rodrix para cuidar da direção musical do espetáculo. No elenco, nomes como Ricardo Conde, Wolf Maya, Lucélia Santos, Bettina Viany, Vera Setta, entre outros. Mesmo com o time, não teve sucesso. Dez anos depois, quando o filme finalmente chegou por aqui, o mesmo desastre se repetiu nas bilheterias de cinema.

Em 1994, o ator e diretor Jorge Fernando insistiu em uma nova montagem do clássico para o teatro com direito a clipe de divulgação exibido no Fantástico da Rede Globo. Não foi um incrível sucesso, mas teve bilheteria apesar de não agradar o público cativo da obra. Mesmo assim, Tuca Andrada ganhou como melhor ator, em 1996, o Prêmio Cultura Inglesa de Teatro pela sua atuação como Frank-N-Furter. A questão é que a sequência de mornas apresentações de The Rocky Horror Show por aqui se deu ao fato de que a obra é composta por uma série de elementos que fazem parte da cultura Glam Rock, movimento que não ganhou força no Brasil. Neste caso, a proposta trash resultou em dinheiro jogado fora. Até o filme americano patinou até deslanchar.

O cenário audiovisual vive revisitando o clássico. Filmes como As Vantagens de Ser Invisível (2012) e Halloween 2 (2009) referenciaram a obra e as séries Cold Case – Arquivo Morto e Glee trouxeram representações de seus musicais. A apresentação de Glee, no episódio de Halloween da série em 2010, reacendeu a chama em muitos fãs. Apesar de receber duras críticas de Richard O’Brien – que demonstrou insatisfação com o fato da história ter sido diluída, de Frank-N-Furter ter sido interpretado por uma mulher e pela palavra transexual ter sido censurada – a versão apresentada pela série colocou o diretor, Ryan Murphy, como preferido para dirigir um remake que estaria sendo preparado pela Fox em parceria com a MTV para 2015, quando o filme completará 40 anos.

Rumores dão conta que Anthony Head (Dama de Ferro), Nicole Kidman (Moulin Rouge) e Russell Crowe (Os Miseráveis) – que já atuou em uma montagem da peça na Austrália – estariam cotados para a nova versão. Resta saber se vale realmente mexer em um clássico que já foi perpetuado pelo contexto histórico de uma época que já não existe mais.

Pejota, inspirado em um fevereiro de 2013.

Pejota Moraes

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Roteirista, escritor, gestor, radialista, paulistano e trouxa de vez em quando.